10: «Chariots of fire» (1981)- Hugh Hudson

A mão pesada do realizador não impediu que um épico sobre os Jogos Olímpicos de 1924 fosse distinguido com quatro óscares, incluindo o de melhor filme e melhor argumento. Outro foi para a música sintetizada de Vangelis, que durante a década de 80 encheu separadores de TV, videojogos e os ouvidos cada vez mais massacrados dos espetadores. O filme conta as condicionantes religiosas da caminhada para o ouro olímpico de dois atletas britânicos, Harold Abrahams, judeu, e Eric Lidell, católico. Ficou famoso pelas cenas de atletas a correr à beira-mar, em câmara lenta. E pouco mais resta, valha a verdade.

9: «The damned United» (2009)- Tom Hooper

30 anos antes de José Mourinho se transformar no «special one», outro técnico no futebol inglês ganhou estatuto de culto à custa de resultados, talento e uma personalidade polémica, que se alimentava do conflito e de declarações de efeito calculado nos media. O seu nome era Brian Clough. O filme, realizado pelo autor de «O Discurso do Rei», é uma ilustração razoável do livro - bem mais interessante - de David Peace. A história conta a passagem de Clough pelo Leeds United, território do seu inimigo declarado, Don Revie, que tinha deixado o cargo para treinar a seleção inglesa. Sabotado pelos jogadores e pela sua teimosia, Clough saiu ao fim de 44 dias, protagonizando um falhanço épico, que serviu de base para os grandes sucessos que conseguiria depois, no Nottingham Forest. As cenas de futebol, com «jogadores» impróprios para consumo, são o óbvio ponto fraco do filme.

8: «Invictus» (2009)- Clint Eastwood

O Mundial de râguebi de 1995 é o pretexto para ilustrar o papel de Nelson Mandela como unificador de um país onde as tensões raciais continuavam a ser um barril de pólvora, mesmo depois do apartheid. Morgan Freeman dá corpo a um Mandela credível, enquanto Matt Damon faz os possíveis para se aguentar nas cenas de jogo, na pele de François Pienaar, líder dos «springboks», que conquistaram o troféu em casa, unindo os adeptos em torno de uma modalidade anteriormente reservada a brancos.

7: «United» (2011)- James Strong

Um pouco como o Titanic, se lhe tirarmos a gritaria de Celine Dion. E o Di Caprio, a Kate Winslet, o submarino, a velhota e o iceberg. Pensando melhor, não tem muito a ver com o Titanic. A não ser pelo facto de ainda antes do começo já sabermos que a coisa vai correr mal, com muita gente a morrer. Um jovem Bobby Charlton, ainda com cabelo, é o fio condutor deste filme sobre o desastre aéreo de Munique, em 1958, e a destruição de uma das melhores equipas europeias do seu tempo. A personalidade forte de Matt Busby, o heroísmo do guarda-redes Harry Gregg e a luta inglória pela sobrevivência do capitão Duncan Edwards pontuam uma narrativa eficaz e sem grandes rasgos, com uma realização discreta, que contorna com inteligência a dificuldade de mostrar cenas credíveis de jogo.

6: «Offside» (2006)- Jafar Panahi

Filmado durante um jogo de qualificação para o Mundial da Alemanha, «Offside» conta as atribulações de várias mulheres iranianas que procuram contornar a proibição legal de assistir a jogos em estádios, disfarçando-se de rapazes. São detetadas, são barradas à porta, e é da interação com os soldados que as impedem de ver o jogo que a ação se alimenta. Uma realidade que parece inconcebível, mas que atingiu diretamente a filha do realizador e algumas das suas amigas, inspirando um retrato social com humor amargo à mistura e um estádio como pano de fundo.

5: «Olympia» (1938)- Leni Riefenstahl

Apesar de terem passado 75 anos sobre o lançamento deste exemplar de propaganda nazi, as suas imagens não perderam frescura, e continuam a ser capazes de deslumbrar e perturbar, na mesma medida. Leni Riefenstahl era, indiscutivelmente, uma grande realizadora, que decidiu pôr o seu talento ao serviço de Hitler. O filme sobre os Jogos Olímpicos de Berlim, os tais onde a supremacia ariana foi posta em causa pelo talento de Jesse Owens, define um género, documenta grandes momentos de desporto e deixa uma visão inquietante sobre a unanimidade das multidões, no desporto como na política. Um filme indispensável, para ver com olhar crítico e informado.

