O bom português está habituado a falhar. A chegar lá, àquele instante em que não pode, não deve e não quer, e... puff.
Às vezes anda lá por cima, de peito cheio a pairar, a par dos realmente grandes, suportado por estatísticas e coeficientes
de circunstância, e é candidato a este mundo e outro. Mas falha. Põe as mãos na cabeça, sente que foi por pouco. Repete que
morreu na praia, por um raio de pormenor, um reles de um árbitro, a estúpida bola que deixou rasto na trave, o azar impensável
do guarda-redes. Julga que não é justo, diz em voz alta «que fiz eu para merecer isto» e bate no peito, cerra os punhos, volta
a inchar de moral, preparado como nunca para voltar a não ter sucesso outra vez. E novamente por pouco.
Tenho a certeza,
e vocês também, que vou falhar neste texto. Também eu fazia o que fez Eduardo, rematava em rosca como Danny, chegava ainda
mais atrasado do que Almeida ou atirava ainda mais sem nexo do que Quaresma. Falharia ainda mais do que todos eles, com ou
sem a minha avozinha ao colo, e sentiria da mesma forma que estive quase lá sem nunca aí ter estado. E eles fariam tão mau
papel como o meu, de portátil em frente dos olhos e dedos por estalar, a dizer coisas que não fazem sentido a ninguém. Mas
por pouco também. Porque me falta sempre uma palavra...
Se Maradona fosse português teria passado seis ingleses
e rematado ao lado. E se em Van Basten houvesse costela lusa, aquele tiro impossível bateria nos dois postes, nas costas de
Desaev e sairia por cima. Claro, se Charisteas tivesse nascido por cá ainda cabecearia à figura de Ricardo, entretanto sem
norte na pequena área de uma Luz a abarrotar. Está nos nossos genes. Mesmos os que de nós já foram os melhores deixam de o
ser quando estão entre compatriotas, ficam cegos de tanto desnorte e desnorteiam também. Por vezes, somos bons quando estamos
sozinhos, numa estrada como Carlos Lopes ou Rosa Mota, porque não há mais ninguém para nos lembrar o que somos.
Bem,
talvez não nos esteja nos genes, mas é consciência colectiva, da qual não nos conseguimos livrar como se estivéssemos a ser
estrangulados por um polvo, um verdadeiro e não qualquer figura de retórica ou conotação queiroziana. Gostamos de acreditar
que um ser divino nos empurra a bola, que há um líder e esse líder é que sabe, seja bom, mau ou assim-assim, que tem de estar
tudo perfeito para tudo o ser realmente. Quando o céu fica mais perto do relvado, os portugueses sentem-se claustrofóbicos,
não conseguem respirar, a bola queima e nada ou ninguém estão com eles. O português é um homem sozinho quando corre mal e
só corre bem quando está só.
Também é muito nosso cometer o mesmo erro duas vezes, porque começo a sentir que já
escrevi antes este texto. Um brasileiro fez-nos acreditar que com bandeirinhas nas janelas éramos invencíveis e também falhámos
como nunca e ao mesmo tempo como sempre. Outro teve um feeling, mas não acreditou que fosse algo mais que black eyed
peas contra a Costa do Marfim, o Brasil ou a Espanha. Curvámo-nos sem razão e agora curvaram-nos sem apelo sem agravo. Cipriotas
e noruegueses, fregueses de sempre, e agora clientes VIP de ocasião.
A Espanha era assim, mas pegou no polvo e atirou-o
para longe, deu-o a comer aos chacais e virou-se para a frente. Alguns bons rapazes decidiram que a história está disponível
para ser mudada, e levaram todos os outros atrás. A sorte, se era sorte, mudou. O líder, se é que alguma vez o foi, apareceu.
Minorias juntaram-se às maiorias, e a Roja ficou encarnada viva de um momento para o outro. Todas as partes somadas valeram
dois títulos. Tantos desastres depois, a vontade uniu-se à fé em si mesmos. Quando não há fórmulas mágicas, ou banha-da-cobra,
o caminho mais simples é o melhor. Se é que isso faz sentido algum...
Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço
de opinião de Luís Mateus, subdirector editorial do IOL. Veja o seu BLOG
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OPINIÃO: falhar é tão português
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