Benedict Saul McCarthy, 40 anos, treinador do Cape Town City, África do Sul. Benni para os amigos, glória do FC Porto. 125 jogos e 59 golos de dragão ao peito, de 2001 a 2006. 

O Maisfutebol procura-o a propósito do próximo Belenenses-FC Porto (McCarthy esteve na última derrota dos portistas no Restelo, em 2002), mas a entrevista vai muito além disso. 

Falamos do Benni treinador, de fato de treino e apito na mão. Uma imagem nova, inimaginável há uns anos. O antigo avançado esteve na Escócia e na Bélgica como adjunto (Hibernian e St. Truiden) e está agora como treinador principal num dos principais emblemas sul-africanos. 

Ocasião para se falar de bola, do novo Benni, mas também muito do passado no Estádio do Dragão. A profunda admiração por José Mourinho, as críticas duras a Del Neri e Co Adriaanse, e claro, os melhores momentos naquele FC Porto campeão Europeu.   

Uma conversa cheia de gargalhadas, a saltitar entre o Português e o Inglês. O Benni bem disposto de sempre. 

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Maisfutebol – A eliminatória contra o Manchester United, em 2004, é o melhor momento da sua carreira?

Benni McCarthy – Sem dúvida, tenho a certeza que sim. E o grande responsável foi o José Mourinho. Ele sabia perfeitamente o estado de espírito de cada um, o nível de confiança, a solidez emocional. Repare: em Manchester estávamos a perder 1-0, eles estavam a mandar no jogo, até parecia que iam passar a eliminatória, mas não. Organizámo-nos, mantivemo-nos concentrados. E no final aconteceu aquilo (risos). Nunca desistimos, por culpa do José Mourinho. Com união, sentíamos que podíamos derrotar qualquer equipa. O United ou o Barcelona.

MF – Marcou de cabeça no Dragão e bateu o livre que deu o golo ao Costinha em Old Trafford.

BM – Meu Deus, inesquecível, inesquecível. Esse golo no Dragão, de cabeça, parecia impossível. Parecia que o guarda-redes ia buscar a bola, mas não (risos). E depois, em Manchester… o que foi aquilo? Parecia que íamos cair, mas tive o livre e acreditei que ia fazer golo. De repente vejo a bola a sobrar e o meu amigo Costinha a metê-la lá dentro. Nunca me esquecerei daquela corrida clássica do Mourinho na linha lateral. Mágico, mágico (risos). Melhor momento de toda a minha vida de futebolista.

MF – Prefere esse golo ao United, de cabeça, ou o pontapé de bicicleta ao Paços de Ferreira? Foi decisivo para ser o melhor marcador da Liga em 2004.

BM – Parece que foi ontem. Já eramos campeões e jogámos com as caras pintadas de azul e branco. Antes do jogo, o Mourinho no balneário teve uma palestra espetacular. Mas prefiro o golo contra o United.

MF – O que disse o José Mourinho à equipa?

BM – Disse que o Benni tinha de ser o Bota de Prata (risos). ‘Se algum de vocês estiver à frente da baliza, não marque golo! Olhem à volta e passem a bola ao Benni. Temos de ser campeões e ter o melhor marcador’. E foi assim. Eu marquei três golos e o Adriano, do Nacional, só dois. Toda a equipa jogou para mim, não me esqueço disso.

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O «hat trick» de Benni ao Paços de Ferreira:

MF – Na final de Gelsenkirchen só jogou 12 minutos. Porquê? O Benni tinha sido sempre titular antes.

BM – O mister falou comigo. Chamou-me ao lado. A mim e ao Carlos Alberto. O que se passou foi isto: o Derlei tinha estado lesionado quatro meses e estava a regressar aos poucos. O Mourinho adorava o Derlei e queria que ele fosse titular na final, achava que ele merecia. E foi isso. O mister falou comigo e perguntou-me se eu conseguia perceber a situação dele. O Derlei merecia ser premiado pela recuperação fantástica e pela atitude, eu também merecia, o Carlinhos também… e só podiam jogar dois na frente.

MF – Foi duro saber que ia ficar no banco?

BM – Eu tenho a certeza que seria titular se tivesse dito isso ao Mourinho. Mas eu disse que compreendia e que achava que o Derlei merecia ser titular. Esteve muito tempo lesionado, no joelho, sofreu muito. Disse ao Mourinho que queria jogar sempre, mas que não ficava chateado e aceitava a opção pelo Derlei. Mas o Mourinho disse-me isto, claramente: ‘Benni, se achares que deves ser tu a jogar, diz-me e jogas’. Ele era o comandante, o líder e acho que esteve muito bem até neste momento. Não podia ser egoísta só por ser a final da Champions.

MF – Com o Mourinho tudo correu bem. Ainda se lembra do dia em que ele chegou ao FC Porto?

