No «Teatro dos Sonhos» salta à vista o marcador electrónico. Aqui, o tempo corre ao contrário e agudiza o suspense. Bem ao estilo 24 ou, para os mais saudosistas, Missão Impossível. Os jogadores percebem a relevância da missão que têm entre mãos. O recuar dos minutos concentra-os, torna-os snipers que não podem falhar.

Quando o placard anuncia 41 minutos até ao intervalo, já Lisandro Lopez obrigara Van der Sar a uma grande defesa e Cristian Rodríguez silenciara num espasmo triunfante o ardor de Old Trafford. Num lampejo mordaz, o uruguaio despedaçava em ridículos tremores a tão propalada arrogância britânica. Durante os minutos que se seguiram, o F.C. Porto daria uma lição de muito e bom futebol na própria casa do Campeão da Europa e do Mundo.

Não fosse um erro grave de Bruno Alves, desconcentrado num atraso para Helton, os dragões teriam chegado muito justamente a vencer ao intervalo. Wayne Rooney, felino, aproveitou o lapso do defesa e empatou uma contenda controlada exemplarmente pela equipa de Jesualdo Ferreira.

Sem invenções e com os melhores

Chegara a hora de o F.C. Porto assumir a sua grandeza europeia. Jesualdo Ferreira percebeu-o, os seus jogadores também. Esta noite não houve espaço a adaptações desequilibrantes de última hora na estrutura azul e branca. Jogaram os melhores, como deve acontecer sempre. Como Jesualdo prometera, a equipa manteve a identidade, os processos e a ambição de um qualquer outro jogo menos mediático.

Fez um golo a abrir, criou mais três ou quatro oportunidades até ao intervalo e depois bloqueou com uma personalidade notável as armas de destruição massiva que o United tem ao seu dispor no ataque.

Impulsionado por um público fantástico, o ManUtd incomodou Helton na segunda parte, naturalmente, mas sempre com mais coração e por obrigação do que com serenidade e qualidade. Depois desta noite, só por mero autismo crónico os red devils poderão olhar com desleixo para o F.C. Porto. Não há mais desculpas possíveis.

A injustiça conferida pelo golo de Tevez à partida foi quase de pronto anulada pelo empate de Mariano Gonzalez. Isto tudo nos derradeiros minutos. O empate subsistiu.

Cristiano quê?

E o prémio da decepção da noite vai para... Cristiano Ronaldo. O melhor jogador do mundo de 2008 foi mordido pela abominável displicência que pairou sobre Old Trafford nos últimos dois dias. Só pode. Apático, distante, de braços caídos, apareceu bem em dois ou três lances e foi completamente envolvido pelo jogo tremendo de Fernando.

Esta poderia ser muito bem a história da «Formiga e da Cigarra». O jovem médio do F.C. Porto colheu, colheu e alimentou todos os colegas de equipa. A Ronaldo só terá faltado uma espreguiçadeira e uns óculos de sol. Não é assim que se conquistam plateias e se fidelizam fãs.