Dennis Bergkamp é figura incontornável na abordagem à aviofobia no mundo do futebol. Com o filme Up in the Air (ndr. Nas Nuvens), George Clooney garantiu meia dúzia de nomeações para os Oscares, retratando a vida de um profissional que passa 300 dias por ano a voar.

Uma realidade impensável para Guerrero, Bergkamp ou mesmo para o português Marco Cadete. Os relatos multiplicam-se entre figuras menos conhecidas no futebol internacional. Por cá, alguns sofrem em silêncio. Cadete, lateral de 31 anos, conta toda a história ao Maisfutebol.

«Perdi muitos quilos até à Madeira»

«Estou no Feirense e já fomos jogar aos Açores, frente ao Santa Clara. Eu não fui porque está estipulado no meu contrato. Faço questão de explicar logo aos clubes que não podem contar comigo para andar de avião. Não adianta mesmo», começa por dizer.

Marco Cadete reconheceu a sua fobia em 2002/03, quando representava o Olivais e Moscavide. Pela primeira e última vez, entrou num avião: «Íamos jogar à Madeira, dizem que a viagem foi tranquila, mas basta-me explicar que perdi muito quilos até chegar lá e nem joguei, tal o meu estado. Na semana seguinte, rescindi com o clube. Havia mais quatro equipas das ilhas naquela divisão!»

O lateral chegou ao escalão principal, através do Leixões, mas não mudou de ideias. Seguiram-se Gondomar e Feirense. Sem arrependimento. «Talvez isso me prejudique, mas não há nada a fazer. Andei no psicólogo, mas aquilo era conversa fiada. Já fico nervoso se estou numa sala sem janelas e a porta se fecha, quando mais num avião! As férias são sempre de carro, já fui a França e Itália assim. Só voaria se a vida de alguém próximo dependesse disso», garante Marco Cadete.

Bergkamp e os outros

Dennis Bergkamp, conhecido como «homem de gelo», só quebrava quando lhe falavam em voar. Segundo os relatos, o soberbo avançado ficou petrificado quando um jornalista lançou o boato de uma bomba a bordo da aeronave onde seguiam. Era brincadeira, mas colou. Para sempre, no caso do «holandês não-voador».

Raúl Gutiérrez, médio do Blooming e da selecção do México, desistiu da carreira aos 32 anos, lamentando ser incapaz de contornar a aviofobia. Nessa altura, o jogador já tinha cedido perante o receio. Ganhava metade do salário e só entrava em campo nos jogos em casa. Fora, nunca!

Nem o Rei Eusébio escapa ao temor. Nomes como Muhammad Ali ou B.A. Baracus provam que a aviofobia toca a todos.

Uns combatem a fobia com comprimidos, outros com álcool, outros com psicologia. Uma imensa minoria fica sempre em terra.

«Guerrero, vem de barco!»

Entretanto, enquanto o leitor assimila estas linhas, Paolo Guerrero continua a combater o seu medo, no Perú. O tio José González, ex-jogador, morreu num acidente aéreo.

Recentemente, quando o Hamburgo regressava de Paris, o avião onde a equipa seguia teve de aterrar de emergência. O avançado de 26 anos não mais recuperou. Ainda viajou para o seu país, mas não consegue regressar.

O jogador recupera de lesão e continuará no Perú até Março, com autorização do clube. Na última tentativa, Guerrero ainda levantou voo, apenas para exigir o regresso do aparelho a terra firme, 40 minutos depois. «Tinha diarreia severa e desidratação, efeitos da gastroenterite», diz o jogador, procurando contornar o trauma.

Por via das dúvidas, aqui fica o conselho de Marco Cadete: «Guerrero, vem de barco!»