Benedict Saul McCarthy, 40 anos, treinador do Cape Town City, África do Sul. Benni para os amigos, glória do FC Porto. 125 jogos e 59 golos de dragão ao peito, de 2001 a 2006. 

O Maisfutebol procura-o a propósito do próximo Belenenses-FC Porto (McCarthy esteve na última derrota dos portistas no Restelo, em 2002), mas a entrevista vai muito além disso. 

Falamos do Benni treinador, de fato de treino e apito na mão. Uma imagem nova, inimaginável há uns anos. O antigo avançado esteve na Escócia e na Bélgica como adjunto (Hibernian e St. Truiden) e está agora como treinador principal num dos principais emblemas sul-africanos. 

Ocasião para se falar de bola, do novo Benni, do antigo colega Sérgio Conceição, do mestre Mourinho e do desejo enorme de voltar ao FC Porto. 

Uma conversa cheia de gargalhadas, a saltitar entre o Português e o Inglês. O Benni bem disposto de sempre. 

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Maisfutebol – O Benni é treinador do Cape Town City. Como está a correr esta primeira experiência?

Benni McCarthy – Está a ser muito duro. Mais do que eu esperava. Trabalhar com um plantel cheio de jovens é difícil. Estou a aprender bastante, todos os dias é uma lição. Cada dia que passo sinto que gosto mais de ser treinador. Com o tempo sei que vou ser um grande treinador. Ainda sou muito novinho (risos). As coisas não estão a correr mal, estamos no sexto lugar da liga sul-africana.

MF – Fale-nos um pouco desse campeonato. Há boas equipas e bons jogadores?

BM – Para começar, como ponto de partida, é bom. A liga é um bocado diferente da portuguesa. Em Portugal é mais exigente, o nível é mais alto, há melhores equipas. A África do Sul está a tentar recuperar o nível do passado e o momento atual é desafiante. Acho que podemos chegar ao nível de algumas ligas europeias. O campeonato não é mau.

MF – É mais difícil ser treinador do que avançado?

BM – Sim, claro (risos). Eu preferia ainda ser futebolista, era muito mais simples. Nessa altura eu só tinha de pensar em mim, agora não. Todos os dias tenho de pensar em 25 tipos, todos diferentes. É muito mais complicado.

MF – Que tipo de treinador é o Benni McCarthy?

BM – Muito emocional (risos). Não paro um segundo no banco de suplentes. Sinto a mesma paixão que sentia quando era jogador. A preocupação é que é diferente. Quero ver a minha equipa com mentalidade ganhadora, a dar bons espetáculos aos adeptos. Mas, admito, tenho saudades dos tempos de jogador.

MF – O Benni esteve antes na Escócia e na Bélgica, como adjunto. Para onde está a conduzir a sua carreira de técnico?

BM – É importante fazer boas escolhas e começar bem. Isso aumenta as possibilidades de chegar à Europa e aos bons clubes. Gostava de treinar em Portugal, claro, ou na Holanda, onde joguei. Ou na Inglaterra, Espanha… tenho de aprender muito na África do Sul, fazer um bom trabalho e regressar à Europa em breve. Sei que vou regressar um dia a Portugal.

MF – Ao FC Porto?

BM – (risos). Foi o melhor clube da minha carreira, adoro o pessoal do Porto. É fantástico imaginar esse cenário. Gostaria muito de voltar a Portugal e ao Porto. Adoro o futebol e o país. Se tiver a oportunidade de treinar o FC Porto, mamma mia! Seria perfeito, um orgulho tremendo, mas para já a equipa está bem entregue.

MF – O Sérgio Conceição foi seu colega de equipa.

BM – Tanta paixão esse homem tem! (risos) Está a fazer um trabalho fenomenal. Espero que tenha êxito e fique muitos anos no Porto. O Sérgio tem o clube no sangue, corre-lhe nas veias.

MF – Tinha boa ligação com o Sérgio no balneário?

BM – Sim, ele era um craque. Era um tipo muito sério, trabalhava sempre no máximo e exigia o máximo aos colegas. Ele agora tem a mesma mentalidade. Exige o máximo todos os dias. Só quer ganhar, como todos os portistas. Tem muita paixão e está a fazer as coisas muito bem no FC Porto. Vejo a equipa e sinto que todos estão adaptados à maneira de pensar do Sérgio. De pensar e de viver.

MF – Está a elogiar o Sérgio, mas a sua referência é outra.

BM – José Mourinho, sim (risos). Mas eu quero é ser o Benni McCarthy, não quero ser como o Sérgio ou como o Mourinho. Mas é verdade que o Mourinho foi o meu melhor treinador. Tem uma mentalidade incrível, uma ambição imensa. Se alguém quer ser treinador, é por que quer ser ganhador. Aprendi isso com o Mourinho. Continua a ser o melhor treinador do mundo.

MF – E como é a relação do Benni com os seus atletas. Tenta imitar Mourinho nisso?

BM – Não tenho problemas com ninguém. Procuro ser correto com todos os meus jogadores. O que retiro do José Mourinho é isto: no FC Porto, todos os atletas o adoravam e seguiam-no para qualquer lado. Gostava de ter esse efeito nos meus jogadores. Quando tenho de ser duro, sou duro. Sou amigo, mas exigente. Há respeito e cada um tem de perceber o papel que tem. É por isso que as coisas me estão a correr bem.

MF – Dê exemplos daquilo que tornava Mourinho especial.

BM – Lembro-me de um pormenor giro. Sempre que íamos para fora e ficávamos num hotel, já sabíamos que a determinada altura o Mourinho ia bater à porta e pedir para entrar. Fazia sempre isso, visitava todos os quartos e falava connosco. Não só sobre futebol. Eu quero conhecer os meus jogadores e isso aprendi com o Zé Mourinho. Queria saber tudo de nós, da nossa família. Na altura eu valorizei muito isso, porque antes os meus treinadores não queriam saber disso. É por isso que os jogadores estavam dispostos a morrer pelo Mourinho.

MF – Vamos ver o Benni a celebrar no banco como celebrou num estúdio de televisão o golo do Éder na final do Euro?

BM – Prometo que sim (risos). Eu fiquei louco com esse golo e explico. Eu passei o Europeu a dizer que Portugal tinha equipa para ser campeão e os meus colegas nunca concordaram comigo. Antes da final disseram que a França nos ia massacrar. Por isso, quando vi o golo do Éder, fiquei daquela forma. Coisa linda, linda.