No Estádio da Luz, a manhã trouxe consigo um frio incómodo, como que a dar as boas-vindas ao inverno que se aproxima.

É véspera de Clássico, mas no café o futebol está presente apenas nas páginas dos jornais, folheadas sem pressa, enquanto se aquece o corpo e a mente.

Lá fora, a estátua de Eusébio serve de passadeira às várias pessoas que se passeiam por lá naquela altura do dia.

E, finalmente, o encontro.

Antes, ainda, dois dedos de conversa.

«Lembro-me de uma gala há uns tempos em que disse que ser benfiquista não é uma escolha, é um sentimento. E é verdade, eu sinto isso. Está cá dentro e ponto final. Vem do avô, da avó, do pai, de não sei de onde»

Simões continua a ser muito popular junto dos adeptos (foto: Maisfutebol)

«Eu era gaiato», responde um do grupo, «brincava junto às portas e, já calmeirão, pedia às pessoas que me levassem ao estádio com elas»

«É, exatamente», retorquiu, «olhem, foi bom este momento de conforto benfiquista, sabe bem, aquece um pouco. Um bom dia para vós, então».

Qual conversa de café. O Estádio da Luz é quase como uma segunda casa para António Simões. Os bons dias aqui, outros acolá, de trato gentil e educado. Um gentleman com o Benfica na alma e que não se importa de quebrar estereótipos, para enaltecer valores, vincar opiniões.

Para antever o Clássico entre dragões e águias, o Maisfutebol recuou até à segunda metade do século XX para revisitar alguns dos melhores momentos desse eterno duelo, aos olhos de quem o disputou por 29 ocasiões, nos 16 anos ao serviço do Benfica.

«Está fresquinho hoje, é melhor irmos mais aqui para o sol», diz, enquanto se afasta mais um pouco da estátua do «irmão negro». Nunca antes se sentira na sombra do Pantera Negra, até aquela ocasião incómoda, passe a metáfora.

Maisfutebol - Chegou ao Benfica em 1959/60, estreou-se com 18 anos e venceu logo a Taça dos Campeões Europeus, a segunda do clube. É ainda o mais jovem de sempre a consegui-lo na Luz. Se hoje fosse capa de jornal, provavelmente chamar-lhe-iam Senhor 40 contos, não acha?

António Simões – (risos) Pois as coisas mudaram, na altura era muito dinheiro. Houve muito risco do Benfica em contratar-me, pelo investimento, mas tinham uma política de captação de jovens talentos muito agressiva, no bom sentido. Estive oito meses no Sporting, mas não podia jogar, por estar vinculado ao Almada. Fui para o Benfica e, ano e meio depois, estava na equipa principal. Alguns dos maiores nomes não ganhavam isso por ano. Se tivesse corrido mal, se calhar arruinava as finanças do clube (risos). Correu bem e hoje acho que valeu a pena.

MF - Disputou 29 Clássicos, em grande parte deles (16) saiu vitorioso. E logo na época de estreia apanha dois Clássicos em menos de um mês, para Liga e Taça. Se no primeiro não marcou, no segundo fez um «bis». Aprendeu a manha na primeira, foi?

AS – (risos) É engraçado que só há pouco tempo me apercebi que fiz vários golos ao FC Porto [sete]. Não sei porquê, eu era mais pensador e criativo, pelo que acho que é um número interessante. E até alguns de cabeça. Que boa recordação agora que se fala de Clássico. Oxalá sirva de inspiração para os mais pequenos marcarem, como o Cervi ou o Salvio.

MF – Tinha apenas 18 anos, ainda se recorda desse jogo?

AS - Claro. O FC Porto tinha um grande lateral, o Virgílio [Mendes], o Leão de Génova. Estava numa fase avançada da carreira e, na altura, o saudoso Nuno Ferrari pediu para que tirássemos uma fotografia que espelhasse juventude e veterania. O jogo tinha corrido muito mal e o Virgílio não queria tirar, mas acabou por aceder porque eu lhe pedi muito: “oh senhor Virgílio, por favor”. Nem era por nada, era mesmo para eu ficar com ela. Foi tirada no Estádio da Luz e ainda hoje a tenho, bem guardada em casa. Era miúdo e o gesto dele foi muito bonito.

MF - Sabe-se que é sempre um ambiente intenso agora. O que eu lhe pergunto é como era o ambiente desses jogos naquela altura, sobretudo no Porto?

AS - Os jogos não eram tão hostis como são agora. Este ambiente já tem anos demais, não é recente esta cultura de olhar para o adversário como o inimigo, numa cultura desnecessária. Felizmente fiz parte de uma época em que o futebol era uma festa, mais ainda nesses jogos. Não podemos deixar morrer esta paixão, mas não pode ser descontrolada, porque traz problemas. Tem de haver respeito pelo jogo e os seus intervenientes, mas hoje só se olha para o resultado e às vezes até se despreza o jogo.

