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23 nov, 10:16
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À procura da glória no reino de Preste João

Sobrinho de antigo guarda-redes do FC Porto e do Sporting esteve cinco anos a acumular experiência em Angola antes de aceitar o desafio inesperado de ir treinar para a Etiópia. O relato de um país que já pouco tem a ver com aquele que nos anos oitenta era motivo de notícia, ao som de «We are the world», pela seca e pela fome extrema. Venha daí conhecer a aventura de Carlos Vaz Pinto.

À procura da glória no reino de Preste João

Sobrinho de antigo guarda-redes do FC Porto e do Sporting esteve cinco anos a acumular experiência em Angola antes de aceitar o desafio inesperado de ir treinar para a Etiópia. O relato de um país que já pouco tem a ver com aquele que nos anos oitenta era motivo de notícia, ao som de «We are the world», pela seca e pela fome extrema. Venha daí conhecer a aventura de Carlos Vaz Pinto.

Mais de quinhentos anos depois da demanda por Preste João, na antiga Abissínia, volta agora a haver um português à procura de conquistas e glória na Etiópia. Carlos Vaz Pinto, que até tem nome de navegador, está a treinar o Saint George Sports Club, o maior clube de Adis Abeba e de toda a Etiópia e estreou-se no passado domingo no campeonato etíope. O «Estórias Made In» foi tentar perceber como é que um treinador português, de 43 anos, foi parar a este improvável país do corno de África.

A existência de um lendário reino cristão no oriente foi uma fantasia que sempre perseguiu e estimulou os descobridores portugueses no século XV. Uma lenda que se transformou em obsessão, com vários emissários a procurar dar vida à lenda, chegando mesmo a dar um nome ao mítico poderoso rei a quem chamaram Preste João e, inclusive, uma suposta localização do reino cristão na antiga Abissínia, a atual Etiópia. Preste João nunca foi, na verdade, encontrado, mas continuou a estimular o imaginário dos portugueses por muitos anos. Quase seiscentos anos depois, há um novo português há descoberta da Etiópia.

Carlos Vaz Pinto aterrou em Adis Abeba a 13 de setembro para estudar uma proposta de contrato de dois anos para treinar o maior clube do país. «Corresponde ao Benfica em Portugal. É o clube com mais títulos, ganhou os últimos quatro de forma consecutiva, é um clube que tem muitos jogadores na seleção, é o clube que mais adeptos tem no país. Vivem o dia-a-dia do clube de forma intensa e apaixonada, o estádio está sempre bem preenchido com os nossos adeptos e isso acaba por ser motivador», começa por contar Vaz Pinto que chegou a este país depois de ter treinado três clubes diferentes em Angola ao longo de cinco anos.

«Do ponto de vista social é um país diferente em relação ao que estava habituado em Angola. É um país com uma identidade muito própria pelo que tenho vindo a perceber. Não sei se é o único, mas é pelo menos um dos poucos países africanos que nunca foi colonizado. Tem uma língua [o Amárico] que é difícil, mas em termos de comunicação as pessoas que me rodeiam acabam por comunicar comigo em inglês», conta.

Uma realidade bem diferente daquela que os europeus fixaram dos anos oitenta em que o país era notícia, ao som de «We are the World», de Michael Jackson e Lionel Richie, pela fome e pela guerra com a vizinha Eritreia. Puro engano. «É ao contrário. Antes de vir para aqui fiz obviamente o meu trabalho de casa e as pessoas falavam-me precisamente disso, da fome e da guerra, mas, neste momento, a Etiópia e a sua capital Adis Abeba são um país e uma cidade seguros. Por exemplo, saímos à noite e não encontramos polícias na rua, Não existe criminalidade, comparando com o que de facto vivi em Angola é muito diferente. É um país onde nos sentimos seguros, mesmo sem ver a polícia à noite», conta. «Relativamente à questão da fome, só quem não conhece África ou a Etiópia é que relaciona o país à questão da fome. Existe pobreza como existe nos outros países de África, mas as pessoas com 10 birres [moeda local], que é insignificante em termos do Euro [1 euro=32 birres], qualquer pessoa consegue comer uma refeição na Etiópia. Obviamente que há pobreza, mas para mim a cidade foi uma agradável surpresa. Encontrei um país de facto diferente da ideia que normalmente temos em relação à Etiópia».

