«Uma pessoa de bem, a tua filha tem de saber que eras uma pessoa de bem.»

A frase pertence a Gigi Buffon. Ilustra na perfeição a forma como o futebol italiano olhava para o malogrado Davide Astori, capitão da Fiorentina falecido na última noite num hotel em Udine, durante o sono.

Homem de causas, perfil forte, digno da braçadeira envergada, Davide fez grande parte da carreira no AC Milan, passando posteriormente pelo Cagliari – onde foi colega de equipa do português Rui Sampaio -, um ano na AS Roma e, desde 2015, na Fiorentina.

Davide, 14 vezes internacional pela Squadra Azzurra (marcou um golo na Taça das Confederações de 2013), nasceu na pequena comune de San Giovanni Bianco, a 60 quilómetros de Milão. Deu os primeiros pontapés no Pontisola e aos 14 anos chegou ao AC Milan.

Cumpriu toda a formação nos rossoneri, mas não se impôs no plantel sénior e saiu para empréstimos a clubes menores: Pizzighetone e Cremonese.

Em 2008, o Cagliari contratou-o e o futebol transalpino percebeu que estava ali um atleta de perfil raro: defesa central esquerdino, muito consistente, tecnicamente evoluído e forte no ar. Fez 179 jogos oficiais e três golos pelo clube da Sardenha.

Mais do que isso, o calcio conheceu um homem destinado a liderar balneários. «Sou um tipo que gosta de refletir. Mas tenho de dizer sempre o que penso», afirmava Astori em fevereiro de 2017, numa entrevista pessoal ao La Nazione.

«Líder? Não sei. Não quero parecer presunçoso, mas sou importante dentro deste grupo da Fiorentina», completava, numa pose ali entre o artista e o pensador. Sereno nas palavras, como na defesa. Não era um central de agressividade incontrolável, mas de convicções sólidas.

«Acredito que num grupo é importante ter jogadores que pensam o futebol da mesma maneira e falam a mesma língua. Não é racismo, nem por sombras. É uma necessidade para obter bons resultados.»

Nessa altura, Davide Astori era treinado por Paulo Sousa. E elogiava o português. «Ele quer sempre jogar bem e ganhar por um golo. Aprendeu, adaptou-se e percebeu quais são os nossos objetivos realistas.»

Dizia-se admirador de Dybala e Icardi, «os mais difíceis de marcar».

Conservador no campo, urbano e moderno fora dele. Apaixonado por arquitetura e tecnologia, amante da vida, inteligente e especial.

«Sim, foste um dos homens mais inteligentes que conheci», escreveu Nenad Tomovic, ex-colega de equipa na Fiorentina. «Tenho a certeza de que nos voltaremos a ver e a partilhar um copo de vinho. É um prazer saber que me esperas quando chegar a minha hora.»

Aos 31 anos, demasiado cedo, chegou a hora de Davide Astori. Despediu-se dos relvados, sem saber, a 25 de fevereiro de 2018. A ganhar: 1-0 ao Chievo. 

Deixa a esposa Francesca Fioretti e uma menina de dois anos, Vittoria. Uma menina que tem de saber que o papá era uma pessoa perfeita.

Uma pessoa que merece ser recordada com Blowin in the Wind, de Bob Dylan. A homenagem da Fiorentina.

«How many roads must a man walk down

Before you call him a man?

Yes, and how many seas must a white dove sail

Before she sleeps in the sand?

Yes, and how many times must the cannonballs fly

Before they're forever banned?

The answer, my friend, is blowing in the wind

The answer is blowing in the wind»

 

In ricordo di #Davide #Astori il capitano della Fiorentina

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