Chamam-lhes os Jogos Olímpicos que ninguém quer. A corrida à organização dos Jogos de Inverno de 2022 está reduzida a uma caminhada a dois, depois de várias intenções de candidatura terem abortado e da desistência de Oslo, que tinha avançado até à fase final mas abandonou o processo, sob forte pressão da opinião pública norueguesa. Restam Almaty, no Cazaquistão, e Pequim, na China. Um sinal dos tempos, que está a forçar o debate em torno de mudanças profundas na organização olímpica.

Foi a 1 de outubro que Oslo anunciou que desistia da corrida. «Um projeto grande como este, tão caro, exige apoio popular, e não há apoio popular suficiente», resumiu a primeira-ministra norueguesa, Erna Solberg, que falava no mesmo dia em que os jornais do país publicavam artigos que revelavam exigências «luxuosas» do caderno de encargos apresentado pelo Comité Olímpico Internacional (COI). Incluíam coisas como a obrigatoriedade de uma festa de acolhimento com a presença do rei, ou faixas de trânsito especiais para os seus membros.

Na reação, o COI disse que os políticos noruegueses tomaram a decisão com base em «meias verdades ou factos não corretos», e lamentou a «oportunidade perdida» para Oslo. Lembrou também que colabora do seu bolso com 880 milhões de dólares para a organização dos Jogos, e disse, numa declaração assinada por Christophe Dubi, diretor executivo para os Jogos Olímpicos, que o país iria ter grande retorno em patrocínios, «tal como aconteceu com Vancouver e Sochi, que equilibraram custos ou tiveram lucro».

Mas o entendimento de que o investimento não valia a pena não foi apenas da Noruega. Antes de Oslo já Estocolmo, Lviv e Cracóvia tinham desistido de se candidatar. E antes ainda Munique, depois de um referendo na Alemanha, ou a cidade suíça de St Moritz.

Este processo, que terá conclusão no verão de 2015, quando for escolhido o vencedor, acontece meses depois dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, onde a Rússia terá gasto, estima-se, 51 mil milhões de dólares, qualquer coisa como 40 mil milhões de euros. Um custo brutal, tendo em conta que a fatura dos Jogos Olímpicos de Verão de Londres 2012 foi de 11 mil milhões de euros.

A fatura de Sochi assustou muita gente, e acentuou um processo que não é conjuntural, mas uma tendência com implicações profundas. Do qual o COI já tem consciência. Já depois da desistência de Oslo, a comissão executiva do organismo anunciou uma série de «recomendações», a que chamou Agenda Olímpica 2020, que pretendem precisamente rever os processos e as exigências das candidaturas.

Custos «cada vez mais inacessíveis»

José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal, resume assim ao Maisfutebol a questão: «Os cadernos de encargos e custos que envolvem os Jogos Olímpicos são cada vez mais inacessíveis, particularmente aos países europeus. Concorrem maioritariamente países que têm economias fortes, e que não são os países tradicionais.»

Não que a organização dos Jogos, nomeadamente os de verão, tenha deixado de ser interessante. Ainda agora a Alemanha anunciou a pré-intenção de correr à organização dos Jogos de 2024. Mas é cada vez mais reservada a um clube restrito. 

«A questão fundamental é que hoje poucos são os países ocidentais com economias que suportem uma organização como os Jogos Olímpicos. E o princípio da universalidade fica ameaçado», observa: «Sobretudo nas democracias ocidentais há uma opinião pública que é muito crítica. Os governos gastam recursos que são públicos. Daí a tendência para haver um retraimento.»

«Tem a ver com a natureza dos cadernos de encargos, tudo o que tem a ver com as infra-estruturas, que são a parte mais significativa dos custos, quando não são concentradas na perspetiva da sua reconversão», prossegue, dando o exemplo da Grécia, onde grande parte das infra-estruturas construídas para Atenas 2004 estão ao abandono: «Veja o que se passou em Atenas, sendo que aí também foi visto à luz da crise económica que se instalou na sociedade grega. Não é uma situação que não tenha ocorrido em parte também com Pequim. Mas há países que têm tantos recursos financeiros que se podem dar a esses luxos.»

Londres foi o último país da Europa ocidental a organizar uns Jogos. Seguiu-se Sochi (Inverno), vai seguir-se o Rio de Janeiro em 2016 (verão), depois a cidade sul-coreana de Pyeongchang em 2018 (inverno), por fim Tóquio em 2020 (verão). Para 2022, a escolha será então entre Almaty e Pequim, que pode tornar-se a primeira cidade a organizar uns Jogos de verão e outros de inverno. Sendo que a proposta de Pequim prevê que os eventos de montanha decorram em Zhangjiakou, a 160 quilómetros de distância.

Legitimar regimes autoritários?

A tendência dos últimos anos é para que os países com mais recursos para organizar grandes eventos desportivos sejam as grandes economias emergentes, mas também, às vezes em simultâneo, regimes mais ou menos autoritários. Que utilizam a organização de uma grande competição desportiva como fator de legitimação internacional. É outra das questões em cima da mesa neste debate. Que, já agora, não se faz apenas em relação aos Jogos Olímpicos e ao COI. Estende-se também ao futebol e à FIFA, que atribuiu a organização dos próximos Mundiais à Rússia e ao Qatar,  decisões rodeadas até hoje de polémica e suspeitas em torno da forma como decorreu o processo. 

Aliás, a FIFA levou mais longe ainda a questão, quando o seu secretário-geral, Jerome Valcke, disse isto, um ano antes do Mundial 2014 e a propósito dos problemas de organização no Brasil: «Menos democracia às vezes é melhor para organizar um Mundial. Quando temos um chefe de Estado forte que pode decidir, como provavelmente o Putin em 2018, é mais fácil para a organização do que num país como a Alemanha, quando temos de negociar a diferentes níveis.»