Adis Abeba, um dos berços da humanidade, acaba por ser uma cidade bem cosmopolita que alberga várias religiões. A maioria são ortodoxos, mas também há muçulmanos, cristãos e judeus. «É uma cidade muito grande. Tem muita diplomacia, tem, por exemplo, a sede da União Africana. Adis Abeba está para África como Bruxelas está para a Europa. A sede das Nações Unidas em África também é aqui, tem muitas embaixadas, portanto do ponto de vista diplomático tem muitos estrangeiros. Tem também muita população. Oficialmente no centro vivem três milhões de habitantes, mas as pessoas mais próximas de mim dizem-me que são mais de dez milhões de pessoas em toda a cidade», conta ainda.

A inspiração no tio António Vaz, campeão no Sporting

Foi nesta altura que decidimos recuar no tempo, até ao final dos anos setenta, à infância de Carlos, para percebermos como chegámos até Adis Abeba. Carlos Manuel Vaz Pinto nasceu em Penalva do Castelo no seio de uma família de futebolistas. «O meu pai jogou à bola, os meus tios também jogaram. Guardo boas memórias desses tempos, em que íamos ver o meu tio António a Alvalade». António Vaz, tio de Carlos, foi guarda-redes do FC Porto, do V. Setúbal de José Maria Pedroto e campeão no Sporting em 1980/81, numa altura em que dividia a baliza leonina com Fidalgo depois de Botelho ter saído para o Benfica. «Tenho bem presente o título do Sporting em 1981. Tinha sete ou oito anitos, recordo-me do meu tio ter sido campeão e ter ido ao estádio com o meu pai. Desde pequeno que tenho ligações muito fortes ao futebol», começa por contar.

Com o futebol a correr nas veias, Carlos começou a jogar cedo no clube da terra. Aos dez anos já jogava no Penalva do Castelo. «Não tinha idade, mas tinha altura para disputar os campeonatos. Lembro-me que mesmo não tendo idade para jogar, o treinador meteu-me a jogar no último jogo do campeonato. Do ponto de vista oficial fiz apenas uma época no Penalva, a minha primeira época de iniciado. Depois fui para o vizinho Mangualde e acabei por ir para o Académico de Viseu no ano seguinte», recorda. Carlos acaba por completar a formação em Viseu, passa a sénior e entra no futebol profissional. «Fui campeão na idade de juvenis na II Divisão, com o professor José Moniz, e passei a sénior. Depois tive uma lesão e fui emprestado ao Lusitano de Vildemoínhos e mais tarde ao Tondela onde estive dois anos na II Divisão». Os sucessivos empréstimos retiraram ânimo a Carlos que, desde cedo, começou a equacionar alternativas para seguir a sua carreira. «Na altura o Tondela sentiu algumas dificuldades do ponto de vista financeiro e comecei a pensar que o melhor era concluir os meus estudos. Já tinha o 12º ano, tinha parado de estudar porque tinha optado pelo futebol, depois de assinar um contrato profissional com o Académico. Foi aí que tomei a decisão de tirar o curso de educação física», recorda.

Carlos acabou por deixar mesmo o futebol profissional, mas continuou a jogar em vários clubes da região de Viseu [Fornos de Algodres, Oliveira do Hospital, Arrifanense e de novo no Penalva do Castelo], ao mesmo tempo que acabava a licenciatura em Educação Física. A vida de Carlos ganha um novo ímpeto. Começou a dar aulas de manhã, a treinar os miúdos à tarde e ainda treinava com os seniores à noite. Pelo meio, foi colocado na Madeira, como professor, mas continuou a jogar com a camisola do Machico. «Acabei por deixar o futebol profissional, mas ainda fui jogando em vários clubes da região de Viseu e fui um ano para a Madeira jogar no Machico por questões profissionais. Na altura já era licenciado em Educação Física, tinha sido colocado na Madeira para dar aulas». Já com o segundo nível do curso de treinador, Carlos acaba por regressar às origens, a Penalva do Castelo. «Depois de vir da Madeira, o meu treinador do Penalva começou a incentivar-me para ir treinar os escalões de formação do clube. Nesses primeiros anos não só treinava, como coordenava a formação do clube e simultaneamente também jogava nos seniores e ao mesmo tempo dava aulas na escola local. Era professor no quadro».

