Há uma preocupação evidente no discurso de Rui Sampaio, quando conversa com o Maisfutebol sobre um dos temas mais delicados que já lhe pediram: que os elogios feitos a Davide Astori, seu antigo colega no Cagliari, não sejam encarados como levianos e fruto da ocasião.

«Normalmente quando acontece uma fatalidade as pessoas dizem sempre bem, mas no caso do Davide é completamente legítimo», sublinha. Não se fala bem por falar, mas por justiça.

Davide Astori faleceu na noite de sábado para domingo apanhando toda a gente de surpresa. Na tranquilidade do sono, o coração traiu-o, desacelerou e parou de vez. Agora que a autópsia já confirmou a causa de uma morte que chocou o futebol, a Fiorentina prepara-se para o último adeus e o primeiro dia do resto das suas vidas. O capitão, agora, já não será o primeiro a deitar as mãos à obra.

«Nasceu para liderar. Já vi outras pessoas a dizer isso e é, efetivamente, uma das coisas que me faz lembrar o Astori. Não se impunha, era inato. Era preciso fazer alguma coisa, olhávamos para ele, e ele já estava a fazer», conta Rui Sampaio, atualmente a jogar no Cova da Piedade. Em 2011/12 partilhou o balneário com Davide Astori, no Cagliari.

Para o português, em ano de estreia em Itália, Astori foi um amigo, verdadeiramente: «Gostava muito dele até porque no período que tive de lesão ele era dos que vinha ao balneário e perguntava como estava. Houve tantas situações que tive com ele que me custa muito agora lembrar. Ainda nem acredito que isto aconteceu.»

Davide Astori com Buffon

Pedro Pereira partilha a estupefação perante a tragédia. Conheceu Astori durante a sua passagem pela Fiorentina quando desempenhou o cargo de diretor desportivo. «É um jogador que me marcou pela positividade e pelo sorriso que metia em tudo», recorda, ao nosso jornal.

«Desde que chegou que sempre foi uma pessoa de consensos. E uma pessoa muito positiva e de bom senso na dificuldade. Na vida era mais ainda do que no futebol. Tinha uma família feliz», ilustra.

Acrescenta que Astori se tornou capitão «de forma natural», corroborando a descrição de Rui Sampaio. «A relação que tinha no balneário seja com italianos, espanhóis, todos, era de alguém especial. É por isso que o discurso de toda a gente que tem falado sobre ele por estes dias vai de encontro ao mesmo», sublinha.

A camisola de Gilardino e o número 13 que «não era para qualquer um»

A notícia chegou como uma bomba, na manhã de domingo. Rui Sampaio recebeu uma mensagem de um casal amigo. «Perguntaram-se se tinha visto as notícias. Não estava a perceber, porque, de facto, ainda não tinha visto nada. Disseram-me que tinham uma má notícia, que tinha falecido um amigo meu. Fui ver e era o Davide. Fiquei logo bastante triste, claro. Ele tem uma menina com dois aninhos…Deixa cá a filha, a esposa, a família…Enfim, é muito complicado», lamenta.

Pedro Pereira também não esconde o choque. Recebeu também uma mensagem de um amigo e, de início, até ficou confuso com o conteúdo. Não dava para acreditar. «Ainda pensei que fosse um engano e tivesse sido o pai dele, por exemplo. Era difícil de acreditar no que ali estava escrito», assume.

«Imaginar uma equipa fechada num hotel e ter acontecido uma coisa destas...é difícil para toda a gente, mais ainda para os jogadores e para o staff. E obviamente o choque maior é para a família porque sei que ele era feliz com a família. É difícil exprimir por palavras», resume.

O facto de ter acontecido durante o estágio aumenta a perplexidade. «Ninguém pode esperar uma coisa destas. Não há exemplo», diz Rui Sampaio. «E o clube, claro, tem as melhores condições para fazer exames. É muito, muito triste o que se passou», prossegue.

«Vou guardar as memórias que partilhei com ele no balneário, as lutas que tivemos, as palavras amigas, o exemplo de trabalhador. O Davide era uma pessoa extremamente calma, muito humilde. Era o tipo de jogador e de pessoa que no balneário dava uma palavra amiga nos momentos menos bons. Muito cuidadoso com o seu amigo, um líder por excelência, um líder pelo exemplo», descreve Rui Sampaio.

