O 10 sempre foi mais do que um número, um dorsal, mais até do que uma posição em campo. O 10 era o craque, o líder incontornável do ataque. Criador e, muitas vezes, também finalizador. No passado, muitas vezes o 10 era o 10, outras camuflava-se noutros números. «Os 10 e os deuses» recupera semanalmente a história destes grandes jogadores do futebol mundial. Porque não queremos que desapareçam de vez. 

As faltas? Vão todas para o arrastar da perna esquerda de Rivaldo, no intervalos dos vóleis e das bicicletas, dos tiros na passada. Falso-lento que faz da velocidade uma das armas, antes do remate cirúrgico, sem hipótese alguma de que o travem. Em cada que procura o ângulo, em curva ou explosão, naquele jeito desengonçado que atravessa de lés a lés toda a sua vida.

Santa Cruz, Mogi Mirim, Corinthians e Palmeiras. Deportivo, Barcelona e Milan. Cruzeiro, Olympiakos, AEK Atenas. Bunyodkor, São Paulo, Kabuscorp e São Caetano. Mogi Mirim outra vez, dividido entre seu-Rivaldo-presidente e Rivaldo-craque. Carreira de saltimbanco, espalhada por quatro continentes, construída em cima de um pé esquerdo do melhor que já se viu. Talento incrível, Dez clássico.

Terceiro filho de Romildo e Marlúcia Salomão Borba, operadora de caixa de supermercado. Uma união que não resiste à pobreza e à erosão do tempo. O pai mantém-se ligado aos dois miúdos que jogam à bola, antes de se tornar vítima de atropelamento mortal no centro movimentado do Recife.

A bola pára-lhe no peito como se não tivesse peso. O remate sai-lhe disparado com uma violência parva, capaz de furar as redes. Alterna arte com potência. Gosta de fazer chapéus aos guarda-redes, de acrobacias que poucos acreditavam que fosse um dia capaz de fazer. Já não é mais o moleque fraco, raquítico, sem força, cansado, desdentado e tímido, marcado pela pobreza quase extrema, que não conseguia convencer. Primeiro, no Campo do Eucalipto. Depois, no clube do coração, o Santa Cruz.

Totalmente diferente do irmão Rinaldo, o craque da família, que teve a candidatura a profissional terminada por uma lesão grave no joelho, mas que sempre mostrou tudo o que lhe faltava: confiança, força e personalidade vincada.

Rivaldo não perdia nenhuma oportunidade para tentar o golo acrobático.

A decisão é dura, mas inevitável. As exibições mostram um jovem sem estrutura física para vingar no Recife. É trocado, com Leto e Válber, pelo lateral Malhado, o avançado Pessanha e o central Paulo Silva, com quem vai jogar para o Mogim Mirim, onde há uma cultura de aposta na formação. Forma-se o Carrossel Caipira, no versátil 3x5x2 de Osvaldo Vadão Alvarez, inspirado no mecânico futebol total holandês.

«Foi a pior negociação da história do Santa Cruz.» (João Caxeiro, antigo diretor patrimonial do Santa Cruz)

«Tínhamos um diamante bruto, mas não sabíamos. Se soubéssemos que Rivaldo era o craque que é, não teríamos feito uma imbecilidade como aquela!» (Jorge Chacrinha, antigo dirigente do clube).

«Hoje teria direito a um atestado de burrice, mas são coisas que acontecem na vida do jogador.» (Roberto Madeira, o «Betinho», que já o tinha dispensado dos juniores)

O Carrossel Caipira garante o sétimo lugar no Campeonato Paulista, com algumas vitórias sobre os históricos pelo meio.

Rivaldo não conseguiu vingar em San Siro.

Em 1993, um golo do meio-campo ajuda-o a despertar o interesse do Palmeiras, e é emprestado ao Corinthians. Válber, Leto e Admílson seguem para o Timão. Onze golos no Campeonato Brasileiro, em 1993, colocam-no entre os melhores da competição, mas más exibições no Estadual fazem com que o Corinthians desista da contratação em definitivo. Aproveita o Palmeiras, fortalecido financeiramente com o dinheiro da Parmalat. Mais 14 golos e é artífice do campeonato conquistado, precisamente frente à ex-equipa.

Na Galiza, o Deportivo monta uma nova grande equipa, e chamam-no para substituir Bebeto. 21 golos seus ajudam o Depor a chegar ao terceiro lugar no campeonato e a transferi-lo, no final da temporada, para o Barcelona, onde há uma vaga com a saída de Ronaldo Fenômeno. Duas vezes campeão, vencedor da Taça do Rei e da Supertaça Europeia, é no Camp Nou que vive os melhores momentos. Com golos e jogadas espectaculares, acaba com todas as dúvidas: é ele o melhor do mundo.

