Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências.

Oito temporadas ao mais alto nível, repartidas por dois continentes, três países e seis clubes. Uma alma embalsamada de relva. A agenda existencial de Fabiano José Costa Flora não previa outra coisa. O técnico de 32 anos fez escola em Itália. Regressou a Portugal para estender horizontes entre Olhão e o Mondego.

Em 2015 decidiu arriscar um trajeto exótico, ao abraçar o futebol de Myanmar. O viseense ultrapassou as saudades da família e soube lidar com as seis horas e meia de diferença no fuso horário. De passagem impôs-se como um dos treinadores mais jovens em campeonatos asiáticos. Eis a história de um timoneiro português, rendido ao país dos majestosos templos budistas.

«Um “laziale” ferrenho» que adora Totti

Natural de Penedono, foi no distrito de Viseu que começou a dar pontapés na bola. Primeiro como júnior federado do Clube Académico de Futebol (2002-2004), mais tarde nos seniores do Lusitano FC (2004/05). Ao mesmo tempo foi desenvolvendo carreira na academia. Integrou os quadros da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e tocou o grau de mestre em Ciências do Desporto. Pelo caminho, descobriu horizontes profissionais em Itália.

«A Lazio surgiu com um programa de Erasmus. Durante uma época foi possível a realização de um estágio técnico pedagógico neste clube, através da Universidade de Desporto de Roma e da UTAD», revela Fabiano Flora em conversa com a MF Total. Só que a aventura romana não iria findar aqui.

«No final do estágio, o responsável do Sector Juvenil propôs-me que prolongasse o meu vínculo com o clube. Fiquei claramente muito contente, mas ciente da responsabilidade que tinha nas mãos. A Lazio é um grande clube, com uma história fantástica. O meu objetivo era deixar uma imagem muito positiva de mais um português que por ali passou, tal como o Sérgio Conceição e o Fernando Couto», rememora.

Entre setembro de 2009 e junho de 2013, o treinador de 32 anos semeou contactos na escola italiana. «Não posso deixar de frisar a importância que teve para mim lidar de perto com treinadores e ex-jogadores de classe mundial, como é o caso do [Pep] Guardiola, do grande Roberto Baggio, do [Cesare] Prandelli ou do [Arrigo] Sacchi, entre outros. Foram e são para mim exemplos de grande profissionalismo e humanidade. São estas experiências fantásticas que ficam marcadas para sempre na nossa memória, porque jamais se encontram nos manuais», admite.

Fabiano e o irmão no Olímpico de Roma (Foto arquivo pessoal)

Sem sombra de dúvidas, Fabiano sentiu-se afortunado na capital transalpina. Rubricou o primeiro contrato profissional, lecionou na Universidade de Desporto de Roma e viu nascer a sua filha. «É impossível não pensar em todas as coisas que me trouxeram grande felicidade. Os fantásticos jogos do [Francesco] Totti, apesar de ser um “laziale” ferrenho. As caminhadas noturnas pelas ruas da cidade, pois Roma transforma-se completamente ao anoitecer. O café expresso, que é fabuloso! Bem… tantas recordações», enumera.

Três meses depois, Flora seguiu para Turim. Na Juventus manteve funções de treinador das camadas jovens e encontrou pontos de contacto com a logística romana. «Lazio e Juventus são clubes de nível mundial. Portanto a organização em si não pode ser colocada em causa. São clubes com estilos próprios de trabalhar, com metodologias muito similares, onde ainda se estabelece a propriedade do desenvolvimento do indivíduo em si, sobretudo do ponto de vista técnico, emocional e social», indica, reforçando o lado humano do jogo.

«Criei amizades que ainda hoje persistem. Fico contente em rever amigos quando vêm a Portugal jogar para as competições europeias, como aconteceu recentemente no jogo entre Porto e Juventus», refere. Contas feitas, quatro anos bastaram para o técnico viseense ficar rendido ao rigor pormenorizado do país em forma de bota.

«Não se trata de adotarem um sistema mais defensivo, trata-se sim de serem mais organizados do ponto de vista defensivo. Muitos dos princípios que os treinadores em Portugal defendem são abordados de maneira oposta em Itália. Tudo vem definido segundo um parâmetro tático individual e coletivo, que depois dá forma ao sistema que o define», descreve.

«Levámos o sonho da permanência até à última jornada»

Nos primeiros dias de 2014, Fabiano foi convidado a regressar ao país de origem. Motivo? Salvar o Olhanense da descida. Entre as funções de adjunto e preparador físico, o português era tradutor das ideias vincadas pelo italiano Giuseppe Galderisi. Assume ter sido uma experiência «muito gratificante», apesar de ter ficado associado ao último ano em que a equipa algarvia pisou os palcos da primeira divisão.

