O NK Olimpia Liubliana regressou aos títulos 22 anos depois da última conquista. O clube da capital da Eslovénia terminou com a hegemonia do pentacampeão Maribor e fez história. O Maisfutebol esteve à conversa com um português que foi parte integrante da epopeia vivida pela equipa de Liubliana: Ricardo Alves.

Ricardo Alves, que terminou a formação no FC Porto, continuou a carreira ao serviço do Belenenses e, em ano de estreia no futebol sénior, sagrou-se campeão da II divisão. O futuro do internacional sub-20 parecia auspicioso, mas tal não aconteceu. Sucedeu-se um empréstimo ao Portimonense até emigrar. O Olímpia de Liubliana surge depois de seis meses sem clube e de uma passagem falhada pela Roménia.

O médio português conta-nos o feito memorável conseguido pelo Liubliana, da adaptação à capital eslovena, da experiência falhada na Roménia e da falta de oportunidades que teve em Portugal. Em suma, expõem os altos e baixos de um percurso que começou no Lourosa em Santa Maria da Feira e que, para já, continua na longínqua Eslovénia.

O fim da hegemonia do Maribor

21 de Maio de 2016. Data que os adeptos do MK Olimpia Liubliana nunca vão esquecer sobretudo os que estavam presentes no SRC Stozice. Viram o seu clube reerguer-se, após atravessar uma crise financeira, sob outro nome, e esperaram mais de duas décadas até festejarem um título de campeão nacional. E esse nem era o objetivo do clube. Mas acabou por pôr termo ao domínio do Maribor, pentacampeão em título, que terminou a seis pontos de distância.

«O objetivo inicial era ganhar jogo a jogo, pensar jogo a jogo. Se tudo corresse bem, redefiníamos objetivos. Tivemos a felicidade de conseguir estar sempre na frente do campeonato e a partir daí lutámos pelo título», confessou o médio de 23 anos.

Embora o campeonato da Eslovénia esteja, por assim dizer, fora da alta-roda do futebol europeu, Ricardo Alves tece grandes elogios ao futebol esloveno e garante que sente que perde visibilidade por pisar os relvados do país da antiga Jugoslávia.

«Não há assim tantas diferenças para Portugal. É um futebol similar, as equipas jogam um futebol de qualidade. É um país pequeno, que se calhar muitas pessoas não conhecem. Mas temos o caso do Maribor, pentacampeão e presença regular na Liga dos Campeões, uma equipa com visibilidade no futebol europeu. Atualmente é um país vantajoso: vamos às competições europeias, temos outra montra. Podem sempre aparecer clubes. Por exemplo, em dezembro o clube fez duas vendas: uma para a Suíça [ndr: Andraž Šporar transferiu-se para o Basileia] e outra para a Rússia ( ndr: Ezekiel Henty ingressou no Lokomotiv de Moscovo)».

Do céu ao inferno em Belém

O sonho em tornar-se futebolista nasceu num pequeno clube de Santa Maria da Feira, o Lourosa. No espaço de alguns meses, o talento de Ricardo chamou a atenção de outros clubes e foi aí que o FC Porto entrou na vida do português. Concluída a etapa ao serviço dos dragões o médio procurou prosseguir a carreira no outro clube da invicta, o Boavista. Contudo, a passagem pelos axadrezados foi curta: apenas duas épocas nos iniciados e um regresso ao FC Porto.

Atingida a maioridade e completa a formação, o atual jogador do Liubliana procurou o seu espaço mais a sul. Os primeiros passos no futebol sénior foram positivos e ao serviço do Belenenses conquistou o seu primeiro título.

«Foi um passo atrás que me ajudou muito. Uma pessoa quando está num patamar como é o patamar do FC Porto nunca pensa em ir para a II Liga. No meu caso tive que optar assim e as coisas correram bem. Fomos campeões e devolvemos o Belenenses à I Liga», contou.

