O 10 sempre foi mais do que um número, um dorsal, mais até do que uma posição em campo. O 10 era o craque, o líder incontornável do ataque. Criador e, muitas vezes, também finalizador. No passado, muitas vezes o 10 era o 10, outras camuflava-se noutros números. «Os 10 e os deuses» recupera semanalmente a história destes grandes jogadores do futebol mundial. Porque não queremos que desapareçam de vez. 

Um 10 que tinha grande estima pelo 9. Uruguaio, cresceu e envelhece argentino. Ídolo em Montevideu, Buenos Aires, Paris e Marselha. Ídolo de Zidane, que chamou Enzo a um filho, desde os tempos do Vélodrome. Ídolo da família Pérez, que batizou de Enzo aquele que viria a ser figura do Benfica e que, por sua vez, também faria o filho herdar o nome.

Edição da revista argentina dedicada ao «Principe».

Príncipe, de alcunha. Elegante. Distinto. Cabeça levantada, a bola colada no pé direito e um drible entusiasmante. Com golos a sair-lhe das duas botas, da cabeça. Belos golos, fantásticos, pincelados de classe. Príncipe-artista, mas triste, numa Celeste Olímpica decadente, longe do fulgor do passado e distante do renascimento no futuro. Dois Mundiais sem brilho, a sair nos oitavos de 86 e 90, perante Argentina e Itália. Pelo Uruguai ainda festeja, mas acham pouco: três vezes levanta a Copa América. Muda-se de vez para o país vizinho, onde sente mais carinho.

É no Monumental, ali perto da margem do Rio de la Plata, que o idolatram. As cores do River Plate e la banda sangre tornam-se mais berrantes. Mais de cem golos em mais de duzentos golos, divididos por duas eras. Com a chiclete na boca, a mastigar adversários até à baliza dos rivais.

O Matra de Artur Jorge e Jorge Plácido, mas também de Francescoli, Ginola, Bossis, Olmeta, Fernandez e Silooy.

Em Paris, salva, com os seus golos, o Matra Racing, recém-promovido, novo-rico e candidato ao título, da descida de divisão. Um ano depois de, com o treinador campeão europeu Artur Jorge, a equipa que recrutara Luis Fernández, Bossis, Littbarski, Jorge Plácido e Ginola e chegara a lutar pelo pódio, ter terminado em sétimo. Consagra-se melhor estrangeiro, junta o prémio aos conquistados na América do Sul. Ajudará também o Cagliari mais tarde, trazendo as eliminatórias da Taça UEFA à Sardenha italiana.

Em Marselha, entre os dois destinos, é campeão. É o segundo título da era-Tapie. Deixa saudades. Para Zidane, «é um Deus». Para os outros, que o viram jogar, será certamente um dos melhores 10 de todos os tempos. Mesmo que o 9 o tenha acompanhado mais vezes.

Melhores momentos:

Os dez melhores golos:

A despedida do River:

Um golo de bicicleta aos 50 anos (no jogo de homenagem a Ariel Ortega:

Enzo Francescoli Uriarte

Data de nascimento: 12 de novembro de 1961

1980-82, Montevideo Wanderers, 74 jogos, 20 golos

1983-86, River Plate, 113 jogos, 68 golos

1986-89, Matra Racing, 89 jogos, 32 golos

1989-90, Marselha, 28 jogos, 11 golos

1990-93, Cagliari, 98 jogos, 17 golos

1993-94, Torino, 24 jogos, 3 golos

1994-97, River Plate, 84 jogos, 47 golos

Internacional A: 73 jogos, 17 golos

Palmarés:

Seis vezes campeão argentino (1985/86, Apertura 1994, 1996 e 1997, e Clausura 1997) pelo River Plate

Uma Taça Libertadores da América (1996) e uma Supertaça sul-americana (1997) pelo River Plate

Uma vez campeão francês (1989/90)

Três Copas América (1983, 1987 e 1995)

Três vezes melhor marcador do campeonato argentino (Metropolitano 1984, 1985/86 e Apertura 1994)

Uma vez melhor marcador da Supertaça sul-americana (1995)

Duas vezes melhor futebolista sul-americano do ano (1984 e 1995)

Duas vezes melhor futebolista do ano na Argentina (1985 e 1995)

Uma vez melhor futebolista estrangeiro do ano em França (1987)

Eleito 12º melhor jogador do século XX pela France Football (1999)

Enzo, ídolo do Monumental, em Buenos Aires.