De Penalva a Coimbra e de Coimbra ao...Huambo

Em poucos meses, a carreira de Carlos como treinador ganha um novo impulso. «Treinava os juniores do Penalva e os seniores do Souzerense que era uma espécie de clube satélite do Penalva. Curiosamente os seniores tinham sido meus jogadores dos juniores no ano anterior, foi um projeto interessante. Depois surgiu a oportunidade de ir para a Académica. Fui treinar os sub-14 por alguns meses, depois o treinador dos juniores foi para o Qatar e fui convidado a assumir os sub-19». É já em Coimbra que Carlos estabelece os contatos que mais tarde o acabariam por conduzir ao continente africano. «Ia para o Sertanense quando surgiu um convite para ir para Angola. Foi através do diretor desportivo do Recreativo de Caála, que era de Coimbra e lecionava em Coimbra. Ele tinha saído da Académica para ir para Angola e mais tarde acabou por convidar-me para ir também».

Depois de Penalva do Castelo e Coimbra, Carlos estava a caminho do Huambo, para um mundo totalmente desconhecido. «Tinha um mínimo conhecimento de um amigo ou outro que trabalhou no país, mas foi quase um tiro no escuro. Acabou por ser facilitado porque boa parte da equipa técnica que já lá estava, o fisioterapeuta e alguns treinadores, tinham vindo de Portugal o que acabou por facilitar a minha integração. Mas é de facto uma diferença grande quando chegamos a África. Há diferença significativas comprando com o nosso dia-a-dia em Portugal, mas acho que me adaptei muito bem. Prova disso é que já estou em África há algum tempo», conta.

À partida, a experiência em Angola seria para durar apenas alguns meses, até ao final da época, como adjunto, mas acabou por prolongar-se. «Fui para Angola como adjunto, mas no final da primeira volta, as coisas não estavam a correr bem desportivamente e o treinador principal, que já tinha sido observador do clube, voltou às antigas funções e o presidente convidou-me para assumir a condução da equipa. Acabámos por levar a equipa à final da Taça de Angola e conseguimos o principal objetivo que era a manutenção».

Apesar dos objetivos cumpridos, Carlos Vaz Pinto, na época seguinte, voltou à condição de adjunto. O futebol nem sempre segue a lógica e em África muito menos. «No ano seguinte veio o mister Ricardo Formosinho e voltei às funções de adjunto. Na época seguinte as coisas não correram bem ao Ricardo e eu na altura estava em Portugal a tirar o curso da UEFA Pro. Quando regressei fui convidado a terminar a temporada. Na época seguinte já comecei como treinador principal e acabámos por ir às meias-finais da Taça e nas competições africanas passámos duas eliminatórias da Taça das Confederações e ficámos à beira da fase de grupos, o que foi histórico para o clube».

Ao fim de dois anos no Huambo, Carlos estava determinado a voltar a Portugal, mas encontrou as portas fechadas. «Senti que as coisas tinham corrido bem no Recreativo Caála, tinha a expetativa de voltar a Portugal, mas os projetos em Portugal não me seduziram para trabalhar no país e acabei por voltar a Angola». Depois do Huambo, Carlos ia agora para Benguela treinar a Académica do Lobito. «Um clube com muito menos recursos do que o Caála. Do ponto de vista desportivo acabou por ser um passo atrás, mas acreditei que se voltasse ao ativo, mais tarde ou mais cedo poderia receber um convite para um clube melhor, como veio a acontecer com o Libolo».

Passagem por Famalicão, antes de Adis Abeba

Quando menos esperava, Carlos acaba por receber um convite para voltar a Portugal. Um convite inusitado para assumir as funções de diretor desportivo e coordenador da formação do Famalicão. «Surgiu essa oportunidade. Não me tinha passado pela cabeça desempenhar essas funções, mas quando estive na Académica também fui diretor técnico. Embora as funções sejam ligeiramente diferentes, acabam por ter muitas semelhanças. Para mim não foi difícil desempenhar essas funções no Famalicão. Acabei por estar ligado ao projeto da edificação do clube como entidade formadora. Foi uma experiência boa que me permitiu também ver o outro lado do dia-a-dia de um clube de futebol. Saí mais rico essa experiência», recorda.