«Tem a ver com os resultados da primeira volta, que não foram da nossa responsabilidade. Desde a nossa chegada fizemos um trabalho muito profissional com aquilo que tínhamos à disposição. Levámos o sonho da permanência até à última jornada. Descemos com a mesma pontuação do Paços de Ferreira, embora eles tenham marcado um golo a mais no confronto direto», recupera, sublinhando as vitórias sobre FC Porto e Rio Ave, além das «boas exibições em Alvalade e na Luz».

O Olhanense foi o derradeiro representante do Algarve na primeira divisão (Foto Lusa)

Depois, o treinador de Penedono seguiu para a Académica. Durante um ano abraçou o papel de coordenador do departamento de prospeção. «Acho que nunca tinha visto tantos jogos de futebol na minha vida, entre primeira e segunda ligas, CNS [Campeonato Nacional de Seniores] e formação. Aprendi imenso com o presidente José Eduardo Simões, uma pessoa fantástica e muito competente, com o qual mantenho um contacto cordial nos dias de hoje», assume.

Três anos volvidos, os resultados estão à vista. A Académica voltou a ter as três principais equipas da formação na fase final dos campeonatos nacionais. O feito tem vinte anos de intervalo e fez notícia na época que está prestes a terminar. No plano pessoal, Fabiano Flora sentiu-se «mais completo e preparado para responder às diferentes situações» com a estadia nas margens do Mondego. Mas o melhor ainda estava por vir.

«Na Ásia o trabalho vai muito além da tática ou da técnica»

O verão de 2015 propiciou o regresso ao futebol estrangeiro. O viseense foi viver para a República da União de Myanmar, dona de uma moldura geográfica complexa. Intercalado a noroeste pelo Bangladesh e pela Índia, a norte e nordeste pela China, a leste pelo Laos, a sudeste pela Tailândia, ao sul pelo mar de Andamão e pelo canal do Coco e a oeste pelo Golfo de Bengala. Assim está demarcado o maior país do sudeste asiático continental.

Fabiano chegou à antiga Birmânia para ser adjunto do trota-mundos Stefan Hansson. No primeiro ano alcançou o oitavo lugar pelo Zeyar Shwe Myay. Depois assumiu o controlo total, sendo um dos treinadores mais jovens a trabalhar numa primeira divisão de um campeonato asiático.

Em 2016 assinalou o sexto posto entre 12 equipas, quando o objetivo era a permanência. Com 34 pontos conquistados, vinte acima dos lugares de descida. «Fizemos uma época fantástica, ao ficar a escassos pontos do segundo lugar [seis, em abono da precisão]. Foi extraordinário, dado o orçamento que o clube tinha à disposição», acentua o timoneiro português, que colocava os treinos na cauda das prioridades.

«Na Ásia temos de estar cientes dos problemas que envolvem toda a organização dentro e fora de campo. Temos de estar preparados para resolver todo o tipo de situações. O nosso trabalho vai muito além da tática ou da técnica. No Zeyar era mais do que um simples treinador principal. Penso que a última coisa com que me preocupava era mesmo o trabalho de campo, de treino em si. Mas são estas experiências que nos tornam melhores seres humanos e melhores treinadores», vinca.

Com uma equipa dominada por futebolistas provenientes das camadas jovens, o Zeyar só perdeu duas vezes na segunda volta. Flora fortaleceu os alicerces da estrutura, mas acabou no desemprego. O emblema de Monywa entrou em divergências políticas com o governo local e viria a ser extinto. «Foi uma pena porque as bases estavam criadas para o futuro. Tenho a certeza que iríamos ter êxito na presente época desportiva», afiança.

«No entanto deu-me um gozo enorme trabalhar com um grupo de rapazes de um enorme coração, que estavam dispostos a lutar pelo clube. Conseguimos resultados extraordinários, embora as dificuldades das suas qualidades individuais fossem evidentes», aponta, frisando um jogo em particular.

«Lembro-me do jogo contra o primeiro classificado [Yadanarbon FC], que necessitava apenas de um ponto para se sagrar campeão. Fizemos um jogo fantástico, de pressing alto durante os 90 minutos. Conseguimos ganhar por 1-0», recorda. Por causa de ter adiado a festa do adversário, Fabiano coloriu a manchete do maior jornal desportivo de Myanmar. Até foi comparado como filho do técnico adversário, o quase septuagenário René Desaeyere.

