Aviso: Esta crónica já se chamou «Já podes deixar crescer o cabelo, ó Passarella!», mas não viajo muito para Buenos
Aires e achei que podia ser mais bem sucedido por cá. Este aviso é como aquele disclaimer num shootem`up qualquer,
antes de o maior pacifista planetário armar a AK-47 e matar civis num aeroporto russo. Gimme all, baby! Ou aquela mensagem
«Este filme pode ferir susceptibilidades mais sensíveis», e carregamos no botão vermelho para gravar. O que é que jogos e
filmes têm a ver com este texto? Nada, como no anúncio.
O que seria do mundo actual se Luther King tivesse dito
«Eu tenho um sonho, mas no final é que se fazem as contas»? O futebol continua a ser, tanto tempo depois da sua criação, um
dos fenómenos sociais que mais constrange as liberdades individuais.
Há uns anos, quase início do século, os argentinos
Redondo e Caniggia foram afastados do Mundial de 98, só porque Passarella não queria jogadores com cabelo comprido ou brincos.
Até Batistuta teve de passar pelo barbeiro antes de viajar para França. O aspecto tornara-se mais importante do que um grande
golo ou uma jogada monumental.
Nas camadas jovens dos Millionarios a regra é nada de pilosidades em excesso
e de ornamentos em orelhas. O presidente do River é, claro, Passarella, mas a decisão, pasme-se, não foi sua. «Não gosto que
o cabelo esteja abaixo dos ombros e a frente tem de estar livre, porque se não tapa a visão. Um jogador não se pode distrair
nem um segundo e o River exige que se seja profissional desde miúdo». São palavras do coordenador, que quando jogava à bola
usava farta cabeleira e não tinha, que se saiba, problemas de visão.
Quem não se lembra do berrante equipamento
de Campos, do afro-louro-com-bigode Valderrama, do quase-cabelo de Taribo West, entre tantos exemplos? A afirmação de cada
um em campo era feita não só pelo que conseguiam com a bola nos pés, mas também pela imagem. Que não decide jogos, mas finta
a nossa memória. Afinal, o que distinguiu West de tantos outros defesas nigerianos que jogaram no seu tempo? Campos terá sido
alguma vez o melhor do mundo entre os postes? Valderrama, arrisco, talvez o maior na América do Sul?
No final dos
anos 80, jogou no Sporting uma das «unhas» do bigodaças Jorge Gonçalves. Douglas usava a camisola fora dos calções, cabelo
dentro da moda para futebolistas - curto em cima, a bater nos ombros atrás - e, mais importante que tudo o resto, meias em
baixo. O craque era Silas, mas poucos não se lembram de Douglas. Não por ter sido um dos melhores médios em Alvalade, apesar
do grande golo de calcanhar de ainda que lembro, apenas porque tinha estilo.
Qual é o problema de dizer «Devia ser
titular» ou de Nani, por exemplo, atirar que quer ser o Melhor do Mundo, correndo o risco de ser expulso no jogo a seguir
por uma entrada ingénua? Não posso deixar de imaginar um craque, ameaçado por microfones à frente, e um daqueles close-ups
clássicos, com a câmara a focar um dos ouvidos e o som amplificado, como naquelas boas piadas de louras: «Inspira, expira...».
O
estado de sítio diz-nos que agora nem nos podemos cruzar com Queiroz. Por que raio não posso achar que Scolari se devia ter
demitido depois do soco à Sérvia, e também acusar o actual seleccionador de ter mau estômago para críticas sem que ele tente
resolver as coisas como o seu antecessor. Posso achar que o mundo virou do avesso e acreditar em milhares de coisas que depois
não serão verdade. Sei que dezenas de pessoas vão acabar este texto a pensar que estou louco. E depois? I gotta feelin`
que se o Taribo West me encontra, então é melhor que não vá sozinho. Toma lá a outra face, ó Queiroz!
«Era
capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião de Luís Mateus, subdirector editorial do IOL, que escreve aqui todas as
semanas.
QUE FRANGO!:
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Opinião: Toma lá a outra face, ó Queiroz!
«Era capaz de viver na Bombonera»
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