Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências.

No país do Tio Sam, há um português à procura de cumprir o sonho americano. Pedro Santos nasceu e cresceu em Lisboa mas foi mais a Norte, na cidade de Braga, que se estabeleceu e afirmou nos grandes palcos do futebol português.

Após cinco temporadas de bom nível no patamar mais alto do futebol português e com uma Taça de Portugal no palmarés, o jogador de 29 anos decidiu trocar a cidade dos arcebispos pela cidade de Columbia, no Estado do Ohio, no outro lado do Atlântico. O Columbus Crew, clube que Pedro Santos representa, procura fazer jus ao título de emblema mais antigo da Liga norte-americana, Major League Soccer [MLS].

A oportunidade de continuar a escrever história está para breve: madrugada de segunda-feira para terça-feira, no Mapfre Stadium, diante do Toronto FC na primeira mão da final da Conferência Este.

«Estamos a realizar uma época dentro do que foi planeado. O objetivo quando assinei pelo clube era qualificarmo-nos para os play-offs. Disseram-me que qualquer equipa que joga os play-offs tem capacidade para vencer a MLS. Para nós é muito bom. Somos a equipa mais antiga da MLS. É muito bom ter a possibilidade de fazer história. O objetivo agora passa por aí. Tentar chegar à final da MLS e conseguir ganhá-la», começa por dizer, em conversa com o Maisfutebol.

Mas afinal, como surgiu a hipótese de rumar à MLS?

«No último mercado de transferências, apareceu a oportunidade de vir para a MLS e não pensei duas vezes. Decidi arriscar e estou muito contente com a minha decisão. Não fazia a mínima ideia do clube, nem da cidade, nem da MLS. Foi uma aventura e vim à descoberta [risos]», conta.

Pedro Santos chegou aos Estados Unidos como a transferência mais cara da história do Columbus Crew. Avesso a valores ditados pelo mercado atual, o ex-Sporting de Braga explica que sentiu mais dificuldade em adaptar-se a nível cultural do que ao «soccer» propriamente dito.

«Ao início foi um bocado complicado, sobretudo ao nível da alimentação. É tudo muito diferente daquilo a que estava habituado. A adaptação acabou por ser boa. Fui muito bem recebido pelos meus colegas e pelas pessoas que trabalham no clube. Preocuparam-se para que me integrasse bem. Não sabia falar muito bem inglês, apenas o básico, mas conseguia perceber quase tudo. Depois aprendi rápido a língua e já estou confortável», elucidou.

Inicialmente a MLS era vista como um campeonato para jogadores no ocaso da carreira, como os casos de David Beckham e Thierry Henry. Mais tarde, seguiram-lhes os passos Kaká, David Villa e Pirlo. Contudo, esse paradigma está a mudar. Cada vez mais há um êxodo de jogadores europeus que procuram a felicidade nos relvados norte-americanos, algo que Pedro Santos vê como normal.

«Acho que não são só portugueses que rumam a estas paragens. A MLS, atualmente, tem muitos estrangeiros. Numa fase inicial, alguns estrangeiros trataram de abrir as portas para outros estrangeiros. Depois, como sabem que os portugueses podem ser mais-valias quer para os clubes, quer para a própria Liga, acabam por apostar. O jogador português é visto como um jogador de qualidade. As pessoas aqui conhecem os jogadores portugueses, com Ronaldo à cabeça, claro. Sabem que temos qualidade e estão atentos ao nosso desempenho», explicou.

 

 

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No caminho até à final da Conferência Este, Pedro Santos defrontou Andrea Pirlo, no último jogo do mago italiano. Uma experiência inesquecível, de acordo com o futebolista do Columbus Crew.

«É algo que fica para a história. Todos sabem da qualidade do Pirlo. É uma referência para todos. Ter o privilégio de estar em campo no último jogo dele, foi incrível.»

Apesar do período de sucesso atual nos Estados Unidos, a história de Pedro Santos convida-nos a fazer uma analepse. Invariavelmente, a viagem começa com uma bola debaixo do braço do então menino Pedro, repleto de sonhos. Prossegue por clubes como Sporting, Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais [ADCEO], Casa Pia, Leixões, Vitória de Setúbal, Astra Giurgiu, Rio Ave e Sporting de Braga.

 «Antigamente, em Lisboa, havia os jogos de Lisboa. Havia um senhor que recrutava jogadores nas escolas primárias e na minha escola fui o escolhido. A partir daí, o meu pai investiu em mim e incentivou-me a jogar. Também tinha o objetivo de continuar a jogar. Fui fazer uns treinos ao Sporting e acabei por ficar lá durante um ano. Logo de seguida, saí para um clube de Lisboa chamado ADCEO e aí era mais a sério, por assim dizer, porque no Sporting não jogava futebol federado. Depois voltei ao Sporting e, volvidos dois anos, fui para o Casa Pia», recorda.

Em Pina Manique, Pedro Santos completou a formação e estreou-se no futebol sénior. Em três anos, escancarou as portas do futebol profissional. O interesse do Leixões e o primeiro contrato profissional surgiram com a naturalidade própria de quem tem talento. Num ápice, estava no escalão máximo do futebol nacional, a defender as cores do Vitória nas margens do Sado.

Quatro golos em mais de três dezenas de jogos valeram-lhe o salto para o Minho. Porém, os responsáveis arsenalistas decidiram cedê-lo no primeiro ano de contrato. O Astra Giurgiu na longínqua Roménia, país do Castelo do Drácula, serviu como tubo de ensaio. Contudo, a experiência foi de má memória para o lisboeta que acabou a época no Rio Ave.

«Estive três/quatro meses na Roménia. Na Roménia, o futebol funciona de maneira diferente daquilo que acontece em Portugal. Quem manda são os donos dos clubes e os treinadores não têm muita margem de manobra. Se um jogador erra num jogo, nunca mais joga e não lhe voltam a dar oportunidade. Havia muitos exemplos desses no meu clube, contaram-me os meus colegas. De um momento para o outro, eu próprio deixei de jogar sem que ninguém me desse uma explicação. Estar lá e não ser opção… Optei por vir embora», rememora.

«Sempre acreditei muito em mim. Depois do grande final de temporada que fiz no Rio Ave acreditei que tinha todas as qualidades para me afirmar no plantel do Sporting de Braga. Mesmo no primeiro ano em que fui emprestado, achava que tinha qualidade para ficar no plantel, mas foi uma opção. Não estou nada arrependido das minhas decisões e fiquei satisfeito pelo que acabei por conseguir fazer no Sporting de Braga», acrescenta.

Um menino com um sonho, um entre tantos outros, chegou ao topo e agora arrisca-se a conquistar a MLS. 

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