Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências.

No país do Tio Sam, há um português à procura de cumprir o sonho americano. Pedro Santos nasceu e cresceu em Lisboa mas foi mais a Norte, na cidade do Porto, que se estabeleceu e afirmou nos grandes palcos do futebol português.

Após cinco temporadas de bom nível no patamar mais alto do futebol português e com uma Taça de Portugal no palmarés, o jogador de 29 anos decidiu trocar a cidade dos arcebispos pela cidade de Columbia, no Estado do Ohio, no outro lado do Atlântico. O Columbus Crew, clube que Pedro Santos representa, procura fazer jus ao título de emblema mais antigo da Liga norte-americana.

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Pedro Santos chegou ao Sporting de Braga no início da temporada 2013/14. Sem espaço, foi obrigado a procurar acabar com as dores de crescimento longe da Pedreira. Experimentou dois clubes no mesmo ano, tal como referido, e deu sinais de maturação em Vila do Conde, após uma primeira experiência aquém.

Os números no primeiro ano em Braga – 5 golos em 33 jogos –, sob o olhar atento de Sérgio Conceição, confirmaram o crescimento previamente anunciado. O atual treinador do FC Porto foi quem lhe abriu as portas do clube. Portanto, é natural que Pedro Santos o recorde com carinho.

«É um treinador do qual gosto muito. Gosto da sua personalidade, da forma de ser e claro, agradeço-lhe o facto de ter apostado em mim e de me ter aberto as portas do clube. É um treinador exigente e quer que a equipa dê sempre o máximo, tanto nos treinos como nos jogos. Se as coisas não estão do seu agrado, enfrenta os jogadores e exige que as coisas sejam à maneira dele e não como os jogadores querem. No futebol, é preciso ter algum pulso e ele sabe como levar a equipa. É um treinador com uma excelente personalidade.»

A instabilidade no banco do Sporting de Braga permitiu a Pedro Santos coincidir com cinco treinadores diferentes, em apenas três anos. Além de Conceição, o esquerdino lembra ainda Paulo Fonseca, um técnico «diferente» do seu antecessor.

«Têm estilos diferentes. O Paulo é uma pessoa mais tranquila e mais calma, enquanto o Sérgio vive o futebol mais com o coração. Cada um tem o seu estilo. O importante é saber levar a equipa e ambos fizeram excelentes trabalhos no Sporting de Braga. Aliás, depois de saírem do Braga também», afirma.

As duas finais e a porta que nunca se abriu

Com a porta do Sporting de Braga aberta por Sérgio Conceição, Pedro Santos trilhou o seu próprio caminho e conseguiu ser um dos protagonistas de uma página dourada da história do Sporting de Braga. O clímax dessa história foi atingido com a conquista da segunda Taça de Portugal do clube.

Antes de tocarem no céu, os minhotos tiveram de passar pelo inferno. Uma fatalidade cumprida à risca pelos arsenalistas. No ano anterior, a seis minutos do final, o Sporting de Braga vencia o Sporting por dois golos de diferença, com os leões reduzidos a dez elementos. Era, portanto, um Sporting de Braga com praticamente uma mão a segurar o troféu. Nos instantes finais daquele jogo no Jamor, houve Taça. Crua e dura. O jogador do Columbus Crew recorda essa final com um grande «amargo de boca».

«Nos próximos anos não se vai ver uma final assim. Tínhamos tudo para vencer o troféu: dois golos de vantagem, com um jogador a mais. Já perto dos noventa sofremos dois golos seguidos… Acabou completamente connosco. É difícil de explicar. Também tivemos azar na forma como sofremos os golos. Mas também há mérito do Sporting que acreditou até ao fim. Podíamos ter feito as coisas de outra forma. O futebol é mesmo assim», recorda. 

O Sporting de Braga, recorde-se, acabaria por cair nas grandes penalidades após uma igualdade a duas bolas.

Só no ano seguinte, é que o Sporting de Braga alcançou o desejado troféu da prova rainha do futebol português. Desta feita, já com Paulo Fonseca ao leme.

«Nesse ano, a Taça de Portugal era um dos objetivos do clube. Principalmente do presidente, que estava há dez anos no comando do clube e que ainda não tinha conseguido vencer a Taça de Portugal. Sabíamos, mais do que ninguém, que o presidente queria esse troféu, sobretudo depois de termos perdido daquela forma no ano anterior. Voltar ao Jamor tornou-se um dos objetivos primordiais. Felizmente conseguimos ganhar a Taça, apesar de ter acontecido praticamente o mesmo que no ano anterior. A equipa não ficou abalada e, no final, acho que acabámos por merecer vencer», refere.

Pese embora a conquista da Taça de Portugal frente ao FC Porto, nas grandes penalidades, Pedro Santos e a sua equipa perderam duas finais [Taça da Liga e a já referida Taça de Portugal]. Ainda assim, o extremo confessa que deixou a cidade nortenha com o sentimento do dever cumprido.

«Essas duas finais deixaram um amargo de boca. Tínhamos todas as condições para ganhar mais dois títulos. Apesar dessas duas desilusões, conseguimos fazer boas temporadas e não podíamos ter feito mais», destaca.

24 golos distribuídos por 112 jogos, registo interessante alcançado por Pedro Santos. Essas exibições suscitaram o interesse de clubes estrangeiros. Contudo, a saída de Rafa Silva para o Benfica no verão de 2016, inviabilizou a transferência do lisboeta.

«No verão tive algumas propostas para sair para o estrangeiro. Contudo, na altura, o Rafa ia sair e o Salvador [presidente do Sp. Braga] não quis perder os dois. Decidiu que eu ia ficar mais um ano e depois, se fizesse uma boa época, então poderia sair», conta.

Apesar do sucesso em Braga, o «sonho» de chegar à seleção nacional nunca se tornou real.

Em contrapartida, a prometida saída acabou por acontecer para um destino exótico. Curiosamente, esta terça-feira, Portugal defronta os Estados Unidos. O facto de atuar na MLS manterá a porta da seleção nacional eternamente fechada? Pedro Santos esclarece.

«Para mim é um sonho representar a seleção nacional. Tenho a consciência que estando aqui tenho mais dificuldades em conseguir jogar. Para já, é só um sonho. Fiz boas épocas no Sporting de Braga e nunca tive a oportunidade de representar a seleção nacional. Por isso, vir para aqui… Nunca tive uma porta aberta para a seleção.»

Alguns sonhos cumpridos e outros por cumprir, a felicidade de um português no «soccer», desporto que ganha cada vez mais força em terras do Tio Sam.

«Tenho mais dois anos de contrato, sinto-me bem e não penso em mudar», remata.