Astori e a alegria do golo

Para mostrar melhor como era Astori, o médio português conta duas histórias que atestam o carácter do italiano.

«Lembro-me de uma situação em que estava lesionado e íamos jogar com o Génova, quando estava lá o Gilardino. Em brincadeira, disse-lhe: ‘não vou ao jogo e gostava de ter a camisola do Gilardino’. Ele não disse nada, começou a rir. No treino a seguir ao jogo apareceu com a camisola do Gilardino e ofereceu-me», conta.

A outra história também envolve uma camisola, mas a sua. E um número que, agora, mais ninguém usará na Fiorentina nem no Cagliari.

«Quando cheguei [ao Cagliari] perguntaram-me que número queria para a camisola e escolhi o 13, porque era o meu numero de sempre, já tinha usado no Beira-Mar. Mas disseram-me logo: ‘O 13 é do Astori, que é um jogador que tem bastante peso’. Tinha vindo da seleção italiana, até, há pouco. Ele soube disso e no balneário metia-se comigo: ‘Tens de trabalhar mais. Se queres a 13 tens de a merecer, que não é para qualquer um.’»

Pedro Pereira, por seu turno, não tem dúvidas: a memória que vai guardar mais é «o sorriso».

«Na época em que estive na Fiorentina, tivemos uma fase mais complicada, com alguns jogos sem ganhar e ele sempre foi uma pessoa positiva e que tentava levantar os outros também. O carinho que todos têm, como os clubes por onde passou, é também o carinho que a Fiorentina tem por ele», defende.

«Ninguém acha que pode acontecer isto a um atleta de alta competição»

Mesmo que não tivesse conhecido Astori, Rui Sampaio não tem dúvidas que a notícia o marcaria. Deixa marcas em qualquer jogador. «Começamos logo a pensar: como é possível? Num patamar daqueles há exames a qualquer hora. Acho que quando chega a nossa vez não há nada a fazer», lamenta o português.

E acrescenta: «Pensei logo é que também tenho uma filha de 8 meses e pensar que ele deixou a menina cá é muito difícil. Sou pai, sei que ele de certeza absoluta que era um pai babado, porque só o consigo ver como um grande pai, um grande chefe de família e um grande marido.»

No plantel do Cova da Piedade há, inclusive, um italiano, o guarda-redes Francesco Anacoura. «A notícia abalou-o. Abalou todos, aliás. Ninguém acha que pode acontecer isto a um atleta de alta competição», comenta Rui Sampaio.

A verdade é que aconteceu. Esta quinta-feira realiza-se o funeral. Depois, o plantel da Fiorentina, que inclui os portugueses Bruno Gaspar e Gil Dias, terá de voltar à rotina do costume. E ultrapassar a dor.

«Felizmente nos clubes onde estive nunca passei por uma situação destas», comenta Pedro Pereira. «Talvez o mais diferente tenha sido, quando estava no Sp. Braga, o Lima ter a filha a nascer no dia da final da Liga Europa. Isso também mexe com o jogador e com a equipa, mas, claro, é muito diferente disto», acrescenta.

O dirigente lembra as situações de Miki Fehér, no Benfica, ou António Puerta, no Sevilha. Viveu-as de perto, mas por fora.

«Se para mim é difícil, para a equipa, claro, vai marcá-los para a vida a toda. A eles, ao clube, aos dirigentes. Aproveito para mandar um abraço ao Carlos [Freitas], ao Bruno [Gaspar] e ao Gil [Dias], os portugueses que lá estão. Não sei como vão ultrapassar isto, mas muitas vezes as equipas conseguem, dentro do balneário, ter um espírito positivo em momentos difíceis», explica.

E defende, até, que a Fiorentina já começou a dar a volta por cima: «Este gesto que a Fiorentina está a ter com ele, de lhe renovar o contrato, vai deixá-lo, esteja onde estiver, feliz pelo gesto para com a família. Não é pelo dinheiro, mas pela atitude. Ver um clube desta dimensão dar um exemplo de humanidade.»

Para já, é tempo de despedidas. A reconstrução será o passo seguinte e Pedro Pereira remata com a ideia que, acredita, poderá iluminar a equipa, hoje, destroçada: «Espero que o positivismo que sempre caracterizou o Davide se apodere da Fiorentina.»