Aquele jogo mudou o futebol. Chamaram-lhe o jogo do século. Já chamaram o mesmo a muitos outros, pelos anos fora, mas este continua lá no topo. A Inglaterra apenas em 1950 se tinha aventurado no seu primeiro Mundial e não tinha corrido bem, mas mantinha a reserva moral de pátria e potência do futebol. Nunca tinha perdido em casa para uma equipa de fora das ilhas britânicas. Recebia a Hungria que era a equipa sensação do futebol europeu. Campeã olímpica em 1952, não perdia há 25 jogos. A curiosidade em torno dos húngaros era grande, estavam mais de 100 jornalistas estrangeiros em Wembley, mas ninguém imaginava o que veria.

O que a Hungria mostrou à Inglaterra, e ao mundo, foi como se podia jogar outra coisa, muito bem. Perante uma equipa presa ao velho WM, uma tática de 3x2x2x3, ou 3x2x5, a Hungria apresentou uma aproximação ao 4x2x4 que levaria o Brasil ao título mundial em 1958. Mobilidade, solidariedade, boa técnica e frescura física eram as chaves. Ou, como resumiu Ferenc Puskas, uma das grandes figuras daquela equipa: «Quando atacávamos todos atacavam e quando defendíamos todos defendiam. Fomos os percursores do Futebol Total.»

Aquela era de resto uma equipa de sonho, de grandes jogadores. Puskas, Hidegkuti, Kocsis e Czibor, grandes talentos, alguns dos quais passaram a Cortina de Ferro e foram grandes também no futebol de clubes da Europa ocidental.

Gusztav Sebes era o treinador e o ideólogo por trás dos «Mágicos Magiares». Num país sob regime soviético, tinha todo o tempo do mundo para trabalhar com os jogadores e não deixava nada ao acaso. Na Hungria foi recentemente divulgado o seu caderno de notas do Inglaterra-Hungria, que revela como Sebes viu um jogo da Inglaterra frente a uma seleção do resto do mundo umas semanas antes e nos treinos pôs jogadores a imitar os futebolistas da Inglaterra, para replicar os adversários nos treinos com os jogadores da seleção. Também percebeu depressa que a sua equipa estava à frente do rival.

«Os ingleses jogam contra as equipas europeias como jogavam há 20 anos», escreveu, entre considerandos pouco simpáticos sobre as qualidades dos internacionais ingleses. Coisas como «Alf Ramsey é lento» ou Stanley Matthews «não é nada de especial».

Ideólogo é a palavra adequada a Sebes, porque o treinador era uma personalidade influente nas altas esferas do desporto húngaro e nos seus discursos aos jogadores insistia na ideia de que o futebol era um prolongamento da luta entre capitalismo e socialismo.

Aliás, ao longo dos anos muitos quiseram tirar conclusões políticas deste Inglaterra-Hungria. Há quem diga que foi o clique para que um país dividido começasse a acreditar que o impossível podia acontecer, num movimento que culminou na Primavera húngara de 1956.

Em Wembley, naquele dia 25 de novembro, a Hungria entrou a matar. Hidegkuti fez 0-1 no segundo minuto. Sewell ainda empatou, aos 13m, mas depois os ingleses viram-se perdidos, incapazes de lidar com o carrossel de movimentações húngaro. Hidegkuti fez o 1-2 aos vinte minutos. A seguir foi Puskas. 1-3 aos 24m, e 1-4 aos 27m, um golo que só ele também tem direito a lugar na história.

Antes do intervalo Staney Mortensen reduziu para a Inglaterra. Mas o festival da Hungria não parou na segunda parte. 2-5 por Bozsik aos 50m e 2-6 para o hat-trick de Hidegkuti aos 53m. Um penálti batido por Alf Ramsey aos 60m fechou as contas.

Fique com o resumo do jogo

O conto de fadas húngaro durou até à final do Mundial 1954, quando uma das melhores equipas de sempre caiu perante a Alemanha. Ainda assim, descontando a final de Berna, foram 54 jogos sem perder, 46 vitórias e seis empates.

A história do dia 25 de novembro de 1953 não acabou ali. Em maio de 1954, semanas antes do Mundial, a Inglaterra pagou a visita e foi jogar com a Hungria ao Nepstadion, em Budapeste. Não tinha aprendido muito. Dessa vez perdeu por 7-1, até hoje a pior derrota da história da seleção inglesa.

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