No verão de 2006, o Gil Vicente foi despromovido à II Liga na sequência do célebre caso Mateus. Mais de uma década volvida, num processo repleto de avanços e recuos, o emblema de Barcelos assinou um acordo histórico com o Belenenses e com a Liga de Clubes. O regresso ao escalão máximo do futebol português ficou marcado para a época 2019-20. Porém, importa realçar que a FPF, que defendeu a reintegração imediata do Gil, não se vincula ao acordo selado entre as três entidades.

Dois dias após a assinatura do acordo, o Maisfutebol percorreu as ruas de Barcelos, visitou dois locais históricos do Gil - o Estádio Cidade Barcelos e o velhinho estádio Adelino Ribeiro Novo - e abordou adeptos gilistas acerca de um eventual regresso aos maiores palcos do futebol nacional, depois da janela de esperança que se abriu recentemente. Apesar das opiniões contraditórias, há um certeza: os gilistas são gentes de uma paixão inabalável e de uma paciência incessante.

«Não acredito que o Gil Vicente regresse à Liga tão cedo. Para falar desse tema tenho de citar o Fiúsa: “Só em 2030”», atira Gil,  adepto do clube, faz questão de frisar, como se o seu próprio nome não reflectisse as cores da equipa que defende. A conversa flui com naturalidade dentro de um estabelecimento comercial, enquanto a chuva cai ininterruptamente no exterior.

«Os clubes da capital detêm o poder e dessa forma torna-se difícil que o Gil volte a subir. O mais correcto seria o Belenenses descer e o Gil regressar à Liga com uma boa indemnização», completa.

O Maisfutebol continua a percorrer a Avenida Dom Nuno Álvares Pereira, bem perto do coração da cidade. O som da chuva a cair confunde-se com o som do passo acelerado das pessoas, pedaços naturais do frenesim constante da vida citadina.

Perto da feira, que ocorre todas as quintas-feiras - espécie de ex-líbris da cidade - encontramos João Duarte, jovem adepto do Gil, presença constante no Estádio Cidade de Barcelos em dias de jogos. Este gilista de gema, defende uma posição antagónica à de Gil e acredita que o seu clube vai estar entre os grandes dentro de um ano e meio.

«Acredito totalmente que o Gil Vicente vai regressar à Liga. Afinal o acordo está selado e é preciso acreditar nas pessoas. Creio também que o clube vai poupar dinheiro na próxima época para depois atacar, com outros meios económicos, o regresso à Liga. Penso que a maior indemnização que o Gil Vicente vai receber é voltar ao sítio onde merece estar», explica.

A chuva continua a cair copiosamente e urge a necessidade de procurar abrigo. É num espaço de refúgio que o Maisfutebol encontra o Jorge Santos, outro adepto do principal clube de Barcelos. Evoca o passado e aponta o caminho para o futuro, enquanto fuma um pensativo cigarro.

«Jovem, sabe que o que aconteceu com o Belenenses em 2006 já tinha acontecido antes [ndr: 1996, então subiu o Alverca]. Esta cidade merece um clube na Liga e acredito que isso vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. A decisão está tomada e é irreversível», começa por dizer, antes de confessar que a alma gilista não apresenta o fulgor de outrora.

«O espírito que havia em relação ao clube perdeu-se gradualmente. O novo Estádio já não é tão perto do centro da cidade e a afluência aos jogos é menor, mesmo para quem gosta do clube. Eu, por exemplo, já não vou tantas vezes», atira.

Já a pensar no regresso, damos de caras com Manuel Sérgio, adepto do Gil «desde que se lembra». Assume relutância em relação ao acordo estabelecido entre Belenenses, Liga de Clubes e Gil Vicente e considera que a única via para regressar à Liga terá de ser percorrida dentro de campo.

«Quantas vezes já ouvimos a conversa de que o Gil vai regressar à Liga? Sinceramente, não acredito. Criam-nos falsas esperanças… Nunca devíamos ter saído da Liga e só lá vamos voltar quando ficarmos nos dois primeiros lugares da Liga de Honra [nrd: Segunda Liga]», afirma.

 

Exterior do Estádio Cidade Barcelos, em Vila Boa.

As casas do Gil: o velhinho Adelino Ribeiro Novo e o moderno Cidade de Barcelos

Durante 71 anos – de 1933 a 2004 – o Campo da Granja, como era conhecido numa fase embrionária, foi casa do Gil Vicente. Mais tarde, o estádio passou a denominar-se Estádio Adelino Ribeiro Novo, em homenagem a um falecido atleta do clube. Atualmente o Estádio ainda é utilizado pelo emblema barcelense para os treinos das camadas jovens.

No trajeto pela cidade, visitámos o antigo estádio, lugar que ainda conta com um café frequentado habitualmente por adeptos do clube. Nesta quinta-feira chuvosa, o espaço, com poucos vestígios de outros tempos, estava deserto. Ao invés, as lembranças continuam a sobreviver na memória de pessoas como o Sr. Jorge Santos.

Exterior do Estádio Adelino Ribeiro Novo, perto do centro de Barcelos

A organização do Euro2004 obrigou à construção de novos estádios e, à semelhança de tantos outros, o Gil Vicente mudou de casa. No final de Maio de 2004, o Estádio Cidade de Barcelos foi inaugurado na freguesia de Vila Boa, a cerca de cinco quilómetros do Adelino Ribeiro Novo.

Apesar das dúvidas e das opiniões distintas, a esperança persiste entre os adeptos gilistas. Existe uma cidade ansiosa para que o Gil volte ao convívio entre os grandes do futebol português. 

FOTOS: Vítor Maia