Após um triunfo sofrido para o campeonato e uma derrota com o CSKA Moscovo para a Liga dos Campeões, o Benfica desloca-se ao Bessa para a 6ª jornada da Liga.

Neste século, o reduto axadrezado já foi palco de festejo de título das águias duas vezes (2004/05 e 2016/17), já foi um estádio determinante na caminhada para o título por uma vez (2015/16), mas também já foi anfiteatro de maus momentos. Por exemplo, foi ali que Fernando Santos foi despedido, após um empate com o Leixões (a jogar em casa emprestada), logo na 1ª jornada.

Para além destes registos, há outro dado marcante que envolve um jogo do Benfica no Bessa, no século XXI.

Em 2000/01, as águias jogaram no Bessa à 5ª jornada e estrearam... José Mourinho como treinador principal.

17 anos volvidos, quase na mesma data, há confronto entre estes dois históricos do futebol português e, curiosamente, um novo treinador num dos bancos de suplentes. Miguel Leal saiu e Jorge Simão entra para o Boavista também na quinta-feira anterior ao duelo.

O Maisfutebol recuou no tempo e contou-lhe, com ajuda de dois intervenientes, como foi a estreia de Mourinho e a sua liderança no Benfica, que durou apenas três meses.

Manchete da época do Maisfutebol

20 de setembro de 2000 – Boavista-Benfica (jornada 5 da época 00/01)

Vale e Azevedo despede o conceituado Jupp Heynckes e coloca ao leme das águias um jovem chamado José Mourinho, a dois dias do jogo no Bessa.

Aos 37 anos, Mourinho assumia pela primeira vez uma equipa principal, depois de passagens por Sporting, FC Porto e Barcelona como treinador-adjunto.

Adjunto de Bobby Robson no FC Porto e Sporting
E de Van Gaal no Barcelona

Eladio Paramés era o assessor de comunicação do Benfica na época e conta como foi o processo de escolha do sucessor de Heynckes.

«Havia na altura quem defendesse a entrada do Toni, nomeadamente o Capristano, vice-presidente do futebol. Ele dizia que tinha de ser o Toni, o Toni, porque era benfiquista. Havia mais vice-presidentes que o defendiam, mas o Vale e Azevedo não estava convencido disso e queria algo novo. O Preud’Homme, que era uma espécie diretor desportivo, queria um belga que era amigo dele.»

Mas depois surgiu o nome de José Mourinho: «O Álvaro Braga Júnior, na altura era o chefe do departamento do futebol, hesitava, mas estava na linha do Vale que queria algo novo. O nome do José acabou por ser lançado para cima da mesa e havia resistência. Depois o José falou com o Álvaro numa altura em que o Capristano estava reunido com o Toni, e o Álvaro Braga ficou convencido. O Preud’Homme também ficou, apesar de querer o belga, e na conversa que o José teve com o Vale e Azevedo, ele ficou também convencido.»

Estava decidido, o Benfica iria estrear um treinador e para Paramés era a aposta certa.

«Foi uma aposta num rapaz novo, que queria mudar, com um discurso diferente e que vinha de um clube grande. Apostou, sabendo que havia riscos. O Vale assumiu o risco.»

Apresentação no Benfica

‘Alto lá, tradutor nada, o gajo é mesmo bom’

Quanto ao plantel, ninguém sabia quem era José Mourinho:

«O balneário não o conhecia, falavam que era o tradutor e tal, não faziam a mínima ideia das suas valências. Quando chegou viram e disseram: ‘Alto lá, tradutor nada, o gajo é mesmo bom’. Ele impôs regras, disciplina, princípios e depois foi fácil.»

E o antigo assessor do clube da Luz recorda um episódio logo ao segundo dia na Luz com um dos mais carismáticos jogadores do plantel: Karel Poborsky.

«O Poborsky reclamava, aos jornalistas inclusive, e dizia que queria jogar a 10, que não gostava de jogar na linha. Nas vésperas do jogo com o Boavista, ainda no Estádio da Luz, o José mandou-me chamar o Poborsky para ir ao balneário dele.»

O checo chegou e Mourinho propôs-lhe um exercício.

«Assisti à cena porque o Zé permitiu. Num inglês macarrónico, que o Poborsky não falava muito bem inglês, o Zé disse-lhe: ‘Vais-te sentar aqui na minha cadeira e agora és tu o treinador. E és tu que vais dizer onde queres jogar’. O Poborsky ficou a olhar, espantado e eu até lhe disse para ele falar. O Poborsky lá no quadro disse que queria jogar no meio e explicou as suas ideias e desejos.»

