Keegan construía legos de peças gigantes à frente de Seaman, o tal keeper que agrupava pilosidades em rabos-de-cavalo e bigode fartos, com uma coragem que nem o excêntrico Freddie Mercury teve. O tal que ficou a olhar para o céu, em 2002, no golaço do gaúcho Ronaldinho. Aquele que voaria como albatroz sem controlar o salto de peixe de João Pinto, já fisgado no anzol por um Rui Costa orgulhoso, de cana bem segura, na margem, à direita. O mesmo que abriria os braços como pássaro assustado depois da trivela de Nuno Gomes.
Martin Keown estava no banco, cabia a Sol Campbell e Tony Adams formar o dique à frente do homem do mar, pouco acostumado a que a água transbordasse para a sua baliza. Figo s-s-s-s-s-s-s-s-shoots! Watch out, Tony! O míssil desvia e entra ao ângulo. O central arranca palavras de quatro letras, cheias de caveiras, estrelas e pontos de exclamação como em livro de quadradinhos. Vê-se a repetição. Câmara lenta... Desvia e entra ao ângulo! Desvia e entra ao ângulo! Raios ta`parta! God damn you! Desvia na perna esquerda...
Thanks, but no thanks, Tony! Esse monumento de Figo fica obra incompleta. Essa falha na obra de um louco, porque só um louco atiraria dali e pelo túnel de vento formado pelas pernas de um Bife, pouco importado com o teste a atritos e defeitos, rouba as últimas estrofes a um poema riquíssimo. Daqueles que decoramos e usamos trinta anos depois, quando queremos mostrar o impacto que algo teve na nossa vida. Daqueles poemas que já não se conseguem reescrever. Figo não voltou a atirar assim. Não assim!
Bem-haja Schmeichel, que pelo menos ele caiu que nem um gigante! Em Março de 2000, em Leiria, Figo fura entre dois vikings e ordena: Sit, Grand Danois, sit! O gigante, pasme-se, senta-se, na expectativa. A bola passa-lhe por cima da perna esquerda e, requinte dos requintes, ainda lhe toca antes de passar a linha. Bem-haja, Roberto Carlos, que ficou impassível perante o drible e ao remate de pé esquerdo do extremo do Barcelona, não querendo estragar por antecipação uma amizade que chegaria anos depois. Não, tinha de ser um Tony Adams qualquer...
Agora despede-se, diz adeus! Arriverdeci aos italianos, adiós aos madrilenos, adéu aos catalães, até breve aos portugueses. Mas despede-se sem que a história tenha corrigido esse erro de Eindhoven. God damn you, Tony! Resta-me outros grandes golos. E as pedaladas, os dribles, as mudanças de velocidade, a divisão de tarefas entre os dois pés, os livres directos terríveis, os penalties com meia paradinha e os cruzamentos-meio-golo, a ritmos diferentes conforme a idade, mas com um odor intenso a classe, que aumentava a cada minuto no tapete.
Guardo essa magia e esqueço-o, se continuar em campo, a milhares de quilómetros de distância. Não quero saber se os que deixa pelo caminho são os maquinais chineses, os árabes dos petrodólares ou os americanos, esse povo gendarme, que um dia ainda descobre que o soccer só faz sentido com home runs e touchdowns. Esqueço-o, enquanto o meu cérebro lhe agradece por estes parágrafos de êxtase, em que tornou viva por minutos a minha memória. Quanto a ti, Tony, see you in Hell!
«Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião de Luís Mateus, subdirector editorial do IOL, que escreve aqui todas as semanas. Siga-o no TwitterComentar este artigo

Último comentário
Bate coração...
Só o Luis Mateus, para conseguir por em palavras ums dos melhores jogos da nossa seleção. Ainda por cima quando o Baia já tinha tirado 2 bolas de dentro da baliza com poucos minutos de jogo. Temeu-se a goleada, mas aquele a quem chamaram pesetero lusitano levantou bem alto a bandeira, e sofremos até o Nuno Gomes ter novamente humilhado o Tony Adams. Ás vezes, até que dá gosto ser português....