No Zeyar, Fabiano teve honras de manchete por impedir que o Yadanarbon se sagrasse campeão em Monywa (Foto arquivo pessoal)

Melhorar em pouco tempo? «Mudámos radicalmente a forma de pensar»

A paragem serviu para recarregar energias. Uma escolha voluntária, porque as solicitações apareciam em cada esquina. «Tive vários convites, desde Líbano, Kuwait, Índia, Maldivas e África. Alguns dos projetos não me convenceram por vários motivos. Noutros nunca cheguei a um acordo final», explica.

Seis meses depois, o futebol de Myanmar voltou a chamar pelo treinador de 32 anos. Neste caso o Southern United. Curiosamente, emblema que havia descido desportivamente na última temporada. Mas ganhou um lugar na National League às custas da saída do Zeyar Shwe Myay.

«Decidi aceitar o convite do Southern, pois alguns dos meus ex-jogadores e staff transferiram-se para lá», justifica. Novamente, foi encontrar um plantel recheado de jogadores locais. Pelo meio há um sérvio, um macedónio e um brasileiro, que valorizam uma equipa que andava nas ruas da amargura.

«O Southern fez uma primeira volta muito má, apenas com uma vitória em quatro meses. Terminou em antepenúltimo lugar, mas felizmente começamos a segunda volta muito bem. Em quatro jogos perdemos apenas um, sendo que dois deles foram contra o primeiro [Yangon United] e o segundo [Shan United]», descreve.

A estatística não mente. Até à chegada de Fabiano Flora o clube de Mawlamyaing beijava a zona de despromoção. Num mês ascendeu três lugares, totalizando 15 pontos em outras tantas rondas. Na taça atingiu os quartos-de-final. «Mudámos radicalmente a nossa forma de pensar, através de uma nova metodologia. Consegui em pouco tempo transmitir-lhes uma mentalidade positiva baseada no trabalho árduo com bola. Organizei a equipa à minha maneira, com princípios específicos nos quais eu me identifico», refere, apontando a melhorias no processo coletivo.

«O nosso objetivo passa claramente pela manutenção. Estamos a meio da tabela e respiramos um pouco melhor. Conheço muito bem o campeonato e entendo que irá ser muito difícil, dado o equilíbrio existente entre as equipas. Não é tempo de euforias, é tempo de trabalhar mais e melhor. E cimentar também as bases para o futuro, para que se consiga lutar por outro tipo de objetivos», augura.

«A vantagem do fator casa torna-se num grande transtorno»

Na verdade, tempo não vai faltar. O campeonato entrou numa longa paragem, regressando apenas em setembro. «Será por causa dos jogos da seleção nacional. É compreensível porque Yangon, Shan e Yadanarbon possuem grande parte dos jogadores da seleção. Desta forma seria impossível prosseguir o campeonato, pois não conseguiriam integrar jogadores suficientes na lista de jogo. De qualquer forma, trata-se de uma paragem muito longa, de três meses, que nos obriga a programar novamente o nosso trabalho», confessa.

Na globalidade, a liga é composta por 12 equipas e 22 jornadas. Começa em meados de janeiro e termina em outubro, já bem dentro do outono. Os três clubes referenciados no parágrafo anterior vivem num mundo à parte: dividem o topo da classificação, dominam a seleção de Myanmar e são mais endinheiradas que a maioria dos emblemas da primeira liga portuguesa.

«As restantes equipas compõem os seus plantéis por jogadores provenientes da formação, como é o caso do Southern», constata Fabiano, inserido num campeonato muito peculiar. Todos os clubes, sem exceção, treinam em Yangon, a maior cidade do país. Alguns são mesmo obrigados a percorrer imensas horas e incontáveis quilómetros para jogar no seu próprio estádio. «Se, à partida, a vantagem do fator casa deveria ser um aspeto relevante, a verdade é que se torna num grande transtorno», defende.

O tempo entre as viagens é passado com tranquilidade. Há tempo para tudo: descansar, pôr a conversa em dia, programar os treinos seguintes e observar os jogos do adversário. De regresso à antiga capital da Birmânia, o quotidiano arranca bem cedo. «Levanto-me todos os dias às 05h30 da manhã, pois os treinos têm início às 07h00. O calor obriga-nos a este tipo de horários de trabalho. Algumas vezes até fazemos sessões bidiárias», conta.

E quanto existem jogos a meio da semana, a planificação muda? «Nem sempre acontece, mas torna-se um verdadeiro problema. Além de os jogadores se sentirem bastante cansados do jogo anterior, terão ainda de suportar longas viagens de regresso. Como deve imaginar, não há tempo sequer para a realização de um treino de recuperação ou de preparação do jogo seguinte», lamenta.

