Mais longe e mais alto é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

 

Esta é uma história de superação, de alguém que corre e luta em dois caminhos paralelos e que está a ter sucesso nos dois.

É a história de João Souto, hoquista da Oliveirense e internacional português, que já foi campeão nacional pelo Valongo, que está a cinco jornadas de voltara festejar um título nacional, isto num ano em que está a finalizar o curso de... Medicina.

Natural de Fânzeres, terra onde o hóquei é um dos desportos mais praticados, João Souto cedo deu as primeiras sticadas e logo adorou.

«A paixão começou pelo meu pai, que foi jogador de hóquei até aos juvenis e que era vice-presidente do Fanzeres. Inevitavelmente a minha família estava ligada ao hóquei e ele levou-me para praticar e desde o primeiro dia que adorei e quis continuar. Nunca pratiquei mais nada, a única coisa que fiz além do hóquei foi a natação, coisas de mães», começou por contar.

Foi algumas vezes à piscina, assume, mas os patins eram a sua grande paixão. Ainda muito novo mudou do Fânzeres para o FC Porto.

«Comecei a patinar no Fânzeres, nos Infantis B, agora chama-se benjamins penso. Depois fui para o FC Porto, precisamente na altura em que deixaram o pavilhão Américo de Sá e passaram a jogar em Fânzeres. Mantive-me no FC Porto durante doze anos com apenas um ano de passagem pelo Fânzeres, em infantil A.»

Como primeiros ídolos teve Tó Neves (agora seu treinador) e Pedro Alves, mas mais para a frente chegou o ídolo maior: Pedro Gil.

Durante anos viu-o a levar o FC Porto a muitos títulos, agora é adversário, já que o espanhol é jogador do Sporting: «Não escondo que quando jogo contra ele tenho um sentimento especial, é estar a jogar contra quem idolatrei.»

Os três motivaram sempre João Souto a perseguir o sonho e a maior parte do percurso foi feito no reino do Dragão.

Vestiu a camisola azul e branca até ao último ano de júnior, altura em que se mudou para os séniores do Valongo a meio da temporada.

«Desporto ajudou-me a entrar em medicina, agora quero que a medicina me ajude a ficar ligado ao desporto»

Nesta altura já estava lutava pelo outro grande sonho de vida: ser médico.

«Sempre foi um dos grandes objetivos da minha vida. Nunca deixei para segundo plano, nem uma coisa nem outra. Consegui sempre conciliar e mesmo agora numa fase mais difícil, porque o hóquei está a ser mais exigente e o curso também, tenho conseguido. Foram semanas difíceis as últimas, com a semana de finalista e da Liga Europeia a coincidirem, mas consegui ultrapassar e aproveitar ao máximo o que de bom tive do hóquei e da faculdade.»

Está a terminar o 6º ano do curso e depois ficará a faltar o exame para escolher a especialidade, o Harrison.  

Um percurso complicado e de muito esforço, mas que João Souto diz que «valeu muito a pena»: «Muitas vezes perguntam-me como consigo. Comprovei ao longo dos anos que com organização, método e paixão pelas duas coisas é possível. Acabei por abdicar de muitas coisas ao longo destes seis anos por ter o hóquei e um curso tão exigente. Abdiquei de saídas, de férias e de mais coisas, mas valeu muito a pena.»

Há um mês e meio o Maisfutebol entrevistou Pedro Seabra, jogador de Andebol do ABC que já terminou o curso de Medicina e que até viu a sua tese de mestrado ser publicada pela revista The Physician and Sportsmedicine.

João Souto segue-lhe as pisadas, mas ainda não sabe o que fazer depois de terminar o curso. Pedro Seabra revelou que vai tirar uma licença sem vencimento para se dedicar mais a sério ao desporto nos próximos anos, o hoquista ainda não tem certezas.

«Felizmente conheço o percurso do Pedro, algumas pessoas já me falaram dele. Ainda estou em fase de avaliar o que vou fazer, mas agradou-me o percurso dele, de fazer a pausa, pedindo a licença sem vencimento para se dedicar ao desporto, pode passar por aí. Depois de acabar o curso e começar o estágio de ano comum talvez peça paragem para me dedicar ao desporto.»

Isso é um tema para mais tarde pensar, mas há uma coisa que ele gostava que acontecesse: «Espero que o exemplo do Pedro Seabra, e mesmo o meu, possa ser exemplo para miúdos que começam o percurso no desporto. Ser desportista é uma profissão de curto prazo e todos os miúdos não se devem esquecer dessa parte.»

Depois deixou um alerta para os pais: «Em Portugal muitas vezes acontece isso, não só nos miúdos como também nos pais, que quando vêem que o filho tem potencial no desporto, abdicam dos estudos e isso não deve ser feito. Espero que os nossos exemplos sirvam para mudar mentalidades.»

