Por: Francisco Sousa

26 de Agosto de 2001. Tarde soalheira num repleto Estádio Delle Alpi, nobre casa da Juventus por muitos e bons anos. Começava mais uma edição da Serie A e a formação «bianconera» recebia o modesto Veneza. Foi um jogo fácil para a Vecchia Signora (triunfo por 4 a 0), embora com dois traços que ficariam marcados para a história: um, o golo 100 do mago Alex Del Piero ao serviço da Juve e o outro a estreia de um dos mais promissores guarda-redes europeus à época, Gianluigi Buffon. Gigi, como era e ainda é conhecido, já trazia um trajeto respeitável ao serviço do Parma, tendo disputado 225 partidas pelo clube parmesão entre 1995 e 2001 (e, mais importante, tendo ganho uma Taça UEFA, uma Coppa Italia e uma Supertaça em 1999). Além do mais, já havia sido chamado à Squadra Azzurra (pela qual se estreou precisamente há 17 anos) em algumas ocasiões, tendo estado no elenco do Mundial 1998 e falhado o Euro 2000 por uma estúpida lesão, contraída num jogo particular frente à Noruega, disputado poucos dias antes do início da competição.

A partir dessa tarde de Agosto, foi-se construindo, aos poucos, um dos maiores mitos do futebol italiano, conhecido pelos adeptos da Juve como Superman. Esta noite chegou ao jogo 500 com a camisola da Juve, celebrados com uma braçadeira especial. Um marco que ficará ligado à derrota frente ao Génova, a primeira nesta edição da Serie A.

A sua carreira no clube mais titulado de Itália tem sido de uma espetacularidade e de uma intensidade enormes. Colecionou cinco scudettos oficiais (não contam aqueles que foram perdidos na secretaria), quatro Supertaças italianas e um campeonato (provavelmente o mais inesperado de todos) da Serie B. Perdeu uma final da Champions, numa dramática disputa por penalties frente ao AC Milan, em Old Trafford. Lesões também as teve e hipóteses de saída, pelo menos conhecidas do grande público, foram duas: durante o caso Calciopoli em 2006 (e foi precisamente a condenação à descida ao inferno da Serie B que o fez permanecer, por amor e dedicação, no clube!) e, em 2011, após duas épocas frustrantes em sexto lugar, a Roma tentou-o, até que apareceu Antonio Conte e o convenceu a ficar em Turim. A sensatez do ex-companheiro revelou-se absolutamente decisiva para ele e para o clube, que temia a perda de uma referência.

Buffon ficou e com ele continuou a lenda, que promete estar para durar, de um guarda-redes que marcou uma geração, como disse Vítor Baía ao Maisfutebol. Aliás, já esta época, o guardião transalpino poderá chegar ao terceiro lugar da lista dos jogadores com mais jogos pela equipa principal da Juve. O primeiro classificado, Alessandro Del Piero parece impossível de alcançar (705 jogos!) mas Gaetano Scirea (552) e Giuseppe Furino (528), atuais segundo e terceiro da lista, respetivamente, poderão ser entretanto ultrapassados por Gigi. Aliás, entre a elite de guarda-redes europeus dos últimos anos, poucos são aqueles que atingiram os 500 jogos pelo mesmo clube. Apenas Iker Casillas (692 jogos pelo Real Madrid), Oliver Kahn (632 jogos pelo Bayern), David Seaman (564 jogos pelo Arsenal) e Victor Valdés (535 jogos pelo Arsenal) ultrapassaram essa marca, sendo que destes quatro apenas Casillas e Valdés estão em atividade (embora o último se encontre, de momento, sem clube).

Pela Juve, os 500 jogos dividem-se da seguinte maneira: 362 na Serie A, 72 na Liga dos Campeões (mais quatro em fases de qualificação), 37 na Serie B, 12 na Coppa Italia, nove na Liga Europa e quatro partidas na Supertaça italiana. Em todos estes encontros, várias defesas ficaram para a memória coletiva. Quem não se recorda daquela bola de golo tirada mesmo ao cantinho por Buffon, no Santiago Bernabéu, em 2003, impedindo o ex-colega Zidane de faturar para o Real Madrid? Ou ainda de uma defesa parecida no Olímpico de Roma frente à Lazio em 2005? Isto não excluindo aquela parada à Homem Aranha na inglória final da Champions em 2003 ou aquele voo extraordinário para a fotografia em Bremen, num confronto da Liga milionária, em 2006.

Para a história fica também a partida onde sofreu o primeiro golo ou ainda os encontros onde cumpriu centenários. Esses cinco momentos:

Primeiro golo sofrido: foi em 2001, num Juventus-Chievo (3-2), jogo relativo à terceira jornada da Serie A. O autor foi Massimo Marazzina, atacante potente com uma carreira bem digna ao nível da Serie A, tendo ainda jogado pela seleção em três ocasiões. Terminou a carreira em 2010, ano no qual Buffon voltou a questionar se seria capaz de continuar por muito mais tempo na Juve…

Jogo nº 100: 30 de setembro de 2003, Olympiacos-Juve, fase de grupos da Liga dos Campeões. Jogo disputado, como sempre, num ambiente infernal e no qual a Juve se superiorizou com dois tentos de Nedved. Buffon esteve em bom nível nessa noite. Curiosamente, o jogo europeu mais recente do italiano foi também frente ao Olympiacos, na Grécia, embora tenha terminado com um desfecho bem diferente (derrota por 1-0).

Jogo nº 200: 2006, 1ª mão dos quartos de final da Liga dos Campeões. Derrota dura da Juventus perante o Arsenal (2-0), numa partida em que os londrinos foram superiores em praticamente todos os capítulos. Noite de sofrimento para Gigi Buffon e para os seus companheiros, eles que não conseguiriam reverter a situação no jogo do Delle Alpi, na segunda mão (0-0).

Jogo nº300: Juventus 3-3 Chievo, a contar para a Serie A, em 2009. Foi um jogo infeliz para o capitão da Vecchia Signora, tendo sofrido três golos do modesto Chievo Verona (curiosamente, a primeira equipa que lhe havia marcado na carreira na Juve).

Jogo nº400: Chelsea-Juventus, primeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões, 19 de setembro de 2012. Foi um dos melhores jogos dessa fase da Liga milionária, ainda mais logo a abrir a prova. Em Stamford Bridge, Oscar bisou em apenas dois minutos (entre os 31 e os 33 min.), mas a Juve iria responder com tentos de Vidal (aos 38 min.) e do suplente Quagliarella no minuto 80. Buffon protagonizou um duelo intenso com Cech e acabou por não ter qualquer tipo de responsabilidade nos dois golos sofridos nessa noite.

Com contrato até ao final da temporada 2015/2016, Gianluigi Buffon persegue ainda mais títulos e outros recordes, tendo como grande sonho e objetivo poder capitanear a Squadra Azzurra no Mundial da Rússia, em 2018. Se o fizer, somará a sexta participação num Mundial, passando a ser o jogador com mais presenças nessa competição. E, só para que conste, terá já 40 anos. Sim, ele parece eterno. O corpo não, certamente, mas a sua aura de profissional dedicado e soberbo irá permanecer para sempre na história do futebol italiano e, em particular, da Juventus.