artigo original: 01-03-2018 09:00

Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências.

No Reino da Noruega há um professor português a querer conquistar o trono do futebol nórdico. Trata-se de Tomás Pereira, atual treinador dos sub-15 do Lillestrom, um dos principais emblemas da Noruega.

Há cerca de sete anos, o técnico de 29 anos chegou Melbu, uma pequena vila norueguesa recheada de paisagens idílicas e bucólicas, para ser professor. Desde então já passou por quatro clubes nórdicos, em conjunto com a profissão para a qual se licenciou. No baú das recordações, guardou passagens pelos seniores do Palmelense Futebol Clube (AF Setúbal) e pelo Quintajense FC (AF Setúbal), para além de uma experiência no scouting do Sporting.

Ligado ao futebol desde que «se conhece», entrou na Noruega após concluir o mestrado em Educação Física e Desporto.

«Terminei o mestrado em Educação Física e Desporto e candidatei-me a um programa de intercâmbio na Noruega. Tínhamos de escolher seis países da União Europeia e coloquei a Noruega como primeira opção. E, felizmente, fui colocado na Noruega para exercer a minha profissão. Ainda antes de chegar à Noruega, tentei contactar os clubes na zona onde iria lecionar para ter a possibilidade de treinar. A minha vontade sempre foi ser treinador de futebol», relata, em conversa com o Maisfutebol.

A partir do momento da sua chegada, Tomás Pereira traçou um percurso ascendente, acumulando várias funções pelos clubes por onde passou. Tudo começou no modesto Melbo IL.

«Na altura, fui para o Melbo IL, um clube da quarta divisão. Ao mesmo tempo, dava aulas numa escola na cidade ao lado. No Melbo IL, jogava nos seniores e trabalhava como treinador da equipa B do clube. Felizmente, conseguimos ser campeões da quarta divisão. O período de intercâmbio terminou, mas quis continuar na Noruega. Surgiu outro convite para continuar ligado ao futebol e integrei um emblema da primeira divisão, o Sandnes ULF. Passei a fazer parte da equipa técnica de um treinador português, no escalão de sub-19 e na equipa B. No decorrer da época, acumulei essas duas funções com a de treinador dos sub-16», lembrou.

Ao serviço do Sandnes ULF, Tomás Pereira centrou-se exclusivamente no futebol, colocando de lado o ensino e as chuteiras.

«Ainda tentei jogar numa equipa da zona, mas raramente ia aos treinos e aos jogos. A prioridade era construir uma carreira como treinador», destacou.

Fez uma passagem pela capital, Oslo, onde orientou os sub-16 do Follo FK antes de chegar a Fredrikstad, uma região no sudeste da Noruega, bem perto da fronteira com a Suécia. Na sexta maior cidade norueguesa, Tomás Pereira voltou a andar de mãos dadas com o futebol e com o ensino.

«Existiu a possibilidade de integrar uma escola em conjunto com um clube, o Fredrikstad FK, na altura na segunda divisão. A minha função era coordenar treinadores, porque os clubes ditos grandes só têm equipas de elite, ou seja, a partir dos sub-14. Os noruegueses acreditam que os miúdos devem crescer dentro do ambiente natural deles, com os amigos. Os clubes grandes contratam alguém para trabalhar com os clubes dos arredores, porque são esses clubes que vão fornecer os jogadores quando estes chegarem aos 14 anos», conta.

Um trabalho diferente daquele desempenhado nos primórdios da carreira. O objetivo passava por, essencialmente, combater o amadorismo que existe no primeiro contacto dos miúdos com a bola.

«A minha função era desenvolver uma metodologia de treino para que todos os outros clubes nos arredores de Fredrikstad a seguissem. Por vezes, organizava seminários para fazer algumas demonstrações e para explicar a minha ideia aos treinadores. Também ia aos clubes, trabalhar diretamente com os treinadores, para que eles evoluíssem. Se os treinadores evoluíssem, a qualidade do treino e dos jogadores também evoluía», descreveu.

Pese embora as deficiências e lacunas que existem na base do futebol na Noruega, Tomás Pereira acredita que o jogador norueguês tem potencial. Quem sabe, não haverá um novo John Arne Riise ou um John Carew, ou até mesmo um sucessor de Solskjaer, algures escondido num humilde clube deste país escandinavo.  