Esta conversa decorreu poucas horas depois do Famalicão perder em Alvalade em jogo da Taça de Portugal. «Não tive oportunidade de ver, vi apenas o resumo, mas vi que tiveram um excelente desempenho. Fico de facto muito contente, porque o Famalicão é um clube especial, tem uma massa adepta que me marcou. É um clube que merece todo o sucesso. O resultado diante do Sporting é um resultado que as pessoas de Famalicão não desejavam, mas penso que estão orgulhosos pelo jogo que fizeram em Alvalade», comenta, num aparte desta viagem.

Uma experiência que acabou por ser curta em Vila Nova de Famalicão, porque o Girabola não tinha esquecido Carlos Vaz Pinto. Desta vez era um clube grande que fazia o convite. O Libolo que tinha sido campeão em 2015 e conquistado a Taça de Angola em 2016. «Era o que precisava em ternos técnicos para consolidar a minha carreira como treinador, embora o Libolo, na altura, estivesse num processo de transição. O presidente Rui Campos estava a preparar da sua candidatura para presidente do Comité executivo da CAF [Confederação Africana de Futebol]. Acabou mesmo por sair e isso acabou por marcar a época do Libolo». Além disso, a conjuntura económica de Angola não era nada favorável. «Não foi só isso, os clubes em Angola estão agora com dificuldades acrescidas em termos financeiros porque de facto o país está mergulhado numa crise financeira. O Libolo no passado não tinha problemas, mas nesse ano acabou por também por passar por isso».

Além da crise económica, Angola passa agora por profundas mudanças políticas, com a tomada de posse do novo presidente João Lourenço e da aparente perda de influência da família de Eduardo dos Santos. Apesar de estar agora radicado em Adis Abeba, Carlos continua a acompanhar as notícias que chegam do outro lado do continente. «Estou a par das notícias diariamente. Creio que se avizinham ainda mais mudanças. Pelo que as pessoas me vão relatando do perfil do presidente João Lourenço, acredito que venham mais mudanças significativas. Se o povo angolano fica feliz, penso que é positivo. Vejo algumas reações muito positivas da população em geral, sinto que as pessoas estão felizes com as mudanças. Eu estive no país como estrangeiro e senti também que o anterior presidente teve um papel importante na manutenção da paz. Cometeu erros com toda a certeza, mas também foi importante na estabilização do país», comenta.

Apesar de tudo, a época, em termos desportivos, até foi positiva. «Há muito tempo que uma equipa angolana não chegava a uma fase de grupos de uma competição africana. Este ano conseguimos e até tivemos um desempenho que considero meritório. Defrontámos o ZESCO United, da Zâmbia, que na época anterior tinha sido semifinalista da Liga dos Campeões. Tivemos um desempenho muito bom. No campeonato, quando me vim embora, estávamos a um ponto do terceiro lugar, com menos um jogo e ainda estávamos na Taça de Angola».

A verdade é que Carlos não termina a época no Libolo. Pelo meio surge um convite proveniente da Etiópia. «As primeiras conversas surgiram em junho. O St. George estava à procura de um novo treinador e procurava no contexto africano um perfil de treinador que acabou por ir ao meu encontro. Queriam um treinador jovem, mas que tivesse alguma experiência em África e se possível nas competições africanas onde o St. George acaba por estar sempre presente», conta.

O convite era aliciante. Não só em termos financeiros, mas sobretudo pela perspetiva de permitir a Carlos ir para uma capital de um país com todas as condições adjacentes. Nos últimos cinco anos, Carlos tinha trabalhado em três clubes angolanos, tinha deixado marca no Girabola, mas tinha trabalhado sempre em clubes de província. Primeiro no Huambo, depois em Benguela e, já este ano, no Kwanza Sul. «É sempre difícil quando estamos fora do país há algum tempo. Em Angola trabalhei sempre nas províncias, nunca trabalhei na capital. Portanto, nunca tive a possibilidade de ter a família junto de mim. Tenho um filho e era difícil ele estudar em Angola nos sítios onde trabalhei. Aqui é um bocadinho diferente, Adis Abeba tem alguns colégios internacionais, a minha família já pode viajar de avião para aqui. A família acabou por aceitar esta possibilidade porque perceberam que este clube tem uma dimensão muito maior do que os clubes onde trabalhei em Angola», comenta. Em termos desportivos, Carlos já tinha uma ideia sobre o que ia encontrar. «Já conhecia o St. George porque o meu primeiro clube em Angola, o Recreativo Caála, já os tinha defrontado para a Liga dos Campeões. Quando surgiu esta oportunidade fiquei desde logo agradado», acrescenta.

