Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências.

Na longínqua Roménia, perto da histórica região da Valáquia, há um português que quer reconduzir o CS Universitatea Craiova ao título. Trata-se de Tiago Ferreira, antigo capitão do FC Porto, que integra atualmente as fileiras do histórico emblema romeno, que viveu o seu apogeu no final do século XX.

O percurso do defesa inicia-se no modesto campo do Infesta, nos arredores da Cidade do Porto. Cresce entre Boavista e FC Porto e, pelo meio, é protagonista de uma das várias disputas entre dragões e Benfica. Aguarda dois anos por uma oportunidade na equipa principal azul e branca, mas a porta mantém-se eternamente entreaberta. Segue para a Bélgica para representar o Zulte Waregem e volta a Portugal pelo Arquipélago da Madeira.

Aos 24 anos, Tiago Ferreira encontra espaço para crescer de forma sustentável no país do Castelo do Drácula.

«A proposta da CS Universitatea Craiova surgiu após ter posto fim ao contrato com o União da Madeira. Ponderei muito e decidi arriscar. Faço um balanço muito positivo desta experiência. Em Portugal, ouve-se falar mal da Roménia, mas encontrei um clube grande, com um estádio novo e com boas condições para os jogadores», introduz o tema, em conversa com o Maisfutebol.

O jogador de 24 anos frisa que a adaptação «correu muito bem» em virtude do treinador ser estrangeiro e de partilhar o balneário com um brasileiro [Gustavo Vagenin]. Plenamente acomodado, Tiago Ferreira desfaz-se em elogios ao campeonato romeno.

«O campeonato romeno é muito mais competitivo do que o português. Qualquer equipa pode vencer outra, não existe uma discrepância tão grande entre as equipas que disputam a mesma prova. Em Portugal, dificilmente uma equipa dita pequena vence uma chamada grande. A competitividade é maior, embora as equipas sejam inferiores ao Benfica, FC Porto e Sporting», salienta.

As disparidades encontradas em campo são saudáveis e positivas, por comparação com Portugal. Porém, longe das quatro linhas, as dissemelhanças entre os dois países são maiores, conta Tiago Ferreira.

«As pessoas são frias e parece-me que não gostam de trabalhar (risos). Os funcionários estão com o telemóvel enquanto atendem os clientes, outros saem para fumar quando estamos dentro da loja. É diferente, mas cada país com a sua cultura.»

A sete jornadas da fase de apuramento de campeão, o CS Universitatea Craiova sonha com a conquista do título, já que está a cinco pontos do primeiro lugar. A possibilidade de somar troféus ao palmarés justifica a mudança para a antiga Dácia.

«O fator financeiro pesou antes de aceitar emigrar, naturalmente. Contudo, ainda sou jovem e preocupei-me com a parte desportiva, obviamente. Prefiro estar num campeonato em que luto para conquistar títulos, do que estar em Portugal na Primeira Liga a lutar para não descer de divisão ou para vencer um jogo por mês. Prefiro ter a pressão de ganhar. Estamos a lutar pelo campeonato, temos um estádio belíssimo e somos a equipa com maior número de adeptos em casa», confessa.

Desviado da rota da Luz pelo FC Porto

Tiago Ferreira precisa de apenas um ano ao serviço do Infesta para despertar a atenção do Boavista. Três anos no Bessa – com uma passagem pelo Pasteleira (equipa satélite) – é suficiente para captar a atenção de Benfica e FC Porto. No verão de 2008, os dragões vencem a luta ao arqui-rival e Tiago Ferreira chega ao Olival.

O Centro de Treinos dos azuis e brancos serviu como laboratório para crescer. Em cinco anos, cumpriu as habituais fases de crescimento até ocupar uma vaga na equipa B, na qual é eleito capitão. O defesa rejeita o rótulo de promessa e explica que não sente mágoa por nunca se ter estreado na primeira equipa do FC Porto.

«Tive dois jogos no banco da equipa principal [ambos na Taça da Liga: Paços de Ferreira e Estoril], mas não entrei. Era difícil entrar na equipa principal numa fase em que o FC Porto ganhava sempre. Além disso, tinha centrais de excelência, como Otamendi, Mangala, Rolando e Maicon. Nessa fase era muito complicado chegar à equipa A, ainda mais para um miúdo. Tristeza? Não. Provavelmente, na altura não estava preparado para me estrear. O FC Porto deu-me muita coisa, fui muito feliz. Não guardo nenhuma mágoa», salienta.

Perante esse cenário, Tiago Ferreira decide colocar um ponto final na ligação ao FC Porto. Segue-se uma experiência infeliz na Bélgica, ao serviço do Zulte Waregem, antes de regressar a Portugal pela porta do União da Madeira.

«Foi uma decisão difícil. Fiz dois anos na equipa B, num deles ficámos em segundo lugar e senti que o meu ciclo tinha terminado. Surgiu a oportunidade de ir para o Zulte Waregem, que disputava as competições europeias. Foi uma proposta vantajosa em termos financeiros e decidi arriscar. A aventura não correu bem. Não fiz pré-época e paguei por isso quando a competição iniciou. O campeonato belga é mais intenso e mais físico que o português. Não estava preparado, precisava de tempo para me adaptar», refere.

Na Madeira, consegue estrear-se no patamar mais alto do futebol português. Faz apenas uma dezena de jogos numa época de má memória para o emblema insular.

«O União da Madeira apresentou-me um projeto sólido e decidi avançar. Achei que era um passo importante, mas a época foi catastrófica. Em janeiro, precisávamos somente de sete pontos em quarenta e oito possíveis. Fizemos apenas seis, é difícil de explicar. Começámos muito bem o ano, estivemos nos oito primeiros lugares até janeiro. A partir daí, foi o descalabro», recorda.

A conversa obriga-nos a recuar ao tema FC Porto. Dos jogadores que convivem com Tiago Ferreira na formação secundária dos azuis e brancos, apenas Ricardo Pereira, Fabiano e Sérgio Oliveira estabelecem-se no plantel principal. Quiçá, se o clube atravessasse uma fase distinta, o central teria tido uma oportunidade.

«Há alguns na equipa principal. O Sérgio [Oliveira] voltou, mas teve de andar por outras equipas para aparecer. O André Silva também saiu da equipa B. Porém, não há muitos que conseguiram subir à primeira equipa. Há mais casos desses no Benfica e no Sporting. Poderia ter sido diferente. O FC Porto passou um ciclo menos bom e talvez nessa fase poderia ter tido uma oportunidade. O futebol não é como queremos, nem como imaginamos», esclarece.

Tiago Ferreira ocupa, porventura, uma das posições mais carenciadas do futebol português: a de defesa central. Vice-campeão do mundo de sub-20 em 2011, o nortenho não esconde a ambição de integrar as escolhas de Fernando Santos e explica por que razão a zona central da defesa é o sector mais delicado de renovar.

«Pretendo chegar o mais longe possível e ganhar troféus, que é o que me move. Sonho um dia chegar à seleção. Não há falta de centrais. Considero que é uma posição em que os jogadores apenas atingem a maturidade aos 27/28 anos. Por isso, os melhores centrais portugueses são os mais velhos», elucida.

Enquanto a porta da seleção nacional não se abre, Tiago Ferreira esquece o passado e olha em frente em busca de concretizar os seus sonhos.

Artigo original: 02/04/18, 23h50