O extremo deixou a Luz ao fim 16 anos com a camisola encarnada

MF – Parece preocupado, mas falemos do futebol que aprecia. O que sente um jogador antes e durante estes Clássicos?

AS - É daqueles jogos que dá jeito os jogadores dizerem que não pensam, mas na realidade pensam. Até o sono demora mais tempo a chegar (risos). Eram e são jogos muito estimulantes para os jogadores. Quando tudo começa é outra coisa, porque a concentração do jogo afasta-nos algum do stress acumulado antes. Ficava sempre mais nervoso antes do que durante o jogo. Se tive bons jogos contra o FC Porto, foi porque sempre mantive o controlo emocional.

MF - Desses 29 duelos, qual o marcou mais?

AS - Um que aconteceu penso que em 1972 [23 de janeiro]. O Benfica ganhou na Luz por 1-0 e eu marquei o golo de cabeça. O Eusébio não jogou nesse jogo e, por causa disso, chutei à baliza mais vezes do que nos outros Clássicos. Senti uma responsabilidade acrescida de colmatar a ausência dele. Sendo eu um pensador, não estava lá quem eu servia, então senti necessidade de fazer mais alguma coisa, algo que ele tinha. Por sorte fiz um golo de cabeça.

MF - Pela negativa, houve algum?

AS - Houve, claro, por causa da tropa.

MF - Da tropa? Então?

AS - O Benfica perdeu 4-0 nas Antas [31 de janeiro de 1971], com quatro golos do Lemos. Mas eu não joguei porque me tramaram no serviço militar. Na véspera, puseram-me numa marcha. Claro que, no dia seguinte, não tive condições para jogar. Ainda tentei mas estava completamente acabado. Bem, só digo isto, assistir a uma derrota por 4-0 não recomendo a ninguém. Foi terrível!

MF - E que momento o marcou mais?

AS - Para mim, o «bis» do César Brito [0-2, 28 de abril de 1991]. Um jogador entrar e marcar dois golos, num ambiente terrível, contra uma grande equipa. Chega lá e faz dois golos, após dois lances muito interessantes. São momentos muito difíceis de repetir. Pelo ambiente hostil e pelo que estava preparado para o FC Porto ser campeão, o César Brito fazer aquilo, penso que é algo que ficou marcado para sempre na memória dos adeptos.

MF - Ficou alguma história engraçada desses encontros?

AS - Olhe, havia um central do FC Porto, que era o Almeida. Na altura, o Benfica dominava atenções pelo sucesso que tinha. Então, um dia, esse rapaz Almeida pediu-me a mim e ao Eusébio que fossemos a uma festa lá na terra dele, para uma homenagem. E nós fomos lá. Já antes disso, tinha pedido a minha camisola, por tudo e mais alguma coisa. São pequenos gestos que hoje parecem quase impossíveis, mas credibiliza uma grande paixão que é o futebol. Se os jogadores seguissem no campo o que dizem fora dele, haveria mais respeito.

MF - É giro que diga isso, porque, em entrevista ao Maisfutebol, Américo, guarda-redes que sofreu metade dos golos que marcou ao FC Porto, já agora, falou de si como um amigo, mas não escondeu algumas picardias. Quer falar disso?

AS - Fazia parte de um estado de humor, numa sociedade em que nem sempre havia vontade de rir, porque não havia liberdade em muita coisa. Mas nós, jogadores, éramos capazes de conviver sem haver conflito. Lembro-me do Américo, primeiro como adversário, claro, mas depois como um companheiro. Sabíamos sempre que havia um limite para tudo. Nunca fui bom em Religião e Moral (risos), mas era assim. Estou para me encontrar com ele, por acaso, sei que ele está bem e estou desejoso de o ver. É isto. Estes Clássicos fazem parte de uma história muito bonita que o futebol nos proporcionou. O grande conforto é fora do campo.

MF - Houve algum jogador…

AS – (interrompeu) É engraçado, porque marquei uns quantos golos ao Américo [4], incluindo um nas Antas, de cabeça. Ele ainda hoje se deve perguntar como foi que um baixote lhe marcou golo de cabeça (risos). Deve pensar “epá, quem me devia ter matado, entre aspas, era o Eusébio, não aquele pequenino (risos)”.

MF – Houve algum jogador que o tenha impressionado mais nesses duelos em particular?

