No clássico dos batimentos cardíacos descontrolados, o coração de FC Porto e Benfica suportou tudo menos a emoção do golo. Um nulo que não foi uma história vazia, muito menos um deserto de ideias, mas que penaliza a vontade maior do que certeza (nos dragões) e um plano de muita fé e pouca ambição (nas águias).

Os bons 25 minutos iniciais do Benfica igualaram os 65 em que o FC Porto quis mais, tentou mais, andou uma mão cheia de vezes perto do golo e acabou por não conseguir dar o golpe (de misericórdia?) que desejava e precisava ao velho rival.

O filme acabou mal, com um adepto a invadir o recinto e a tentar a agressão a alguém no banco do Benfica. Uma cena feia, reprovável, mas que não deve apagar a alta qualidade deste clássico para duros. Foquemo-nos nisso.

DESTAQUES DOS DRAGÕES: arte de Brahimi, infelicidade de Marega

Melhor o Benfica na entrada, a ter bola e a dar sentido ao 4x3x3 inventado por Rui Vitória. À frente de tudo e todos, Krovinovic, um senhor jogador. Um homem para quem a bola não tem segredos e o relvado é uma companhia harmoniosa.

Nesse período o FC Porto viveu da retórica de Sérgio Conceição e mostrou um excesso de precaução que não encaixa na personalidade da equipa. É verdade que Marega teve um par de arrancadas pela direita, mas os dragões não conseguiram ter bola, nem juízo – Felipe, por exemplo, inventou movimentos que desconhece e quase se dava mal.

Sinal de alarme ligado no Dragão a partir de meio do primeiro tempo. E aí sim, tudo o que a equipa tem vindo a prometer conseguiu cumprir. Com uma exceção nada despicienda chamada golo.

FILME DO CLÁSSICO E A FICHA DE JOGO

Depois de falhar na pressão à primeira fase de construção do Benfica – por mau posicionamento dos quatro homens mais ofensivos -, o FC Porto passou a encaixar, a recuperar a bola em zonas altas e a criar grandes problemas às águias.

A atmosfera de grande jogo, de duelo carregado de páginas históricas, estava lá, mas faltava o drama, a encenação das jogadas com cabeça, tronco e membros, da insinuação ao golo.

Tudo isso chegou no segundo tempo. Pintado de azul e branco.

É provável que Conceição tenha pintado as faces dos seus atletas com desenhos comanches. O Dragão tornou-se território selvagem, planície de caça à águia. Como é que o Benfica sobreviveu?

DESTAQUES DAS ÁGUIAS: São Varela, padroeiro da baliza

Só a inépcia de Marega na hora do remate (três situações de golo), a precipitação de Felipe (dois lances para marcar) e a extraordinária exibição de Bruno Varela conseguem explicar este sopro de ar no pulmão da equipa de Rui Vitória.

Desorientada, amedrontada, a águia levou vários tiros de raspão e saiu com vida. No final, Krovinovic ainda teve dois bons lances, mas aí já não havia pernas, muito menos cérebro. Pizzi desapareceu completamente do jogo (mais uma noite pobre e com má reação na hora de sair) e Jonas deixou de ter bola e participar no jogo.

O FC Porto corrigiu a entrada em falso, chegou a massacrar e justificou a vitória. Não surgiu. E o mais provável, se bem conhecemos o futebol português, é que os dragões centrem o discurso em dois lances onde têm, de facto, razões de queixa da arbitragem.

A abordagem incompreensível de Luisão a um cruzamento de Marega provocou o toque da bola no braço e ficou um penálti por marcar; no segundo tempo, um fora de jogo mal assinalado a Aboubakar tirou um golo a Herrera. Sobre a expulsão de Zivkovic, lançado pouco antes, pouco a dizer. Justa.  

As linhas militares do Benfica foram, enfim, premiadas pela continência feita ao empate. Os lisboetas saem vivos do Dragão e isso não é coisa pouca, principalmente para uma equipa que tão pouco tem jogado e mostrado esta época.

O FC Porto, tal como em Alvalade, foi superior ao oponente direto. E voltou a não vencer. Já agora: Óliver Torres, o melhor em campo neste clássico a época passada, nem no banco de suplentes tem lugar? Só se andar a treinar muito mal. E Iker Casillas continua de fora, com José Sá visivelmente nervoso nos lances pelo ar? Não faz sentido. 

A Liga está como este jogo, de coração acelerado: FC Porto e Sporting igualados no topo e o Benfica ali bem perto. Quem diria?