 Eis a reação de Mourinho:

«O José disse-lhe: ‘Ok, já falaste, agora sou eu o treinador outra vez. Vamos jogar ao Bessa e digo-te que vais jogar a 10 no Bessa’. O Poborsky chegou ao Bessa e ao fim de 20 minutos o Zé tirou-o de lá. Não deu uma para a caixa. O Zé depois disse-lhe: ‘Nunca mais me digas que queres ser 10, a partir de agora vais jogar onde eu quiser.’ E ele jogou, e bem, numa ala porque era lá o seu lugar. Este é o exemplo típico da relação que tinha com os jogadores, era frontal.»

Manchete da época do Maisfutebol

O segredo do jovem Mourinho para segurar o balneário

Uma das primeiras decisões de José Mourinho como treinador principal foi chamar Geraldo e Bruno Aguiar ao plantel principal, eles que militavam na equipa B.

Ao Maisfutebol, o irmão de Bruno Alves recorda esse momento e a forma como foi recebido: «Nessa altura não era muito normal ser chamado à equipa A e ele chamou-me logo a mim e ao Bruno Aguiar. Foi ele que nos recebeu, explicou os motivos, foi extremamente simpático e vimos logo que era um treinador direto.»

Geraldo não tem dúvida de que Mourinho mostrou ser diferente, logo através do seu discurso: «O grande trunfo que ele teve quando chegou cá foi a sinceridade. Na altura não se estava habituado a isso, pela negativa. Com ele não era treta que quando ele dizia que se trabalhássemos jogávamos. Se ele dizia, ia acontecer e aconteceu isso com o Miguel, que era um miúdo, e ele disse que ele ia jogar na lateral direita e jogou. E com o Diogo Luís, que foi ele que apostou nele.»

«Ele colocava todos no mesmo patamar, não olhava a carreira, a ser internacional ou não», referiu.

Palestra no treino

Para esse jogo de estreia, Geraldo recorda que Mourinho adotou uma postura, que agora todos usam, de confiança.

«Sentia-o bastante confiante, o que agora é algo normal. Muito mais focado na sua equipa do que no que o Boavista podia fazer. Tinha um discurso diferente do que era habitual.»

Mas o Benfica perdeu no Bessa por 1-0 e Geraldo até refere que os primeiros resultados, todos negativos (empates com Halmstads e Sp. Braga), foram fundamentais.

Eis o primeiro onze da carreira de Mourinho: Enke; Dudic, Paulo Madeira, Fernando Meira, Ronaldo, Rojas, Poborsky, Sabry, Carlitos, Maniche e van Hooidjonk;

«Creio que os primeiros resultados acabaram por ser decisivos para a estratégia. Porque ele viu o que estava errado e disse na cara de cada um o que tínhamos de melhorar. Não olhava se era o jogador A, B ou C, corrigia todos.»

Geraldo ficou impressionado com o método e com a liderança de José Mourinho. Num balneário onde era um dos mais novos, o defesa revela o que os mais velhos pensaram do novo treinador.

«Eu não falava muito, era dos mais novos, não tinha muito à vontade. Mas senti que os outros jogadores percebiam que este treinador era diferente, que cumpria o que dizia, o que muitos não fazem, ora porque um jogador tem mais moral que outro, ora porque tem estatuto. A ele o que lhe interessava era o rendimento, se tu treinas bem tu vais jogar. Isso faz com que todos acreditem no seu próprio trabalho, e isso nota-se no trabalho da equipa.»

Para Eladio Paramés, com Mourinho a forma de atuar e de treinar mudou: «O Benfica era uma equipa muito macia, ele disse ao Geraldo e a outros dos B que chamou que era para meter o pé nos treinos. O Van Hooijdonk e mais alguns estavam sempre com medo que lhe tocassem. Os níveis aumentaram, começou-se a meter o pé e treinar com caneleiras, treino com bola diferente. Ficou uma equipa diferente, o José conseguiu controlo sobre a situação, que não era nada fácil e isso tinha a ver com a forma de ele lidar e tratar com os jogadores.»

José Mourinho ao lado do seu adjunto, Carlos Mozer

«Os jogadores gostam que lhe digam as coisas e não que andem com rodeios. Dizer ‘oh Madureira, és o melhor da Europa. - Mas ó mister eu nunca jogo. - Pois não, o outro é o melhor do Mundo.’ Essas tangas para o José não existiam. Jogas porque és melhor, estás melhor, dizia-lhes as coisas e dizia-lhes que se trabalhassem iam ter oportunidade.»

O exercício que pôs na linha os internacionais, conta Geraldo

A primeira vitória de José Mourinho aconteceu um mês depois, ao quarto jogo, a 15 de outubro com o Belenenses. Seguiu-se um empate na Mata Real e mais um triunfo caseiro com o Campomaiorense.

