Catorze países, nove modalidades, dez dias de prova. Estes são alguns números que contam um pouco do que foram os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, que se realizaram em Atenas, em 1896. A cerimónia de abertura decorreu a 6 de abril, completando-se, assim, esta quarta-feira, 120 anos desde o dia em que o sonho de Pierre de Coubertin se tornou realidade.

O barão francês foi o mentor do Comité Olímpico Internacional e principal impulsionador dos primeiros Jogos que, por respeito aos originais, se realizaram na capital grega, embora as dificuldades económicas do país quase tenham feito a ideia desmoronar.

Comecemos, então, pela ideia. Esta, segundo escreveu na altura Pierre de Coubertin, surgiu a partir de uma análise que fez às competições desportivas que se realizavam em vários países a partir do século XVIII. O barão entendia que a educação física deveria assumir papel importante para uma formação integral e, ao mesmo tempo, idealizava uma competição que unisse povos e países em torno do desporto.

Repescar e refundar os Jogos Olímpicos da Antiguidade Clássica, na Grécia, foi a proposta que apresentou no primeiro Congresso Olímpico, realizado em Paris, em 1894. Ainda se ponderou esperar até 1900 para realizar na capital francesa a primeira edição da competição, aproveitando o facto de se realizar a exposição mundial na Cidade Luz. Mas o receio de que o entusiasmo com que a ideia foi acolhida pelos países esmorecesse até à data pensada levou a que fosse proposto à Grécia a organização da primeira edição. E, com maior ou menor esforço, tudo ficou pronto a tempo.

A confusão com as datas e a ausência de chama olímpica e…mulheres

Deixando de lado as questões financeiras, o primeiro problema real dos Jogos Olímpicos de 1896 foi a própria data. Não a escolha mas a divulgação, devido à existência, na altura, de dois calendários.

Os gregos usavam o calendário juliano, diferente do da Europa ocidental e América. Assim, se, pelo calendário atual, o arranque aconteceu a 6 de abril, para os gregos acontecia a 25 de março, o que levou a uma enorme confusão na troca de mensagens.

Muitos dos documentos oficiais dos primeiros Jogos Olímpicos surgem com datas do calendário juliano, segundo o qual os jogos se realizaram entre 25 de março e 3 de abril.

Outra curiosidade em torno desta primeira edição prende-se com a ausência da chama olímpica, que é, ainda hoje, vista como um dos grandes símbolos dos Jogos mas que apenas foi introduzida na edição de 1928, em Amesterdão. Também a medalha de prata não existia: os vencedores recebiam uma de ouro e os segundos uma de bronze.

De igual modo, nesta primeira edição também foi vetada a participação a atletas do sexo feminino, numa fase da história em que as mulheres ainda lutavam pela possibilidade de uma participação ativa na sociedade e, acima de tudo, pela igualdade de géneros.

Nove modalidades em disputa, duas canceladas

A maratona dos primeiros Jogos Olímpicos

Com o futebol e o críquete a serem excluídos dos planos iniciais enquanto os torneios de remo e vela foram cancelados devido ao mau estado do tempo, apenas nove modalidades integraram os primeiros Jogos Olímpicos.

A mais participada foi o atletismo, sobretudo a prova da maratona, ganha pelo grego Spiridon Louis, que era pastor de ovelhas e carteiro. É, até hoje, o único helénico a sagrar-se campeão olímpico numa prova de atletismo.

Além do atletismo realizaram-se provas de ciclismo, ginástica, halterofilismo, lutas, esgrima, tiro, natação (em mar aberto) e ténis.

Em várias modalidades, com o atletismo e o ténis à cabeça, os principais atletas da época não compareceram nos Jogos, o que fez, por exemplo, com que a primeira edição tivesse terminado sem qualquer recorde mundial batido no atletismo.

Ainda assim, estes Jogos trouxeram alguns contributos para a modalidade, nomeadamente a posição «crouch start» que ainda hoje é utilizada em provas de velocidade e que foi estreada, para espanto geral, pelo norte-americano Thomas Burke, que colocou um joelho no chão antes de arrancar, iniciando uma tendência que se verifica até aos dias de hoje.

Os torneios duraram apenas oito dias, uma vez que o nono foi de descanso e o último serviu apenas para a cerimónia de encerramento.

Portugal não esteve entre catorze países presentes

Ainda hoje vários historiadores levantam dúvidas quanto aos países que enviaram representantes para esta primeira edição dos Jogos Olímpicos. O Comité Olímpico garante que foram catorze, sem revelar nomes.

Uma coisa é certa: Portugal não esteve. A primeira comitiva lusa na maior competição desportiva do mundo foi enviada apenas em 1912, para os Jogos de Estocolmo, três anos após a criação do Comité Olímpico nacional.

Assim, os catorze países presentes terão sido: Grécia, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Áustria, Bulgária, Itália, Suécia, Hungria, Dinamarca, Suíça, Estados Unidos, Chile e Austrália.

Maioria europeia evidente, o que se justifica, entre outros motivos, com a dificuldade de deslocação e comunicação que existia no final do século XIX.

Quanto ao medalheiro, a Grécia foi o país que mais medalhas conquistou (46), contabilizando o esquema que vigora atualmente, ou seja, de atribuição aos três primeiros e não o da altura, apenas para os dois melhores. Os Estados Unidos foram o país com mais medalhas de ouro (11) à frente dos gregos (10). Apenas Alemanha, França e Grã-Bretanha, além dos citados, inscreveram o seu nome na lista de premiados, todos eles com campeões olímpicos.

A nível individual, além de Spiridon Louis, o herói grego da maratona, destacou-se Hermann Weingartner, ginasta alemão, que foi o atleta mais premiado, conseguindo seis medalhas, três delas de ouro.

Spiridon Louis, herói grego das primeiras Olimpíadas

Comparativo de marcas nos Jogos de 1896 e atual recorde mundial:

100 METROS

1896: 12.0s

Atual recorde do mundo: 9.58s

400 METROS

1896: 54.2s

Atual recorde do mundo: 43.18s

800 METROS

1896: 2m11.0s

Atual recorde do mundo: 1m40.91s

1500 METROS

1896: 4m33.2s

Atual recorde do mundo: 3m56s

MARATONA

1896: 2h58m50s

Atual recorde do mundo: 2h02m57s