Ainda assim e quando a afirmação no escalão máximo do futebol português deixava de ser uma miragem, eis que a vida do internacional sub-20 de Portugal muda completamente.

«É uma pergunta complicada. Sinceramente não consegui entender a minha saída do Belenenses. Nesse mesmo ano estive presente no Mundial de sub-20 na Turquia, regressei ao clube, abdicando das minhas férias. E depois deram-me a indicação que não estavam interessados em continuar comigo e que queriam emprestar-me.»

A saída do Belenenses e os salários em atraso na Roménia

Segue para Portimão e, apesar de ter participado em 19 jogos e de ter apontado um golo, não consegue o seu espaço no clube da Cruz de Cristo. As portas do futebol profissional pareciam começar a fechar-se e Ricardo Alves procurou, tal como outros tantos jovens, relançar a carreira além-fronteiras.

«Não tinha jogado com a frequência que realmente gostava. Quando rescindi com o Belenenses fecharam-se muitas portas, visto que não fiz muitos jogos lá e fiquei com pouco possibilidade de escolha. Surgi a oportunidade de ir para o estrangeiro e mais vale um pássaro na mão que dois a voar e agarrei essa oportunidade», referiu.

Contudo, e após seis meses à procura de clube, surge na Roménia a oportunidade que o médio procurava mas que, por questões extradesportivas, acabou por não corresponder às expetativas.

«A Roménia é um país difícil, com muitas dificuldades financeiros. De meio ano parado, fui para a Roménia e em seis meses sem receber um único ordenado. Foi um ano realmente difícil para mim e se calhar de uma fase menos boa, com trabalho e com o acreditar, surgiu a oportunidade de ir para a Eslovénia. Estou muito feliz porque era o que eu precisava»

Liubliana, a cidade onde moram os sonhos

Liubliana carateriza-se por ser uma cidade carregada de história e também por ser o coração da Eslovénia, um país recente na geografia europeia. Pese embora seja um país e uma cidade em fase maturação, Ricardo compara um dia em Liubliana a um dia em Portugal e garante que os hábitos e as diferenças culturais não se fazem notar assim tanto. Além de bem recebido, o facto de muitas pessoas falarem inglês serviu de tábua de salvação ao português.

«Fui bem recebido aqui. As pessoas são simpáticas e deram-me o apoio que precisei quer a mim quer aos meus familiares. Nunca deixaram que me faltasse nada e isso facilitou a minha adaptação. Além disso, a base da alimentação é quase a mesma que em Portugal, comemos praticamente as mesmas coisas. A única exceção é o clima, que é mais instável. Num dia tanto estão 25 graus como no dia seguinte está a nevar e é impossível treinar. Mas de resto, é um país que considero evoluído e agradável para se viver».

E é, na cidade que fez parte dos grandes impérios europeus, que moram os sonhos de Ricardo. Conquistado o título de campeão abre-se a possibilidade de tentar participar na fase de grupos da Liga dos Campeões pela primeira vez na história do clube.

«Jogar na Liga dos Campeões é o sonho de qualquer jogador e se tenho essa possibilidade tenho que me sentir orgulhoso. O importante agora é fazer uma boa pré-época e preparar bem a pré-eliminatória para se possível estarmos presentes numa fase de grupos»

Olhando para trás, Ricardo Alves assume, sem receio, que emigrar para a Eslovénia foi o melhor que lhe podia ter acontecido e não pensa tão cedo em regressar.

Foi uma época difícil por tudo o que passei antes. Esta época tinha que me afirmar como jogador e é como eu digo: precisava de jogar para voltar a ganhar confiança.

Evolui muito aqui, cresci como jogador, ganhei confiança novamente que era o que eu precisava. Um dos principais motivos da ida para a Eslovénia foi para jogar, demonstrar a minha qualidade e foi um passo muito importante para mim»

Com a Liga dos Campeões no horizonte e a revalidação do título ao alcance na próxima temporada, nem as saudades parecem impedir o jovem português de querer continuar a ser protagonista em terras eslavas.