Estranha-se este Jamor, onde adolescentes de barba rara atiram às voluntárias frases que se aprendem num qualquer andaime. Eles riem. Mas quantos sonharam ter um número na camisola e disputar uma final no Estádio Nacional? Muitos, certamente. Talvez os mesmos que sentiram um pouquinho de inveja - mas também orgulho senão não vinham - de verem tanta rapariga num palco mítico. Eis a final da Taça de Portugal feminina, pela primeira vez no Estádio Nacional.

1º Dezembro goleia Boavista com «poker» de Carla Couto (6-0)

«Não percebo muito de futebol, aliás, não percebo mesmo nada, mas gosto dos golos, espero que haja mais.» Por esta altura, 1º de Dezembro e Boavista estão a caminho do balneário. Ao mesmo tempo, a equipa de Sintra está a caminho da quinta conquista do troféu. As axadrezadas sabem o quão difícil será dar a volta à melhor equipa do país, que vence por 2-0.

Até a primeira-dama, autora da citação acima, já o sabe. «Já percebi que há uma equipa que é mais forte que outra», disse Maria Cavaco Silva. As diferenças são notórias, mas o fair-play sintrense vai dar triunfo às axadrezadas. Lá mais para o fim.

Nas bancadas há menos gente que numa «final dos homens». Mas há o mesmo amor. Manuel, o do laço, diz à rádio pública que se sente nervoso. Aquele preto e branco aos quadrados bate-lhe forte, tão forte como os insultos dirigidos ao presidente da federação, pela claque axadrezada.

Não fazia parte do programa, como também não fez o hino. Diz o protocolo» que sem uma selecção nacional, o Presidente da República ou primeiro-ministro não há «A Portuguesa». Faça-se uma revolução, a Taça merece-o e as senhoras em campo também.

As protagonistas, uma despedida, um casamento e um funeral

No relvado, o 1º de Dezembro manda no jogo, mesmo que do lado boavisteiro haja uma camisola sete com o nome Figo, ou mesmo que Teté, a 17, tente liderar a revolta. Um apelido arrasa a defesa axadrezada. Couto é nome de embaixador da selecção, talvez devesse ser nome também de embaixadora. O cabelo apanhado e o nove escrito a branco sobre o vermelho identificam a melhor em campo. Carla irá receber um prémio. Faz-se uma piada: «Um trem de cozinha!» A senhora que marcou quatro golos na final e esteve nos outros dois responderá mais tarde.

Vinte anos depois de ter começado a jogar futebol, outra Carla, esta Cristina, sai do relvado ao minuto 90. Todo o 1º de Dezembro se apressa a correr para a linha lateral. Há gente do Boavista que faz o mesmo. Abraçam-se rivais, despede-se a guarda-redes número um do futebol português.

«Há 20 anos não pensava que seria possível, esta foi a melhor maneira de terminar a carreira. As lágrimas são de¿não me façam essa pergunta. Vou ter muitas saudades. Já não tenho muitas forças, não fui só eu, foi uma geração inteira que lutou por este momento. Levantei a Taça pelo 1º de Dezembro, mas levantei o troféu por todas as que lutaram por isto.»

Pela voz de uma mulher, talvez se perceba a importância do Jamor na vida de quem joga futebol, de quem vê o recinto como especial, apesar de neste mesmo dia o presidente da federação pedir obras de melhoramento.

Na hora de se despedir, a capitã vencedora «deu» a taça às vencidas e a todas as outras equipas, as que pedem protagonismo, reivindicam apoio e que nem tudo vá para os homens.

Valdano, o poeta da bola, diz: «Numa final cruzam-se um casamento e um funeral.» Neste sábado, nem por isso. Ganharam elas, ganhou o Jamor. Estamos em Abril...