Para trás ficavam cinco anos em Angola. «Ainda hoje tinha algumas mensagens de uns amigos angolanos a dizer-me que o selecionador de Angola estava de saída e que devia ser eu a assumir o cargo. Isso deixa-me satisfeito, pessoas que reconhecem o meu trabalho no país», conta sorridente.

Em setembro, Carlos acerta a rescisão com o Libolo, viaja até Portugal para tratar de burocracias e voa para Adis Abeba, a capital de um país com escassas relações com Portugal. «No futebol e nas outras áreas também. Quando cheguei fui à embaixada e disseram-me logo isso. Além das pessoas que trabalham na embaixada, somos muito poucos portugueses aqui no país». A verdade é que Carlos ainda não teve muito tempo para conhecer a cidade. Mal chegou, começou a preparar a pré-época. «As primeiras impressões são muito boas. A nível desportivo são mesmo muito boas, tenho dois meses de trabalho com a equipa, acabámos por fazer uma pré-época dividida em três períodos. Fizemos estágios fora de Adis Abeba, entretanto, regressámos à capital e disputámos uma espécie de Torneio de Abertura, a Abeba City Cup, organizado pela federação, com oito equipas, todas da I Liga. Fomos à final com o nosso principal rival, que é o Etiópia Cofee, também de Abis Abeba. Foi uma espécie de Benfica-Sporting da Etiópia. Vencemos essa competição e eu fui eleito o melhor treinador da prova. Depois disputámos a Supertaça e também vencemos, portanto do ponto de vista desportivo, foi de facto um bom começo».

«A única coisa que não encontro aqui é o nosso bacalhau»

Carlos entrava na Etiópia com o pé direito, conquistando dois troféus nas primeiras semanas, contando com boas condições para trabalhar. Na Etiópia o futebol ainda não foi atingido pela loucura dos salários milionários, mas o St. George conta com um investidor especial que permite que o clube tenha as melhores condições possíveis. Trata-se de Mohammed Hussein Ali Al-Amoudi, amigo próximo do presidente do clube que está referenciado pela revista Forbes como um dos homens mais ricos do mundo. Filho de mãe etíope e de pai saudita, é seguramente o homem mais rico da Etiópia, além de se destacar como o segundo cidadão saudita mais rico do mundo e, nas redes sociais, destaca-se ainda como o segundo negro mais rico do planeta, proprietário de refinarias em Marrocos e na Suécia. «É conhecido como o negro mais rico do mundo. É muito próximo do nosso presidente. A nível de salários dos jogadores, o clube é comedido, mas é um clube que no dia-a-dia não te deixa faltar nada. Não é um clube que entre em loucuras, mas tem todas as condições para fazermos um bom trabalho», conta.

Carlos vive num dos extremos da cidade e leva uma vida pacata em Adis Abeba. «Moro num condomínio, demoro entre cinquenta minutos a uma hora a chegar ao nosso campo de treinos. Tenho carro, mas raramente conduzo aqui, é um dos meus adjuntos que todos os dias me vem buscar de manhã. A seguir ao treino temos uma reunião com a equipa técnica, depois vou para casa, como a minha refeição, depois trabalho em casa, preparado o treino do dia seguinte. Quando temos duas sessões, acabo por permanecer no centro da cidade, porque o trânsito é muito, muito intenso e é impossível voltar a casa», destaca.

E o que se come na Etiópia? «É diferente. Eles têm uma comida muito tradicional, mas acabo por encontrar os ingredientes para tentar ter uma alimentação próxima da portuguesa. A única coisa que não encontro aqui é o nosso bacalhau, não se encontra por aqui muito peixe. Acabo por comer quase sempre em casa, mas também frequento alguns restaurantes com alguns amigos que vou fazendo por aqui. Nos supermercados só encontrei um produto português que são os sumos da Compal», conta.