«A principal diferença para a realidade portuguesa reside na qualidade de jogo, não na qualidade do jogador. O jogador norueguês tem muito talento, é trabalhador e gosta muito de aprender. O maior problema é cultural. Em Portugal, já no escalão de traquinas, os treinadores são qualificados. Na Noruega, os treinadores não são qualificados, sendo normalmente pais de alguns atletas. O conhecimento que os miúdos adquirem sobre o jogo não é tão aprofundado como em Portugal. Então, isso reflete-se quando os miúdos chegam ao escalão de sub-13 ou sub-14. Nota-se muitas diferenças, em comparação com Portugal. Isso reflete-se também nas seleções nacionais. Há muita coisa que deveria ser ensinada aos miúdos desde cedo, mas como os treinadores não são educados dessa forma, há muita coisa que se perde», elucidou.

O trabalho desenvolvido pelo jovem treinador em Fredrikstad despertou a atenção de um dos maiores emblemas noruegueses: o Lillestrom. O Fredrikstad FK libertou Tomás Pereira para ingressar no Lillestrom, porém, o mesmo não sucedeu com o local onde lecionava. Esse entrave colocado pela escola, obriga-o a fazer cerca de 250 quilómetros diariamente.

«O clube foi flexível e deixou-me ir para o Lillestrom. Contudo, na escola não foi tão fácil assim. Trata-se de uma escola internacional, em que a escola tem alguns deveres para com os alunos. Como não tinham ninguém para me substituir, fui obrigado a cumprir mais três meses na escola. Trabalho a 170%, mas quem corre por gosto não cansa», refere, antes de descrever o seu quotidiano em solo norueguês.

«O meu dia começa bem cedo. Levanto-me por volta das 6h45 para estar na escola às 8h00. As aulas terminam por volta das 14h30 e a partir daí viajo para Lillestrom, que fica a 125 quilómetros de Fredrikstad. Se chegar cedo ao clube, ainda passo no escritório para estar com os colegas de trabalho e depois ir para o treino. Por norma, o treino começa às 17h30 e estou despachado por volta das 19H45. Volto para Frederikstat, mas pelo meio sou obrigado a fazer uma paragem, uma vez que tenho um carro elétrico cuja bateria precisa de ser carregada. Acabo por chegar a casa por volta das 22h00. Até ao próximo mês de abril este será o meu quotidiano.»

O frio, com chuva e neve à cabeça, não foram entraves para Tomás Pereira adaptar-se à Noruega. Convidado a elencar a principal diferença para Portugal, o treinador destaca o lado social.

«Claro que o clima faz alguma diferença. Em Portugal, somos uns felizardos que temos um clima espetacular durante grande parte do ano. Na Noruega a altura do verão é boa, mas no inverno, não é fácil. Há menos luz, existe a questão da neve, da chuva e do frio. É um aspeto que teve de ser equacionado. Porém, a maior diferença que encontrei foi a nível social. Em Portugal gostamos muito de estar com os amigos no café, mas na Noruega isso não é tão fácil. Os cafés são um pouco mais caros (risos). Na Noruega, as pessoas vêm a nossa casa. O que se faz no café, faz-se em casa», apontou.

A irmã de Tomás também reside na Noruega, um fator importante até para atenuar as saudades da pátria. Ainda assim, o técnico justifica as razões que o levaram a abandonar o conforto do lar em busca de um sonho.

«Desde cedo que a minha vontade foi ser treinador. Ao tentar perceber se tal seria possível em Portugal, cheguei à conclusão que seria muito difícil conseguir fazer em Portugal os primeiros anos de treinador. Senti então a necessidade de emigrar para fazer o que quero e o que gosto, para além de conseguir evoluir. Na Noruega, tive e tenho acesso a novas experiências, a novas culturas e a novas formas de ver o jogo. Na altura, não estava preparado para dar o salto para um clube grande, tinha de melhorar muito. Ainda hoje, sinto que preciso de desenvolver determinadas competências para chegar a um nível superior. Claro que um dia gostaria de regressar a Portugal, mas na altura tomei a decisão certa e não me arrependo», sublinhou.

Mas, afinal, qual é o limite de Tomás Pereira?

«As minhas ambições são grandes. Se quero ser o melhor possível tenho de pensar em grande. Por agora, os meus objetivos passam por ganhar mais experiência e também desenvolver-me ao nível dos cursos de treinadores. Estou inscrito no UEFA A e tenho de o fazer para seguir para o UEFA Pro. Depois irei tão longe quanto conseguir, seja na Noruega, na Suécia ou Portugal», concluiu.

Quiçá, num futuro próximo, seja possível ver Tomás Pereira no topo, seja em que país for.