Esqueçam-se as amarguras da vida, os problemas em casa, no trabalhou ou com o Governo. As lamentações de um país pequeno. Somos grandes e não temos de o esconder. Pequenos na dimensão, mas inultrapassáveis no feito e na atitude. Foi de escudo ao peito e com apreciável atenção a todos os pormenores, que a equipa partiu para um jogo que fica gravado a letras de ouro no álbum de recordações do futebol. O exemplo está dado, agora resta-nos continuar a acreditar no talento nacional e esperar festejar mais um grande título nos primeiros dias de Julho.

Mas esta vitória é, em primeiro lugar, de todos os portistas. Começando por José Mourinho, o elemento mais importante e toda uma cadeia de sucesso, que passa obviamente pelo talento de certos jogadores, como Carlos Alberto, Deco e Alenitchev, prodigiosos criativos que jamais sairão da galeria de ilustres do clube, pelo facto de terem sido eles a marcar os três golos da vitória. O segredo está aí, e na coesão de um grupo forte, extremamente bem preparado, não só tacticamente, mas também mental e fisicamente. Tudo bateu certo e teria mesmo de bater, pois seria difícil enganar um destino traçado há cerca de dois anos e meio, quando pela porta do departamento de futebol do Estádio das Antas caminhou um senhor chamado Mourinho. O ciclo terá terminado, é certo, mas haverá melhor maneira de dizer adeus senão com a Taça dos Campeões Europeus nas mãos?

«Feijão», o herói

A história começou a desenhar-se com sinais de nervosismo. Morientes isolou-se logo aos dois minutos, mas Vítor Baía provou ser brilhante, saindo da baliza sem qualquer temor, chutando a bola para longe. O espírito estava lá, mas só foi totalmente conquistado quando Carlos Alberto fez magia, com a finta que já o caracteriza. Ibarra ficou a olhar e tinha muitos motivos para isso. O Porto começava a acreditar e nunca mais iria parar. A equipa que não precisa de milhões para convencer o mundo que o futebol é o jogo mais belo, partiu em direcção a uma magnífica exibição, confirmando todas as credenciais de favorita na final.

A superioridade foi até ao mínimo detalhe. Os tais que Deschamps falava. É certo que Morientes ganhou as primeiras bolas de cabeça, Paulo Ferreira falhou os primeiros passes e Pedro Mendes direccionou mal algumas bolas; mas foram apenas sinais enganadores do que viria a acontecer realmente após os primeiros quinze minutos. Superioridade total.

O máximo que os monegascos conseguiram fazer foi assustar nesses primeiros minutos e em alguns cruzamentos ténues. A partir da meia-hora de jogo o Porto começou a criar perigo, primeiro com uma grande jogada entre Deco e Derlei, só anulada por Givé; três minutos depois com Paulo Ferreira a combinar com Pedro Mendes e quase a encontrar Deco; finalmente no magnífico cruzamento de Paulo Ferreira para a inteligência de Carlos Alberto, que colocou a bola onde Roma nunca conseguiria ir. «Feijão», como também é conhecido o menino de 19 anos, estava transformado num herói.

O campeão europeu passou a gerir o jogo à sua maneira, trocando a bola, chamando o Mónaco para uma ratoeira que Deschamps não conseguiu evitar. A segunda parte apenas serviu para confirmar a imponência do triunfo, com Alenitchev como chave para o sucesso, tal como em Sevilha. Com Deco ao lado de Derlei, o golo do «mágico» haveria de chegar, após um grande contra-ataque de Dimitri. E o próprio russo encontrou razões para festejar, batendo Roma com enorme classe. À sua imagem e o retrato da melhor equipa europeia. Agora, que venha o título mundial, parafraseando as palavras de Artur Jorge logo após Viena.