Não esconde, tal como Pedro Seabra não escondeu, que é preciso muito sacrifício, dedicação e até compreensão por parte de professores e treinadores. João Souto não conhece as realidades de todas as faculdades, mas a sua, a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), dá todas as condições para realizar um percurso destes.

«Só tenho a agradecer à FMUP, a toda a estrutura e a todos os professores, porque todos foram compreensivos. Quando não era pelas regras e estatutos da faculdade, era pela comprensão e bondade dos professores, que sempre me deram facilidade para faltar ou fazer exames em épocas especiais.»

Do lado do hóquei encontrou a mesma compreensão: «Procurei faltar o mínimo aos treinos, porque no hóquei é que me pagavam e tinha essa responsabilidade com eles. Nos clubes que representei, tanto agora com o Tó Neves na Oliveirense, tanto com o Paulo Pereira no Valongo, foram sempre compreensivos. As direções também me deram facilidades para isso, se precisasse de falar com alguém porque andava sobrecarregado com os estudos, tudo. Apoiaram e compreenderam.»

E concluiu: «Não é fácil vir de um dia sobrecarregado dos estudos e treinar. Talvez tenha sido mais importante o apoio psicológico do que a permissão para faltar a treinos.»

A fase final do curso está aí e João Souto deve optar por Ortopedia como especialidade: «É a especialidade mais próxima do desporto e que me pode dar mais possibilidades de estar ligado ao desporto no futuro, mas tudo vai depender do exame da especialidade e da média com que terminar o curso.»

Uma vida com duas paixões...que se complementam.

«Costumo dizer que se o desporto me ajudou a entrar em medicina, agora quero que a medicina me ajude a ficar ligado ao desporto.»

À beira do seu segundo título nacional com dois clubes que nunca tinham sido campeões

O hóquei em patins serve para descontrair e libertar-se do mundo dos livros e da medicina e quando entra na quadra não se preocupa com questões médicas.

«De vez em quando os meus colegas brincam comigo e pedem opinião, mas eu tento não me meter no trabalho da equipa médica e tento afastar-me ao máximo porque ali quero ser unicamente jogador», explicou.

Dentro da quadra tem tido muito sucesso.

Após a formação no FC Porto saiu para o Valongo, ainda júnior, e conseguiu surpreendentemente ser campeão no ano seguinte, num clube que nunca o tinha sido em toda a história.

Ele e mais quatro companheiros que foram consigo do FC Porto para Valongo (André Girão, Rafa, Henrique Magalhães e Telmo Pinto) foram a base desse sucesso. Agora representa a Oliveirense e a cinco jornadas do fim do campeonato está perto de repetir o feito.

Tornar-se-à, juntamente com o colega de equipa Araújo, um dos únicos hoquistas a ser campeão por dois clubes que não os chamados «grandes» [impossível verificar os plantéis dos campeões de hóquei antes de 1958] se a equipa de Oliveira de Azeméis se conseguir manter à frente de Benfica, FC Porto e Sporting.

João Souto admite que já pensa nisso, mas diz que esta temporada nada tem a ver com a de Valongo:

«Em nada igual, de todo. Em Valongo até à penúltima jornada ninguém acreditava que poderíamos ganhar. Toda gente dizia que mais cedo ou mais tarde aquela equipa jovem do Valongo iria cair e perder e este ano não se passa isso. Este ano já muita gente, a partir de meio campeonato, começa a dizer que a Oliveirense é um potencial campeão e que se na altura apenas 1% das pessoas acreditava no Valongo, agora muitos mais acreditam na Oliveirense, por ter grandes nomes e por ser um clube mais habituado a estar nos lugares cimeiros.»

Festejar a conquista na Supertaça pelo Valongo

É verdade que a Oliveirense é um histórico nacional do hóquei em patins, mas nunca conseguiu o título. Nos últimos sete anos esteve cinco vezes no pódio (terceiro lugar) e a nível europeu chegou a duas finais da Liga Europeia consecutivas [a Champions do Hóquei], perdendo as duas, sempre com João Souto no plantel.

O último desaire foi no último fim de semana, em Espanha, mas João Souto garante que isso não vai afetar o desempenho internamente:

«Sempre estivemos cientes desde o início da época que uma competição era uma competição e a outra era a outra. Esta derrota, tal como se ganhássemos a Liga Europeia, não vai influenciar em nada aquilo que é o campeonato. Sabemos que foi difícil perder, mas tivemos esta semana para desligar o chip e continuar o excelente trabalho que temos feito. Só podemos estar confiantes porque somos primeiros, à frente de potências como o Benfica e o FC Porto [têm mais um e dois pontos respetivamente]

Apesar dessa garantia, admite que foi muito duro voltar a perder: «Foi muito mau, momentos muito duros. Foi angustiante perder dois anos consecutivos na Liga Europeia. Havia colegas meus que já tinham perdido muitas outras, mas para mim perder duas seguidas foi angustiante, ainda para mais como foi. Se no ano passado [com o Benfica] perdemos por fatores extra, que não podemos influenciar, este ano tínhamos o pássaro na mão e abrimos a mão para ele fugir.»