4: «Senna» (2010)- Asif Kapadia

Um documentário clássico que conta a carreira de Ayrton Senna de forma cronológica, com um excelente lote de imagens de arquivo e vários depoimentos que as contextualizam. A relação conflituosa com Alain Prost, como companheiro de equipa e como adversário, é o tema forte que une o aparecimento e a morte trágica de um dos maiores talentos de que há memória na Fórmula 1.

3: «Ali» (2001)- Michael Mann

Poucas figuras do desporto inspiraram tanta adoração e controvérsia como Muhammad Ali. O filme de Michael Mann foca-se nos dez anos mais intensos da carreira do mais famoso pugilista da história, entre 1964 e 74. Will Smith aguenta o peso da personagem, enquanto etapas como a conversão ao Islão, a mudança de nome, a recusa em participar na guerra do Vietname, os problemas com as autoridades, e o mítico combate no Zaire, com George Foreman, servem de pano de fundo ao retrato de uma sociedade norte-americana em mudança.

2: «Hoop Dreams» (1994)- Steve James

Distinguido em várias listas como um dos melhores documentários de sempre, o filme acompanha o percurso de dois jovens estudantes negros, norte-americanos, que percorrem o caminho de seleção nos escalões inferiores de basquetebol, do liceu à universidade, com o profissionalismo e a NBA como metas cada vez menos distantes. Era para ser uma reportagem com 30 minutos, transformou-se num épico com quase três horas, que resume as mais de 250 horas filmadas. Não se assustem com a duração: o tempo passa a correr enquanto os problemas familiares, nos estudos e nos «courts» de basquete parecem conspirar para complicar a vida aos protagonistas. Um grande filme, retrato cru e sem filtros dos sonhos comuns a muitas famílias norte-americanas de classe média-baixa.

1: «Raging Bull» (1980)- Martin Scorsese

Muito mais do que a biografia de um pugilista, é o filme dos filmes para quem gosta de cruzar desporto e cinema. Robert de Niro ganhou físico de atleta para as sangrentas cenas de luta e depois destruiu-o, pondo quase 30 quilos em cima para representar Jake La Motta em declínio, retirado dos ringues, e sem saber muito bem que rumo dar à vida. Num preto e branco majestoso, sexo, repressão, culpa, religião e os efeitos de uma personalidade autodestrutiva são o material de fundo de um dos maiores filmes dos anos 80: os óscares para De Niro e para a montagem alucinante de Thelma Schoonmaker prestam-lhe um tributo insuficiente.

Menção honrosa: El secreto de sus ojos, 2009- Juan José Campanella

Não é um filme sobre futebol, mas é um filme argentino. Por isso o futebol também lhe corre nas veias. A credibilidade das cenas de jogo e de estádio são, normalmente, o calcanhar de Aquiles das obras de ficção que fazem tangente ao mundo da bola, mas Juan José Campanella, adepto do Racing, conseguiu realizar aquela que é, provavelmente, a melhor sequência futebolística de sempre, recriando o ambiente nas bancadas do estádio do Huracan durante uma perseguição policial, em meados da década de 70. O Óscar para melhor filme estrangeiro premiou a história, mas também, como se escreveu na altura, a paixão de uma «hinchada». Vale a pena ver:

Outros títulos para uma cinematografia básica: Heleno, 2011- José Henrique Fonseca, Moneyball, 2011- Bennett Miller, When We Were Kings, 1996- Leon Gast, Tokyo Olympiad, 1965- Kon Ichikawa, Garrincha, a Alegria do povo, 1963- Joaquim Pedro de Andrade, The Fighter, 2010- David O. Russell, Les yeux dans les bleus, 1998- Stéphane Meunier, Das Wunder von Bern, 2003- Sönke Wortmann.