O tema é complexo. José Manuel Constantino partilha da opinião dos que defendem que a organização de uns Jogos acaba por contribuir, pelo menos, para maior exposição e abertura desses regimes. «No caso de Pequim, a organização dos Jogos Olímpicos foi um fator de aproximação da China ao mundo, atrevo-me a dizer que foi um fator de democratização. A circunstância de ser uma iniciativa e evento desportivo com exposição mundial também abre os países ao mundo, também obriga à sua adaptação ao que são os valores civilizacionais. O movimento olímpico tem também um papel estimulante nesse sentido», considera o presidente do COP, defendendo que isso também aconteceu em relação a Sochi e à Rússia: «Houve uma abertura ao mundo do ponto de vista da avaliação crítica.»

O Comité Olímpico Internacional já assimilou a ideia de que algo tem que mudar. Nas recomendações de que fala, e que serão votadas na sessão do COI em dezembro, a comissão executiva enumera princípios como a «sustentabilidade, credibilidade e a juventude», ainda sem especificar em concreto como pretende fazer a mudança. «Algumas das áreas envolvidas são possíveis mudanças no processo de candidatura, tornando-o mais como um convite e reduzindo custos», diz o comunicado divulgado, que fala ainda em «mais flexibilidade no que diz respeito ao Comité Olímpico.»

Mas não é fácil mudar uma organização com esta dimensão, que envolve toda a estrutura do desporto, nota José Manuel Constantino. «O Comité Olímpico Internacional está preocupado com a situação, por entender que tem de encontrar formas de aligeirar os custos da organização. Parece-me muito positivo que o COI procure minimizar o impacto económico», nota: «Mas é muito difícil, com toda a franqueza, chegando ao ponto a que se chegou, encontrar soluções que atenuem a estrutura de custos.»

«Muito do esplendor dos Jogos vive da sumptuosidade. Vemos as cerimónias de abertura e encerramento, depois o país seguinte quer fazer melhor. O problema é que essa sumptuosidade tem custos muito elevados», nota, apontando o dedo ao gigantismo que uma organização como os Jogos Olímpicos ganhou.

É difícil identificar onde é possível cortar, sem pôr em causa a universalidade que faz parte da identidade dos Jogos Olímpicos. E sem pôr em causa a própria existência de alguns desportos. «A questão da redução das modalidades também é muito complexa. Há muitas na eminência de sair, mas as que estão na fila para entrar são ainda em número superior. Ser modalidade olímpica é muito importante para qualquer desporto em termos de dimensão internacional, de angariar apoios, uma série de fatores», observa: «É um dilema muito difícil de resolver, a redução dos custos de funcionamento. Se for feito pela redução de modalidades é muito difícil. Pela redução de dias também.»

Para José Manuel Constantino, o debate deve estender-se a toda a organização desportiva, que se tornou demasiado intensa. «Por outro lado, aqui sim, há margem para mudar, há muitos eventos na órbita dos Jogos Olímpicos, como os Jogos Olímpicos da Juventude, que estão a mimetizar a espectacularidade dos Jogos. Qualquer dia são também organizações inalcançáveis para a maior parte dos países. Deviam ser essencialmente competições desportivas, de formação. Mas depois toda a gente começa a esperar medalhas e transformam-se noutra coisa», observa.

«O COI tem também que se preocupar com outro problema, a saturação dos quadros competitivos internacionais. Não há fim de semana em que não haja uma competição. Dantes eram os Europeus e os Mundiais, agora são as Taças do Mundo e por aí fora. Quase não há tempo para treinar. Isto ocorre com responsabilidade das organizações desportivas, porque a competição é uma fonte de receitas, e um produto que tem de ser vendido. Mas sacrifica muito o treino e preparação dos atletas. Há uma economia associada aos eventos desportivos que tem de ser repensada. Se não tem consequências em todo o âmbito, nomeadamente nos Jogos Olímpicos», defende.

Os luxos e a «democratização» do COI, para começar

Outra questão é saber se o próprio Comité Olímpico tem condições para fazer a mudança. A começar pela sua própria renovação, numa organização com uma imagem que não é simpática para muita da opinião pública.  Ludwig Hartman, do partido Verde alemão, resumia assim a principal corrente crítica, quando Munique rejeitou a candidatura em referendo: «O voto não é contra o desporto, mas contra a não transparência e a ganância do COI.»

José Manuel Constantino enquadra essa imagem associada ao COI, definindo assim a cúpula decisora do organismo. «É uma elite, muito fechada. É constituída por uma estrutura fechada, aristocrática e elitista, claramente», diz, para defender que lhe parece «consensual», a necessidade de «democratização do COI»: «Tem que se adaptar aos princípios das organizações representativas.»

Quanto às exigências luxuosas feitas pelo COI de que a imprensa norueguesa falava, o presidente do COP diz não ter «conhecimento da situação». Mas diz que elas encaixam no padrão tradicional da organização:  «Se olharmos para a lista de membros da direção do COI, vemos aristocratas, pessoas que estão provavelmente habituadas a regimes de mordomias que são perfeitamente dispensáveis na sociedade atual.»

O dirigente português acredita que a nova estrutura, liderada pelo antigo atleta alemão Thomas Bach, desde há um ano presidente do COI, tem outra abordagem e está no caminho desse movimento de renovação. «A perceção que tenho é que a nova direção é muito mais informal», diz: «Já houve alguma abertura com o Jacques Rogge. Mas vejo esta direção mais acessível, a dar sinais de abertura, de maior informalidade. Se se vão ou não concretizar, temos que aguardar.»