Desenhando elipses como um pêndulo de Foucault, o 6 volta sempre ao ponto de partida, depois de reequilibrar a equipa.
Vai e volta, preenchendo vazios e anulando equívocos pelo meio, com a bola recuperada, pronto para definir os tempos dos ataques
como andamentos musicais. Bola para a direita em grave ou em adágio, avanço moderato, trocas de bola em allegro
ma non troppo e contra-ataque vivace. O 6, esse número que alguém, um dia, decidiu vulgarizar com o nome de «trinco»,
é mais do que um destruidor de jogadas adversárias e amigo dos apanha-bolas. Deverá ser, se o futebol faz realmente sentido,
o ponto de equilíbrio de tudo.
A certa altura pensou-se que qualquer um podia jogar ali, sobretudo se tivesse porte
e ganas de não perder uma jogada. Centrais ou laterais, a adaptação parecia de pouco risco. Depois, antes e ao mesmo tempo,
porque no futebol nada é cronológico excepto os troféus, viu-se que um não bastava, eram precisos dois. Até o Brasil, heresia!
Até o «escrete», onde a bola sempre teve uma direcção, em ésses mas apenas uma, baixou sectores para ser campeão do
mundo. Mais tarde, em França, Zizou também precisou de uma guarda de honra de três médios-defensivos, Deschamps, Petit
e Vieira, para se tornar imperador de todo o continente.
Por cá F.C. Porto, Benfica e mesmo Sporting procuram o seu
«6». A norte, Jesualdo Ferreira disfarça o rombo-Assunção com um «oito» colombiano sob disfarce. Com Katsouranis dividido
entre a defesa e o meio, um francês desconhecido é a aposta encarnada na força e na disponibilidade física em detrimento da
juventude e arte de Fillipe Bastos. Em Alvalade, Miguel Veloso, o natural dono da posição, começou a temporada no banco. Moutinho,
que já fez de tudo e mais alguma coisa, tirou quatro unidades ao número com que começou a carreira, o 10, na primeira partida
oficial do ano.
O meu «6» é redondo e não quadrado. É Fernando Redondo, sublinho. Talvez o melhor de sempre. Alex
Ferguson também concordou, quando disse, depois de ver a sua equipa destroçada, que tinha íman nas botas. Nos quartos-de-final
da Champions de 2000, em Old Trafford, construiu sobre a faixa esquerda, de calcanhar e entre as pernas de Berg a jogada
que daria o terceiro golo «merengue» (2-3), marcado por Raúl. The backheel of Old Trafford (o calcanhar de Old Trafford)
- ficou assim conhecido esse lampejo de autonomia de um «trinco», capaz de aparecer junto à baliza contrária para decidir
um jogo.
O meu «6» é também o geómetra Paulo Sousa, um dos melhores portugueses de todos os tempos, desenhando triângulos
no Del Alpi e um pouco por todo o planeta com as cores da Selecção. É o ex-10 Andrea Pirlo, talvez o melhor lançador de ataques
do futebol moderno. Escondido atrás de uma parede levantada por Gattuso, Ambrosini e Seedorf, experimenta, furtivamente, as
alas com venenosos passes longos, enquanto não segue também ele até à frente para resolver à entrada da área.
Não
sei se é de mim, mas sente-se que o jogo está a querer voltar a mudar. As equipas voltam a preocupar-se com o ataque, privilegiando
os artistas. Os «trincos» são menos, o «6» tem novamente metros quadrados livres para afirmar-se. A posição pode deixar de
ser o refúgio de quem tem pouco jeito para o jogo e integrar-se também na velha ideia de Rinus Michels. O futebol, leia-se
a bola, não é só para alguns, é total.
«Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião de Luís Mateus,
editor do Maisfutebol, que escreve aqui todas as semanas.
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Opinião: a lógica do 6 no futebol moderno
«Era capaz de viver na Bombonera»
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