AS - Com uma grande amizade por trás, claro, mas tenho de dizer o Eusébio. Sabe, acho que nunca disse isto publicamente, mas com esta idade já ninguém levará a mal o autoelogio (risos). Um dia ele virou-se para mim e disse-me, naquele seu jeito: “epá, és o melhor jogador com quem joguei”. Foi algo que ficou para sempre marcado em mim. A nossa cumplicidade fora e dentro do campo era enorme. Nos dias maus, em que não estava inspirado, eu até percebia que ele não queria a bola. Admirava outros, mas ao Eusébio conhecia-o eu, desculpem lá! Fazia coisas extraordinárias, nesses jogos também, muitos golos.

Foi Simões a propor uma entrevista junto da estátua de Eusébio, o «irmão negro» (foto: Maisfutebol)

MF - E duelos individuais?

AS – Com o Gualter, já falecido também. Antes de um jogo na Luz, alguns colegas espicaçaram-no: “eii, amanhã ‘tás’ tramado, não tens hipótese, nem queria estar no teu lugar”. O jogo não lhe correu bem, de facto. Eu tinha receio que ele se enervasse e tivesse alguma entrada mais dura, daquelas por trás, que era as que mais temia. Então, fui sempre falando com ele durante o jogo: “oh Gualter tem calma que da próxima vez tiras-me a bola”. Bem, ao intervalo, os colegas continuaram: “tens a certeza de que não queres ir embora, eii que baile ‘tás’ a levar” (risos). Esse rapaz um dia encontrou-me no aeroporto e recordámos a história. Então, ele disse-me: “oh Simões, ajudaste-me imenso nesse jogo, porque levei um ‘ganda’ baile, mas sempre me deste apoio e isso foi um estímulo enorme, eras meu adversário mas tentaste ajudar”. Fiquei surpreendido com aquilo e nunca mais me esqueci. Isto só foi possível porque nunca nos olhámos como inimigos, mas sim como adversários e companheiros de profissão.

MF – Dando um salto gigante no tempo. Vai ver este Clássico? Onde?

AS - Olhe, gosto de ver os jogos sozinho, mas desta vez vou ver com amigos. Vamos divertir-nos. Desejo que o Benfica ganhe, mas nunca com o olhar distorcido. Com o coração a bater, mas com bom senso no cérebro. É assim que eu gosto do jogo e de o ver. Fui capitão durante muito tempo e nunca fui expulso, nunca faltei ao respeito a ninguém, sobretudo ao futebol, que me deu a estabilidade na minha vida.

MF – Falou em talento, mas a confiança também tem de ser tida em conta nestes jogos. Os pontos ganhos pelo Benfica ao FC Porto na jornada passada podem ter influência?

AS - Pareceu-me que, a determinada altura, o FC Porto fez contas precipitadas. Pensou que iria receber o Benfica com cinco pontos de diferença, que iria aumentar para oito no confronto. Porém, as coisas mudaram. Passou-se essa hipótese dos oito e agora até podem ficar iguais. Isso tem peso no psicológico dos jogadores. Não digo antes, mas durante o jogo, e eles têm de saber lidar com isso.

MF - Em qual(ais) jogador(es) deposita mais expectativas?

AS - O FC Porto tem dois jogadores muito interessantes, mas divididos em duas partes. Gosto muito do Brahimi, que tem salpicos de génio e é muito difícil de marcar, mas não gosto tanto da sua personalidade. Depois há o Marcano, de quem gosto imenso, das duas formas. São para mim os que mais gosto de ver no FC Porto.

MF - Não mencionou jogadores do Benfica, foi de propósito?

AS – (Risos) No Benfica o Jonas está acima de todos. É melhor jogador, pensador, executante. Mas tem também uma coisa que gosto muito, que é o seu comportamento. Tem independência intelectual. O futebol e a sociedade em geral precisam de pessoas assim. Luisão também é importante. Fui eu que dei a indicação para ele vir. Nunca pensei que ficasse tanto tempo, mas hoje é uma grande referência. Uns mais exuberantes, outros menos, parece-me que existe unidade e espírito de missão no Benfica, há um comportamento geral que aprecio.

MF - Esse comportamento é comum a ambas as equipas. Tem muito a ver com a liderança dos treinadores, não acha?

AS - Sim, mas através de perfis diferentes. Duas pessoas bem formadas. Uma de uma forma mais intensa, outra menos. Dois treinadores e duas pessoas que, embora diferentes, são compatíveis. Embora utilizando uma terminologia diferente, são compatíveis na forma de liderar. Não é mandar, é liderar. São duas personalidades que aprecio.

MF – Prognósticos, ou só no final do jogo?

AS – Que os jogadores se libertem de todas estas pressões psicológicas e protagonizem um bom espetáculo. Mas também o mundo não acaba se, porventura, o Benfica não ganhar. Nestes jogos normalmente há poucos golos. Esperamos sempre um rasgo de genialidade dos jogadores e também não ficar sempre sentados (risos). Queremos sempre comemorar um golo. Que seja um bom jogo.

artigo atualizado: hora original 23:53, 30-11-2017