[Esta crónica foi publicada domingo, às 15:00]
Atenção: este texto acarreta sérios riscos. Sócrates fala à minha
esquerda, já sem a lágrima ao canto do olho, e de vez em quando o twitter dá sinais de si à direita do meu ecrã, reagindo
às tiradas do primeiro-ministro. Por isso, não me responsabilizo, escrevo dividido entre a mania da perfeição e a acidez da
crítica, sinto que terei dificuldades em encontrar o tom no meio desta página em branco. Mas, pronto, é aqui que entra o «lá
terá de ser».
O fim-de-semana foi recheado de emoções. O Fantasporto terminou com prémio maior para o humor, os Césares
foram dominados por «Séraphine». Os U2 actuaram no terraço da BBC para surpresa de milhares, que fotografaram com os telemóveis.
A Força Aérea canadiana interceptou bombardeiros russos antes da visita de Obama. E o risco de grandes atentados foi denunciado
pela Interpol. A coxa de Carlos Martins e o corte infeliz de Balboa quase traíram o Benfica perante o ambicioso Leixões; no
Dragão, já sabendo que a águia tinha encontrado o antídoto a tempo de parar o veneno, dois muros chocaram a medo, perderam
alguns tijolos, mas continuaram de pé.
Não vi, não sei, e depois de ler algumas opiniões, parece-me que o clássico
acrescentou pouco, muito pouco, talvez quase nada, ao futebol português. Não vi, porque me disseram um dia que rir de mais
faz mal, e não consigo parar de cada vez que olho para Rochemback, lembrando-me daquele tackle aterrador de há alguns
dias, na goleada sofrida perante o Bayern. Não quero perturbar com isto o luto dos sportinguistas, a vergonha da sua cara
segundo uma faixa no estádio do clássico, mas acho que todos nós devemos ser capazes de rir com os nossos erros.
Jesualdo
disse depois que os portistas perderam dois pontos, Bento que a garrafa ainda estava inteira, Quique, na festa de aniversário
dos da Luz, acrescentou que quer festejar um título em Maio. Reforço a minha convicção de que nada mudou. O F.C. Porto apenas
depende de si, o Benfica mantém a esperança e o Sporting vai continuar à espera das falhas de outrem. Já José Sócrates parte
com mais de vinte pontos de avanço para a recta final do seu campeonato.
Já se cantou o hino em Espinho. Fala agora
o representante do Bloco de Esquerda, principal adversário político dos socialistas de acordo com as conclusões do congresso,
onde não se discutiu o desemprego e quase não se abordou a crise. As cadeiras esvaziaram depressa, como num jogo de futebol
ainda nos descontos, numa fuga clara ao trânsito. No Porto, Liedson ia chegando levezinho ao golo nas duas melhores oportunidades
do jogo, coisa que os da casa não tiveram a seu favor.
Os leões precisavam de mais e tentaram pouco, o F.C. Porto
podia ter resolvido quase tudo e faltou-lhe ambição. E o Benfica continua a ser demasiado frágil a ameaças externas, mesmo
quando tem tudo para que não seja assim.
Enfim, é o país que temos. Não podemos é acreditar que acaba em Espinho.
Era
capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião de Luís Mateus, subdirector editorial do IOL, que escreve aqui todas as
semanas. Siga-o no twitter
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Opinião: o futebol português não acaba em Espinho
«Era capaz de viver na Bombonera»
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