A seguir surgiu a derrota na Madeira por 3-0, com três golos do argentino Lagorio. Geraldo nunca esqueceu o que se passou a seguir a esse desaire.

«Nunca mais me esqueço! Perdemos 3-0 com golos do mesmo jogador a marcar e no treino seguinte ele chamou os centrais e meteu o Marchena e Paulo Madeira juntos e do outro lado eu e o Nuno Abreu.  Delimitou uma zona dentro da grande área e disse-nos a todos: ‘Se o Toy [o avançado] dominar nesta área conta um ponto, se rodasse eram dois e se ainda marcasse eram três. E avisou-os a eles que se fossem mais de cinco pontos, eram os miúdos que jogavam. Nem um ponto o Toy fez. Pôs internacionais na linha.»

 

«A partir dessa «humilhação» na Madeira, José Mourinho nunca mais perdeu: quatro triunfos seguidos, apenas um golo sofrido, entre eles a vitória por 3-0 sobre o rival, e na altura campeão, Sporting.

Esse dérbi marcou a estreia de Geraldo: «Eu nem queria acreditar. Tinha um internacional ao meu lado [Sabry] e o Uribe e o mister manda-me a aquecer e eu pensei: ‘Ele deve estar a brincar’. O Benfica faz o 3-0 e ele chama-me para entrar. Nunca tinha estado com o Estádio da Luz assim, cheio frente ao Sporting. Fiquei radiante. Fiquei super contente.»

Antes de entrar Mourinho foi simples nas palavras: «Acho que ele nem me disse nada de especial, disse para ir lá para dentro e fazer o meu jogo. Eu naquela altura jogava médio e dava alguma porradinha e entrei para isso. Para jogar à bola estavam lá muitos outros.»

A saída do Benfica após o 3-0 ao Sporting

Só que depois dessa grande vitória, Mourinho surpreendentemente saiu.

Após o jogo, o treinador pediu ao presidente eleito recentemente, Manuel Vilarinho, para lhe prolongar o contrato, que terminava no final do ano, para demonstrar que contava com ele. Vilarinho não aceitou.

Manchete da época do Maisfutebol

«Para ganhar as eleições o Vilarinho e a estrutura dele fizeram acordos, nomeadamente com o Toni. Portanto quando o Vilarinho ganha as eleições, com apoio do Toni, tinha esse compromisso. O José só lhe disse: ‘Presidente, quero saber se estou a trabalhar para o futuro ou para outro’. Não lhe disse mais nada, nem aumentos de ordenado, nada, queria saber se ficava mais um ano», contou Eladio Paramés.

«Os jogadores sabiam que estavam a trabalhar bem, gostavam dele. O José já tinha demonstrado a sua capacidade, mas o Vilarinho não podia, já tinha o compromisso, não podia dizer ‘ok, porreiro, tudo ficas’.»

Geraldo conta que a notícia da saída de Mourinho abalou o grupo, que reuniu todo, exceção feita a Sabry, com Vilarinho a pedir a continuidade.

«Todos os jogadores, exceto o Sabry porque tinha tido uns problemas com ele, foram ter com o presidente a pedir para o Mourinho ficar: internacionais, jogadores que eram suplentes, todos a pedir e mesmo assim não ficou.»

 

Certo é que José Mourinho saiu da Luz e até ao final da época não treinou ninguém. Depois assumiu o União de Leiria, FC Porto, Chelsea, Inter, Real Madrid e agora o Manchester United, com o sucesso que lhe é reconhecido por todos.

Manchete na época do Maisfutebol

A mítica conferência em que arrasou Sabry

O discurso e a abordagem de José Mourinho surpreendeu todos à data e a conferência de imprensa em que arrasa Sabry é das mais conhecidas.

Mourinho em conferência de imprensa

O treinador criticou o comportamento do egípcio e retirou-o do onze, ele que era uma das principais figuras.

Geraldo explica que isso foi também uma lição para o plantel: «O Sabry era um bom rapaz no balneário, espetacular, mas teve aquele problema com o Mourinho. Mas até nessa ação, ao tirar um jogador que era indiscutível, que marcava golos, internacional, mostrou que para ele todos eram iguais. Que todos estavam ali para ajudar a equipa, seja como titulares, seja no banco.»

«Todos estavam no mesmo degrau, um treinador ganha uma equipa quando com o discurso e ações consegue agarrar uma equipa», concluiu Geraldo.

17 anos depois o Benfica volta ao Bessa, numa situação muito diferente da que estava em 2000: muito mais estável e como tetracampeão nacional. Nessa época, o Benfica terminaria no sexto lugar e os axadrezados seriam campeões. Agora os papéis invertem-se e é a Pantera que tem um novo timoneiro.

E você, ainda se lembrava de tudo isto?