Apesar de estar num país com uma língua diferente, Carlos considera Adis Abeba mais próxima de Lisboa do que as cidades onde trabalhou em Angola. «É uma capital e do ponto de vista cultural oferece mais oportunidades. Logo quando cheguei aqui tive contato com uma delegação da Calouste Gulbenkian que está muito ligada à embaixada de Portugal».

No futebol, as diferenças também são acentuadas, a começar pela religião. «A maioria é ortodoxa, mas cerca de vinte por cento da população é mulçumana e também há católicos e judeus. Eles vivem muito a religião, mesmo ao nível do clube temos alguns rituais antes do jogo e após o jogo. É habitual os atletas rezarem, a presença da religião no povo etíope é muito forte, nota-se muito», conta. E quanto ao futebol jogado? «Também é um pouco diferente. Se pensarmos que o futebol africano tem uma dimensão física grande, há diferenças significativas. Os angolanos são mais fortes, mas os etíopes são mais resistentes. Tem a ver com vários factores. Adis Abeba é uma cidade que está a quase 2500 metros de altitude e obviamente isto tem influência. Basta pensar a nível do atletismo em que a Etiópia é fortíssima. Os jogadores têm uma forte resistência física. Do ponto de vista cognitivo também são interessantes, acabam por assimilar as nossas ideias de uma forma bastante positiva num contexto de jogo. Do ponto vista atlético são muito evoluídos e é um mercado que ainda não está explorado. Tive a felicidade de encontrar quatro juniores que tinham muita qualidade e que já fizeram a sua estreia na equipa principal», conta.

Depois da conquista da Supertaça, Carlos ficou com o grupo limitado, com dez jogadores ao serviço da seleção da Etiópia e ainda com algumas lesões que afastaram alguns elementos da equipa principal, com especial destaque para Saladin Said, a grande figura da equipa que está nomeado para o prémio de atleta africano do ano. «Os primeiros jogos do campeonato foram adiados porque tínhamos dez jogadores na seleção. Não jogámos nós, nem outro clube que tinha mais de três jogadores na seleção», conta.

No passado domingo, o St. George estreou-se finalmente no campeonato, com a receção ao Mekelle Kenema. «Empatámos 1-1. Jogo difícil. Mais domínio nosso, normalmente somos dominadores e foi assim nesse jogo. Os nossos adversários, pelo que me foram dizendo, procuram sempre o pontinho em nossa casa. Este adversário tem um treinador que foi selecionador da Etiópia, conhece bem o campeonato e veio jogar aqui muito fechado. Tiveram a felicidade de marcar primeiro num penalty e isso complicou o nosso jogo. Fizemos um jogo dentro daquilo que é o nosso padrão, faltou concretizar as oportunidades que tivemos. Neste momento estamos sem ponta-de-lança, incluindo o tal que está nomeando para melhor atleta africano, o que que caba por complicar o nosso jogo ofensivo. Ainda empatámos já perto do fim e criámos oportunidades para ganhar. Fora de casa vai ser diferente. Mas foi um bom jogo, deu para estrear um miúdo de 18 anos, acabou por ser positivo», conta já no dia seguinte, em jeito de balanço.

O Estádio, com capacidade para mais de trinta mil adeptos, estava cheio, com os adeptos a encherem as bancadas de cor, com uma coreografia tipicamente africana [ver vídeo no fundo da página]. «Foi espetacular. Quando jogamos em casa, normalmente é às cinco e meia da tarde e às seis já é de noite. Enquanto é de dia utilizam cartões coloridos que dão um efeito espetacular. Depois à noite utilizam os telemóveis e umas lanternas vermelhas e amarelas, não sei bem o que é aquilo, mas também dá um efeito espetacular. Acredito que o estádio se não estiver sempre cheio, vai estar muito perto disso. Mesmo quando jogamos fora de casa os nossos adeptos acabam por invadir as outras cidades porque o clube tem de facto uma massa adepta enorme», conta.

Apesar do empate a abrir o campeonato, Carlos Vaz Pinto está determinado em vingar nesta nova aventura. «O principal objetivo passa por vencer o campeonato e nas competições africanas consolidar o nome do St. George na Champions League que só começa em 2018. Queremos entrar na fase de grupos. Sentimos que este clube tem uma ambição muito grande em função da quantidade de adeptos que tem. Acredito que num curto espaço de tempo este clube possa chegar longe», contou ainda Carlos Vaz Pinto desde a longínqua Adis Abeba.



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