«Quando estava em clubes maiores não ia ao teatro, ao cinema, não lia e não estava com a família e com os amigos, estou contente, porque estou a por tudo isso em ordem. Tenho tido muitos convites, mas nesta altura este aspecto da vida é importante para mim», diz Artur Jorge, ex-treinador do F.C. Porto, Benfica e da selecção, entre muitos outros clubes e equipas nacionais, em declarações à Lusa

Artur Jorge, que tem 63 anos e está parado desde que deixou o Creteil, na época 2006/07, encara o «desemprego» como «uma pausa, para descansar um bocadinho e depois recomeçar».

Octávio Machado, que já orientou o Sporting e o F.C. Porto, tem por seu lado «uma vida muito preenchida»: é empresário agrícola, vereador da Câmara Municipal de Palmela, eleito pelo PSD, presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Palmela e da Assembleia-Geral da Adega Cooperativa local. «Tive alguns convites, estar de fora é uma opção e uma responsabilidade perante as pessoas que me elegeram. Se eu quisesse regressar ao futebol, tinha muito por onde escolher e não só como treinador, era só querer», diz Octávio à Lusa.

Também há quem aproveite para ver ainda mais futebol. É o caso de Mário Reis. «Tenho ido muito a jogos da Liga, da Liga de Honra, e também do meu filho (Hugo Reis), que treina o Folgosa, da 1ª Divisão distrital do Porto. Dá para matar um bocado as saudades, mas fico um bocado mal do pescoço¿ é que a bola anda sempre tão alto», brinca o técnico, que é ainda director do departamento de futebol do FC Maia.

E há ainda quem tenha decidido pendurar a braçadeira de treinador e o quadro de tácticas. Como Luís Campos. O antigo treinador de Gil Vicente, V. Setúbal ou Beira Mar diz que se dedica agora a «aconselhar jogadores aos melhores clubes do mundo». «Foram 21 anos, mas consegui largar o bichinho, com maior facilidade do que pensava, até agora não tive saudades para voltar atrás», conta Luís Campos: «Esta actividade dá-me um gozo diferente. No treino existem um conjunto de variáveis que são extremamente alienantes, carregadas de adrenalina e tensão que nos alteram o ego e nos fazem tomar decisões por vezes inconsciente. Em 20 anos, as pessoas foram mudando, na minha opinião para pior, não em qualidade mas em personalidade, e isso fez com que não me sentisse bem, nem com vontade, de continuar a conviver com pessoas que não me dizem nada.»

Numa altura em que se fala muito de desemprego, o presidente da ANTF salienta que a procura no que diz respeito a treinadores também aumentou muito. «Temos 8.000 treinadores associados, dos quais cerca de 2.000 devem estar actualmente a trabalhar em Portugal, que é, mais ou menos, o número de clubes que existem», diz José Pereira à Lusa: «O desemprego aumentou, mas também os postos de trabalho aumentaram, com as equipas técnicas mais alargadas.»