DESTINO: 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

Famalicão, U. Leiria, Belenenses, FC Porto e Paços de Ferreira. Qualidade reconhecida numa carreira à qual só terá faltado mais brilho quando atingiu o ponto mais alto, na passagem pelas Antas. Luiz Bomfim Marcos. Lula para o mundo do futebol.

O «Destino:90’s» desta semana pousou na cidade de Salvador, no Brasil, onde encontrou um dos melhores defesas centrais daquela década em Portugal. Estava no shopping, confessa. Desabafa o calor contrastante com o temporal que se abate por solo lusitano. Conversa de ocasião e ponto de partida para uma viagem às suas memórias.

Um arranque rumo ao desconhecido, os casos em Famalicão e Alvalade, os duelos com o Benfica de azul e branco vestido. Lula fala com o desprendimento que os 47 anos que já tem lhe permitem. Está há dez sem jogar futebol, depois de ter terminado a carreira na China. Não tem saudades dos campos, mas do convívio. Da gente da bola. «Acho que parei no momento certo», conta. E, por isso, segue sem ressentimentos.

«Tive o meu destino traçado da forma que Deus quis. Não senti muita falta do futebol, embora, claro, tenha saudades dos amigos e do convívio que era sempre bastante leal e sadio», assume, em conversa com o Maisfutebol.

Chegou a Portugal em 1988 para jogar no Famalicão, que acabara de subir à Liga principal. «Nem sequer conhecia Portugal, quando mais Famalicão», brinca. «Disseram-me que era uma cidade pequena, perto do Porto. Fui com mais dois brasileiros. O que me interessava era jogar na Europa», refere.

«Naquela época a Europa era a grande vontade de todos os brasileiros. Falar em Europa era falar em ganhar mais e melhorar a vida», lembra. E foi naquela cidade que desconhecia, no norte do país, que viveu os anos que diz terem sido de «maior amadurecimento» de toda a vida. 

Cinco meses em Alvalade…sem jogar

À chegada rebenta o escândalo. O caso Famalicão-Fafe-Macedo de Cavaleiros atira com o clube para a III Divisão!

«Foi um choque, claro. Saí do Santa Cruz como jogador de seleção. Tinha propostas de clubes grandes do Brasil, mas quis a Europa. Depois veio esse caso e percebi que ia ter de jogar na III Divisão. Fizemos um pacto com os adeptos e a direção e continuámos com a mesma equipa. Repare, era uma equipa montada para a I Liga a jogar na III! Fomos campeões e depois o clube foi recolocado na I Liga», recorda.

Aquando da subida à II Divisão, a direção, obedecendo ao pacto celebrado, libertou os brasileiros. Lula voltou ao Brasil onde jogou uns meses no Sport Recife. «Voltei ao Famalicão a pedido do Abel Braga que era o treinador na altura», conta.

Ficou até 1993. Deu nas vistas, a ponto de chamar a atenção…da seleção portuguesa! «O meu empresário, Robério Lopes, foi contactado pela Federação a perguntar se estava interessado em naturalizar-me para jogar pela seleção portuguesa», revela.

Lula preferiu voltar ao Brasil, para o São Paulo, em 1993. Carlos Queiroz, que era selecionador na altura, passou para o Sporting mas não esqueceu o central que o encantou em Famalicão. E convidou-o para o Sporting.

«Aconteceu depois outra situação chata. Havia, na altura, o limite de estrangeiros. Eu tinha sido adotado por um pai português para ter a dupla-nacionalidade mas em Portugal não reconheceram isso. No Brasil tinha as duas nacionalidades, em Portugal era só brasileiro. Fiquei cinco meses sem jogar no Sporting, até ir para o U. Leiria», explica.

Em Alvalade viu, de fora, como funciona um clube grande. «Foi um período difícil, claro, porque ninguém gosta de ficar sem jogar. Ainda por cima era um grupo muito bom, com jogadores novos como o Figo, Peixe, Costinha», recorda. E por isso até consegue fazer um balanço positivo. «Foi legal, foi bom», diz, dando a entender uma avaliação positiva no limite.

Belenenses: o sexto lugar e o «esconde-esconde» nos estágios

Falhada a aventura no Sporting, Lula seguiu para Leiria, onde diz ter ajudado a mudar a mentalidade do clube. «O presidente era o João Bartolomeu que fazia um esforço grande para gerir o clube, mas tinha um pensamento muito antigo. Conseguimos mostrar qualidade e levar o Leiria para disputar a linha da frente do campeonato», conta.

Depois chega aquela que Lula define como «a grande jogada»: o Belenenses, já em 1995. «Foi o clube onde mais gostei de jogar em toda a minha vida», admite.

«O clube estava a atravessar uma crise e nada passou para fora. Era um grande grupo. O treinador, João Alves, era espetacular. A equipa era muito boa, com o Ivkovic, Neves, Paulo Madeira, Fernando Mendes, Mauro Airez, Catanha…», enumera, sem hesitar.

A temporada acabou às portas da Europa, no sexto lugar. O suficiente para despertar a cobiça por vários elementos do plantel: «Era praticamente só escolher para onde queríamos ir. Havia clubes para todos. O Paulo Madeira voltou ao Benfica, o treinador foi para Espanha, o Catanha também. Enfim.»

Lula haveria de seguir para o FC Porto, num processo que também dá uma boa história.

Leia o relato de Lula sobre a passagem pelo FC Porto

Mas as memórias do Belenenses são as que guarda com mais carinho. «Não falhávamos um treino, não falhávamos um estágio. O Rui Esteves era o mais brincalhão. Gente boa», elogia.

«Chegávamos a brincar ao “esconde esconde” nos estágios. Já viu? Uns 20 jogadores a brincar a isto? Quando chegava o último a contar, já nós estávamos nos quartos e ele lá em baixo a procurar…»