Aquele dia 17 de junho de 2001, última jornada do campeonato, prova-o. Frank de Boer levanta a bola, Rivaldo está na entrada da área. Último minuto de jogo. O salto para matar a bola no peito, levantando-a para o pontapé de bicicleta fatal, que trai Canizares e completa um hat-trick fantástico – incluiu ainda um livre direto e um remate fortíssimo de fora da área – e um lugar na Liga dos Campeões. Ao Valencia bastava um empate, mas cai mesmo fora dos apurados. 3-2.

Bronze nos Jogos Olímpicos 1994, depois de ter errado um passe que dá o golo decisivo à Nigéria nas meias-finais. Réu, está um ano longe do Escrete, mas volta para a Taça das Condeferações de 1997. Está na final perdida do Mundial no ano seguinte, e ganha a Copa América de 1999, sendo eleito o melhor da competição. Em 2002, a consagração como campeão do mundo como uma grandes figuras da equipa de Scolari.

Ao Barça chega Van Gaal e ele despede-se da Catalunha. Assina por três épocas pelo Milan, e junta uma Taça de Itália e uma Liga de Campeões ao rico palmarés rossoneri. Mas a vida não lhe corre particularmente bem. Está a maior tempo no banco, na sombra do português Rui Costa e, depois, na do compatriota Kaká.

Rivaldo apresentado no Cruzeiro, na presença do filho Rivaldinho.

Volta ao Brasil em 2004, para o Cruzeiro, mas joga apenas 11 jogos, marcando dois golos, sendo solidário com o treinador despedido: Vanderlei Luxemburgo. Vai para a Grécia e para o Olympiakos, onde conquista três campenatos e duas taças, e prova que a qualidade ainda permanece intacta. Apesar dos golos é esquecido na seleção brasileira.

Salários em atraso levam-no para o rival AEK, que perde o título na secretaria e por um caso de doping para o… Olympiakos. O Bunyodkor abre-lhe as portas no Uzbequistão, e ele arrecada mais troféus e muito dinheiro.

Em 2010, o Mogi Mirim. Depois, o São Paulo. Agora, Angola e o Kabuscorp, com casa assaltada, lesões e o banco de suplentes. O São Caetano, em 2013, aos 40 anos. Os problemas no joelho e a descida à Série C. O regresso, para acabar, novamente no Mogi Mirim, contratado por si próprio, em imagem que corre mundo. Rivaldinho, o filho, tem a oportunidade de jogar com o pai.

Desengonçado, aparentemente lento, mas de uma classe ímpar. Rivaldo, senhores!

Rivaldo Vítor Borba Ferreira

19 de abril de 1972

1990-1992, Santa Cruz

1992-1994, Mogi Mirim

1993-1994, Corinthians

1994-1996, Palmeiras

1996-1997, Deportivo

1997-2002, Barcelona

2002-2004, Milan

2004, Cruzeiro

2004-2007, Olympiakos

2007-2008, AEK

2008-2010, Bunyodkor

2011, São Paulo

2012, Kabuscorp

2013, São Caetano

2014-2015, Mogi Mirim

1 Campeonato do Mundo (Brasil, 2002)

1 Copa América (Brasil, 1999)

1 Taça das Confederações (Brasil, 1997)

1 Medalha de Bronze nos Jogos Olímpicos (Brasil, 1996)

1 Liga dos Campeões (Milan, 2003)

2 Supertaças Europeias (Barcelona, 1997; Milan, 2003)

2 Campeonatos Espanhóis (Barcelona, 1997-98 e 1998-99)

3 Campeonatos Gregos (Olympiakos, 2005, 2006 e 2007)

2 Campeonatos Brasileiros (Palmeiras, 1994 e 1996)

2 Campeonatos Uzbeques (Bunyodkor, 2008 e 2009)

1 Taça Uzbeque (Bunyodkor, 2008)

1 Taça do Rei (Barcelona, 1998)

1 Taça de Itália (Milan, 2003)

2 Taças da Grécia (Olympiakos, 2005 e 2006)

1 Campeonato Pernambucano (Santa Cruz, 1990)

1 Campeonato Mineiro (Cruzeiro, 2004)

Outros títulos individuais:

Melhor jogador estrangeiro do Campeonato Espanhol (1997-98)

Melhor jogador da Copa América (1999)

Equipa-ideal do Mundial (1998 e 2002)

Melhor jogador do mundo para a «World Soccer» (1999)

Bola de Ouro da «France Football» (1999)

Melhor jogador do ano FIFA (1999)

Terceiro melhor jogador do ano FIFA (2000)

Primeira série:

Nº 1: Enzo Francescoli

Nº 2: Dejan Savicevic

Nº 3: Michael Laudrup

Nº 4: Juan Román Riquelme

Nº 5: Zico

Nº 6: Roberto Baggio

Nº 7: Zinedine Zidane

Nº 8: Rui Costa

Nº 9: Gheorghe Hagi

Nº 10: Diego Maradona

Segunda série:

Nº 11: Ronaldinho Gaúcho

Nº 12: Dennis Bergkamp 

Nº 13: Rivaldo