«Estava com o meu primo junto das bombas, a PSP mandou-nos vir para baixo e nós viemos», começou por dizer Rui Miguel. «Cheguei ali a um certo ponto, eles começaram a mandar pedras e eu cheguei-me para o lado, entre os carros, e fui andando para baixo», continuou a contar. «Eles apanharam-me ali, meteram-me no chão e algemaram-me. Não estive ao pé dos Super Dragões. Eu tinha uma mochila pesada às costas e um estandarte, como é que eu podia estar a atirar coisas?», questiona.
«No lugar errado à hora errada»
Rui Miguel contesta que foi apanhado no meio da confusão e responsabilizado por algo que não fez, atirar pedras. «Isso foi o que eles [os polícias] meteram no relatório. Apanharam lá um tipo de blusa branca que estava a atirar pedras e o chefe da polícia meteu o relatório do rapaz no meu. O outro também foi preso», contou. O jovem adepto, residente em Mora, tinha ido passar o fim-de-semana com a família a Lisboa e aproveitou para ver o clássico. Não estava à espera era de viver o que viveu em dois breves minutos: «Dois polícias meteram-me no chão e algemaram-me. E depois um veio por trás e começou a bater-me na cara com o bastão. Eu já estava algemado, não podia fazer nada. Foi só um que descarregou em mim. Depois de estar algemado chegou e começou a bater-me. Houve um que disse: «Esse já está arrumado, deixa!» Se calhar fui eu que paguei pelos outros todos. Estava no lugar errado à hora errada», lamentou.
Já ensanguentado, Rui Miguel foi assistido pela Cruz Vermelha que estava instalada por perto. «A Cruz Vermelha deu-me assistência e depois fui para o estádio receber o tratamento», relatou, contando depois o que se passou quando chegou ao interior do recinto: «Disseram-me [os polícias] que, se quisesse apresentar queixa, tinha de ir para o hospital acompanhado por eles e depois ir a tribunal no dia a seguir. O meu tio, que tem lugar no estádio, apareceu e respondeu que iria apresentar queixa. Eu disse ao meu tio: «Deixe lá isso, que primeiro vou ver o jogo e depois vou apresentar a queixa.»
«Devia existir o filme de tudo»
Assim foi. Rui Miguel ainda assistiu à derrota do Benfica. «Sentia-me em condições porque estava quente, não me doía. Só a partir de uma hora e tal é que me começou a doer. Queria ver o jogo, mas disse logo que tinham de me dar o nome do polícia para apresentar queixa. Acho que não queriam que apresentasse a queixa. Se quisessem tinham-me levado logo», explicou. Depois do jogo, Rui Miguel deslocou-se ao hospital, onde acabou por permanecer quase dois dias. «Estive internado, tinha vários hematomas e uma fissura no maxilar. Era para ser operado, mas o médico optou por não ser por estar muito inchado», contou.
Ao sair do hospital fez a queixa contra a polícia. Depois surgiram as fotografias. «Só hoje é que vi quantos polícias é que eram», referiu, aludindo às fotos publicadas. «Não sabia que existiam aquelas fotografias, mas devia era existir o filme de tudo. Aí via-se logo que estava a afastar-me da confusão. Não fiquei surpreendido com o que vi, sei as marcas que tenho de sangue na camisola e no chão vê-se bem. Tenho um inchaço ao pé do olho neste momento.»
Enquanto decorrem processos, a polícia justifica a acção dizendo que a «PSP
limitou-se a desencadear as acções necessárias e consideradas adequadas para manter e repor a ordem pública». Rui Miguel respondeu:
«Acho bem, mas não é da maneira quer fizeram. Apanhar qualquer um e chegar-lhe.»
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