Canção número quatro: «Zero a Zero». Em noite de desafinação maior no futebol da Cidade-Berço, impossível é não pensar no Festival da Canção e associar os dois eventos, distanciados por poucas centenas de metros. O palco foi do estreante José Peseiro, mas o compositor do futebol romântico sai com a certeza de que o júri não lhe pode dar nota máxima.

 

A música da primeira linha existe mesmo e será interpretada por Joana Espadinha. Para bem da cantora, candidata a suceder a Salvador Sobral, é melhor que as suas cordas vocais estejam mais inspiradas do que os 28 futebolistas que passaram pelo relvado do D. Afonso Henriques.

A responsabilidade maior vai para os donos da casa, naturalmente. Basta lembrar as palavras de Peseiro na apresentação e sublinhar a aparente candidatura à Eurovisão. Perdão, à UEFA. Pelo que vimos neste jogo, o Vitória não tem nesta altura nem qualidade nem andamento para lá chegar.

FICHA DE JOGO DO V. GUIMARÃES-BELENENSES

Não basta «Amar pelos dois», treinador e equipa. A desorientação e falta de confiança são notórias, destroços deixados pelas últimas semanas de Pedro Martins em Guimarães, difíceis para todos no clube vitoriano.

A plateia minhota, apaixonada e exigente, merece mais e melhor futebol. Mais e melhor espetáculo. A segunda parte foi ligeiramente superior, mas não chega sequer para receber nota razoável.

Previsibilidade e lentidão na posse de bola, sempre com passes lateralizados e cruzamentos precipitados. Só em algumas transições no segundo tempo e em alguns pormenores de Mattheus Oliveira o Vitória conseguiu aproximar-se de níveis aceitáveis. Peseiro, maestro e ensaiador, tem aqui um desafio gigante pela frente.

DESTAQUES EM GUIMARÃES: Bakic, futebol e lágrimas 

Melhor, ou pelo menos mais confortável e fiel ao plano de jogo, esteve o Belenenses. A defender num bloco médio/baixo em 5x4x1, os homens do Restelo roubaram o espaço e a paciência ao adversário. Depois, com bola, limitaram-se a ser seguros, até ao intervalo, e a disparar as flechas Licá e Fredy na etapa complementar.

A banda sonora do Festival, ali no Multiusos, será certamente de outro tom. Este jogo não foi sequer um bom plágio ou cópia pirata de outro qualquer. Foi um duelo pobre, desinteressante, principalmente por um Vitória que não encontra a pauta certa para atuar.

Foi apenas o primeiro jogo de José Peseiro, sim, mas o que se viu foi mau. A dimensão do gigante vitoriano exige uma qualidade que alguns destes atletas, pelo menos no contexto atual, não são capazes de oferecer.

Para o Belenenses, o «Zero a zero» foi uma consequência lógica de uma estratégia interessante e compreensível. Silas não tocou uma melodia épica ou condenada eternidade mas, pelo menos, não arriscou falsetes esganiçados ou agudos perturbadores.

Em noite de Festival da Canção, o veredicto é fácil: simplesmente desafinados.