BM – Claro. Ainda fiz um jogo com o Octávio Machado [Viseu, Taça de Portugal], mas com o Mourinho foi outro mundo. Quando chegou teve uma conversa séria e disse-me que contava muito comigo. Disse que se eu estivesse a cem por cento seria sempre titular. Gostava mesmo do Mourinho, queria agradá-lo e fazer do Porto campeão. Foi o melhor treinador que conheci. Ele sabia o que dizer e como dizer, sabia mexer com a minha cabeça.

MF – O Mourinho ganhou a Liga Europa, a Champions e foi substituído pelo senhor Del Neri. Mas não correu bem.

BM – Pior treinador da história do FC Porto.

MF – O que se passou, afinal?

BM – Era um ditador. Quis mudar tudo, quis ensinar tudo a jogadores que eram campeões da Europa. Cada treinador tem a sua filosofia, ok, mas também tem de perceber o sítio para onde vai. Não teve inteligência nem bom senso.

MF – Nessa época ainda chegaram Victor Fernandez e José Couceiro.

BM – Não tive uma boa relação com o Victor. Tinha alguma coisa contra mim, não sei o quê. Não gostava de mim, não me punha a jogar. E já me conhecia do Celta. Eu adorava o clube, os adeptos, a cidade, e o Victor não respeitou a minha ligação com tudo isso. Tinha sido o melhor marcador na época passada e com ele… nada. Não era o treinador certo para o FC Porto, vi logo que ia durar pouco tempo. O José Couceiro chegou a seguir e conheci um grande homem. Mini-Mourinho.

MF – José Couceiro era um mini-Mourinho?

BM – Grande homem, grande treinador, adorava o trabalho no FC Porto. Começámos a ganhar muitas vezes e recuperámos a mentalidade conquistadora. Todos os jogadores adoravam o Couceiro. Era muito simpático, de bom trato, melhorou muito a equipa e acabámos em segundo. Infelizmente, o senhor Pinto da Costa cometeu um dos maiores erros da carreira e despediu o senhor Couceiro no fim da época.

MF – Mas o Co Adriaanse chegou e foi campeão.

BM – Certo, é verdade, mas começou a época do início e o José Couceiro não teve essa oportunidade. Eu conheci o Adriaanse nos juniores do Ajax, foi meu treinador lá. E quando o Porto o contratou, eu já sabia para o que ele vinha.

MF – E para o que vinha o senhor Adriaanse?

BM – Para organizar um campo militar no FC Porto. Era um homem muito duro. Queria ganhar, muito bem, mas tinha uma ligação tirânica com os atletas. Era um general do exército, não queria brincos, cabelos compridos, tatuagens à mostra… Pressionava demasiado. Os jogadores não estavam preparados para isso. E maltratou muita gente.

MF – Quem, por exemplo?

BM – Vítor Baía, Jorge Costa, até o Costinha, quando foi para o Dínamo. Não respeitou os símbolos do balneário, quis livrar-se deles. Afastou o Baía da baliza, o Jorge Costa nunca jogou e foi obrigado a ir para a Bélgica. E trouxe muitos brasileiros. Jorginho, Adriano, Alan, Helton… Os adeptos sentiram que o FC Porto perdeu identidade e o balneário também. Sentimos a ausência dos monstros sagrados. Já para não falar do Sonkaya… mamma mia! O que é isso? O senhor Adriaanse tornou-se um grande problema. O FC Porto precisava do Baía, do Jorge, do Ricardo Costa… Mas, ok, o FC Porto foi campeão nesse ano e fez muitos golos. Mas sei que vários atletas perderam o respeito por ele e não queriam continuar com ele.

MF – O Benni saiu do FC Porto em 2006. Por culpa do senhor Adriaanse também?

BM – Sabia que ele não contava comigo, sim. Eu não me sentia um estrangeiro no FC Porto. Sentia-me um portista e adorava os adeptos, o estádio. Quando Co Adriaanse me disse que queria outro ponta-de-lança e que eu ia jogar poucas vezes… pronto, eu dei tudo ao Porto e não queria esse papel para mim. Ele disse-me que ia trazer dois avançados até. Acho que era o Lisandro Lopez e outro. Eu não queria passar os jogos na bancada ou a jogar na equipa B. Pedi ao presidente para sair. E saí. De coração partido, porque sempre amei o FC Porto, o melhor clube da minha carreira.

MF – Quem eram os seus melhores amigos no FC Porto?

BM – Costinha, Zé Bosingwa e César Peixoto. Os meus camaradas (risos).

MF – E o melhor jogador que conheceu no clube?

BM – Pergunta difícil… mas tenho de responder desta forma: Deco (risos). Ele sabe o que eu acho dele, o Mágico.