Imaginem-se, porque os tempos que correm são estes e não outros, e apenas por isso, em frente de um fogão a gás e uma panela
anti-aderente. Um génio todo-poderoso, mau como nos livros de Marvel, mas de fato e gravata, e sapatos de verniz, pediu-vos
a vós, druidas dos tempos modernos, de barbas ralas, coçados casacos de fazenda e cabelos semi-oleosos, que inventásseis o
atacante perfeito.
Letal, imparável, goleador, o melhor futebolista de todos os tempos. O melhor! Sim, melhor do
que quem estão a pensar, muito melhor do que qualquer um que viram de perto ou na televisão. O objectivo não interessa para
nada, mas pode ser «conquistar o mundo». Fica bem. Ou então ser rico, que vai dar ao mesmo.
Enquanto esse joker
de Gotham City está na sala, a interrogar-vos em silêncio, a medir o QI em piscadelas e tiques, fingem que pensam. Trazem
livros amarelados das prateleiras temperadas pelo pó. Folheiam. Cortam o indicador nas folhas aguçadas, lambem o dedo. Sentem
o peso do mundo sobre as costas, enquanto o sabor a ferro vos lembra, sem pudor, o quanto as aparências iludem.
Mais
tarde, em silêncio, a escuridão abraça-vos, enquanto olham para o gato a dormir, sem curiosidade perante a proximidade de
tal façanha. Incrível, sem curiosidade, como se o instinto lhe dissesse Deixa lá, é uma missão impossível!
Lume
brando para preparar a poção. Temos de começar por algum lado. Metade do pé esquerdo de Roberto Carlos, a outra do de Messi.
Meio pé direito de Nelinho, meio de Zico. O jogo de cabeça de Jardel, o instinto de Van Basten, a capacidade atlética de Hugo
Sánchez. Metade da humildade de Kaká, a outra metade enchida com a arrogância de Cantona. O primeiro toque de Romário, a inteligência
de Cruijff, o génio de Maradona. A presença de Pelé, a teimosia de Garrincha, a potência de Cristiano Ronaldo. A meia-distância
de Arie Haan. O que mais?
Todos teríamos medo, a certa altura, de nos estarmos a esquecer de algo. A consistência
de Raúl, a raça de Eusébio, os truques de Zidane. Algo que pudesse estragar a obra. Um defeito estúpido que estoire com a
cadeia de ADN, destrua com a invenção, destrua todo o trabalho sem deixar rasto. Raios! Esquecemos algo?!
Puxamos
os cabelos, roemos as unhas, coçamos a barba que já se tornou farta. Revemos tudo, ingrediente a ingrediente, isolamo-nos
do mundo e das distracções. Esquecemo-nos da televisão, do telefone, da luz do dia. Esbugalhamos os olhos para nos vermos
do outro lado do espelho.
Vocês, adeptos, que hierarquizam tudo... Para vós não há dois ou três melhores do mundo,
há sempre um que é mais do que os outros. Digam-me: esquecemos alguém?
Não, deixem lá, não temos tempo. Fizemos
um pacto com o diabo e temos prazos para cumprir. Daqui a pouco toca-me à campainha uma mala cheia de dinheiro. O futebol
vai acabar, mas, que fazer, não me importa. Vai deixar de ter piada. Raios?! O que fui eu fazer?
Tocam! É sempre
nesta altura que aparece à porta o vizinho, como num bom filme de Hollywood. A deixa. Nem sabes o que me aconteceu...
Pois. Não, não sei. Tens a casa a arder? Foste assaltado? A tua mulher deixou-te? Apanhaste-a com outro. O sorriso
diz logo que não. Não, pediram-me para fazer rejuvenescer a melhor equipa de sempre, o Brasil de 1970. E até consegui convencer
o Mourinho a treiná-la.
Estás a gozar?!
Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço de
opinião de Luís Mateus, subdirector editorial do IOL, que escreve aqui todas as semanas. Siga-o no twitter
QUE FRANGO!:
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Opinião: o druida e a missão impossível
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