Nada rara é a ocorrência de situações caricatas. Convidado a dar um exemplo, Flora lembra uma distração ocorrida a meio de uma longa viagem para jogar fora. «No percurso visitámos um lago enorme e belíssimo, através de uma canoa tradicional. Lá encontramos os famosos pescadores burmeses, que seguram o remo com uma mão e a rede com um dos pés. Bem, a meio do percurso a canoa ficou sem gasolina. alguns jogadores e staff não sabiam nadar e estavam apavorados com a situação. Passado algum tempo de espera e de muito riso, lá chegou outra canoa com a gasolina e lá voltamos ao nosso percurso», revive com alguns sorrisos à mistura.

Entre budas «é impossível não esboçar um sorriso»

A cumprir a segunda passagem pelo sudeste asiático, o treinador viseense não podia estar melhor entregue. Sim, vive sozinho e tem a família a mais de vinte e uma horas de distância aérea. Mesmo assim garante estar adaptado ao país dos grandes templos budistas.

«Eu adoro Myanmar. Identifico-me muito com esta cultura, que acolhe bem os estrangeiros. No início não é fácil, pois a mudança de estilo de vida é bastante radical. Mas com o tempo conseguimos integrar-nos nas tradições deste povo», refere, destacando a menorização que é dada ao materialismo.

«Brinco muitas vezes com as pessoas porque estão sempre a sorrir. É impossível não esboçar um sorriso também. São gente fantástica e simples, que vive e é feliz com muito pouco. Só depois vêm os valores materiais», avisa.

Durante décadas Myanmar viveu subjugado a uma ditadura militar, um dos países mais pobres do mundo. As primeiras eleições democráticas só aconteceram em 2011, com Aung San Suu Kyi – Nobel da paz em 1991, que viveu uma quinzena de anos em prisão domiciliária e foi durante décadas o rosto da resistência, no cargo de primeira-ministra.

Entretanto o país cresceu ligeiramente. Estabeleceu Naypyidaw como nova capital, retirou proveitos dos solos férteis e abriu portas aos estrangeiros. É uma nação maioritariamente budista, quase 88 por cento dos mais de 51 milhões de habitantes. Pelas ruas é frequente encontrar monges de túnica avermelhada e cabeça rapada, além de pessoas com um “longyi” – túnica de algodão até aos pés – amarrado na cintura.

«São um povo muito religioso. Vive-se realmente um ambiente de paz e serenidade cada vez que se entra nos locais sagrados budistas. Nos dias de lua cheia é habitual todas as pessoas irem a estes monumentos para rezar. Recentemente vivi de perto este ritual religioso. São aventuras pessoais que nos marcam para toda a nossa vida. Se queremos ser respeitados temos de saber, em primeiro lugar, respeitar os outros», defende Fabiano, lembrando a visita da equipa do Leicester City a Myanmar logo após a conquista do campeonato inglês.

A alimentação é dominada por arroz apimentado, sobretudo acompamhado de frango, bem como um lote diversificado de espécies e frutas tropicais. «Só ainda não consegui petiscar os morcegos fritos e os saltaricos», solta o português, que só não suporta o clima abrasador. «Vou ser franco: o tempo é o que mais me incomoda. Está sempre um calor infernal. Mesmo em tempo de chuva não se suporta aquele ar abafado», confessa.

Prova disso é que em dias de jogo há duas interrupções (à meia hora e a vinte minutos do final) para hidratação.

Difícil apagar a rendição oriental

Por agora, Fabiano Flora só pensa em usufruir da nova estadia no antigo território birmanês. «Gosto imenso de viver novas aventuras. Irei prosseguir a minha estrada, sem pensar muito do dia de amanhã. Ser um dos mais jovens treinadores a trabalhar numa primeira divisão em toda a Ásia já é motivo de grande satisfação e realização pessoal», valoriza, adiando a ideia de progredir o itinerário académico.

«Há uns anos tinha essa ideia em mente. Mas a vida dá muitas voltas. De momento é impossível prosseguir os estudos. Talvez num futuro próximo tenha esse tempo para então terminar o doutoramento e o último nível da UEFA», acredita. Até porque, afinal, o regresso ao país-natal é mais difícil do que parece.

«Não há muita margem para treinadores jovens nas nossas ligas profissionais. A qualidade está associada à própria idade, na mente dos responsáveis dos clubes. Esta é a realidade que se vive no meu país campeão europeu», lamenta, completando o raciocínio com críticas à filosofia lusa.

«Não quero com isto dizer que discordo do modelo. Aceito-o, mas com alguma amargura. Há vários exemplos de treinadores jovens europeus com bastante qualidade a trabalhar em ligas profissionais importantes. Acredito que se estes mesmos treinadores fossem de nacionalidade portuguesa ainda hoje se encontravam a treinar os escalões jovens. Além de nem sequer conseguirem obter o próprio diploma de treinador», remata.