Individualmente foi a segunda final perdida de João Souto em 2017, já que fez parte do conjunto nacional que perdeu o Torneio das Nações:

«Em jeito de brincadeira no final da Liga Europeia comentei com o Jordi Bargalló: ‘Jordi, já é a segunda final que perco este ano.’ Mas acho que não deixa de ser uma coincidência, porque são plantéis diferentes e competições diferentes.»

O hoquista diz que depois de vencerem o Barcelona nas «meias», o plantel deu a conquista como garantida: «Se no ano passado eliminámos o outsider Forte dei Marmi, este ano eliminámos o todo poderoso Barcelona. Não era a casa deles, mas era organização deles. Ao ganhar ao Barcelona, ganhámos uma confiança excessiva e faltou-nos cabeça fria e humildade para pensar que nada estava ganho. Penso que não tivemos capacidade para assentar os pés na terra para encarar o jogo da forma certa.»

«Faltou encararmos o jogo da mesma forma que na meia-final, com a mesma competência, com a mesma humildade», destacou.

Há dois anos em Oliveira de Azeméis, João Souto destaca a humildade como o segredo para este sucesso do clube: «O grande segredo daquele clube é precisamente aquilo que faltou na final da Liga Europeia: a humildade. É gente muito trabalhadora e humilde que leva o clube muito longe.»

A formação foi toda feita no FC Porto, mas esse sonho de jogar pelos azuis e brancos desvaneceu:

«Quando jogava nas camadas jovens o meu sonho era chegar ao plantel sénior, porque era o meu clube, porque queria manter trajeto e até porque quando estive lá foram os anos do Decacampeonato. Toda a gente sonhava chegar lá. Hoje tudo é diferente, se calhar o que me fez melhor foi a saída do FC Porto, fui ganhar experiência para o Valongo e não me arrependo em nada do trajeto que tive. O que na altura era um sonho muito grande, hoje em dia não deixa de ser possibilidade, mas nao é um sonho tão grande.»

Atualmente a Oliveirense tem um plantel composto por vários internacionais portugueses, como João Souto, e vários espanhóis e argentinos de grande qualidade. Para ele, o nome do clube já é chamariz para os melhores.

«Como é óbvio vêm pelos contratos, mas há já algo mais que isso. Tal como FC Porto e Benfica, a Oliveirense já é um clube que alicia. Muitos jogadores sonham jogar aqui, não só pelo passado recente, mas pelo plantel competitivo que têm conseguido formar ano após ano. Quando eu mudo de equipa procuro sempre uma com um plantel capaz de vencer algo e quem vem para cá sente isso», explicou.

«Temos, sem dúvida, o melhor campeonato do mundo, o mais competitivo»

A presente época reflete a sua afirmação e, para além disso, o campeonato português é neste momento o melhor do mundo.

«Acho que a nível de campeonato temos, sem dúvida, o melhor campeonato do mundo, o mais competitivo. Reforça o que digo o facto de ter sido uma equipa portuguesa a vencer por três anos consecutivos a Taça CERS [segunda divisão europeia] e nos últimos dois anos estiveram duas equipas portuguesas na final-four da Liga Europeia, sendo que o ano passado foi uma equipa portuguesa a vencer [Benfica].»

Quanto a seleções, Portugal é campeão da Europa e perdeu já este ano o Torneio das Nações, na final com a Argentina. João Souto fazia parte do plantel de Luís Sénica que foi segundo em Montreux e agora espera estar no Mundial deste ano.

O número 4 da equipa que representou Portugal em Montreux

«A nível de seleções falta o título de campeão do mundo para ter essa hegemonia completa do hóquei mundial. Espero estar e tenho legitimidade para isso, tal como muitos outros, não só pelo que a minha equipa tem feito, mas pela minha prestação individual que tem sido sempre em evolução.»

Se Luís Sénica o chamar poderemos ter um médico sobre patins a tentar levar mais alto e mais longe o nome de Portugal, algo raro nos tempos que correm.

Como foi dito no início, esta é uma história de superação e de sucesso que está longe de ter fim. Aliás, ao jovem de 24 anos faltam muitos capítulos para escrever e pela frente podem estar muitos títulos para o futuro médico.

E, já agora, quem sabe se um dia terá de ir a uma consulta de ortopedia (obviamente não desejamos isso) e terá pela frente um internacional português e figura do hóquei. Quem sabe...