É mais um envelope armadilhado, Master Webster. Onde quer que o ponha? O cartoon, lido com british accent
[brit-ish āk sěnt], poderia mostrar depois o velho carrancudo a levantar a barba do kilt com um surdo e esganiçado
whaaat?!, depois de erguer a mão direita em forma de funil de gramofone. As paredes exteriores pintadas a graffiti,
os vidros esburacados à pedrada, as cortinas fechadas, não deixando adivinhar a hora solar, o som da televisão baixinho para
não incomodar nem as almas penadas. Whaaat?!
De saída do estádio vizinho, moderno ou pós-moderno, com cadeiras
aquecidas, tecto de abrir e redoma à volta do relvado, os jogadores arrastam grilhetas, presas ao melhor pé, ao mesmo tempo
que assinam autógrafos e tiram fotografias de milhões de pixéis ao lado de civis. Depois de cinquenta jogos nas pernas, e
com o passe de letra em gangrena, rasgam o sorriso e aceitam convites em série para spots de Freestyle, anúncios
de refrigerantes e botas demolidoras. Mas, antes de abrirem a porta dos Fórmula 1, têm de se separar dos fios de cordel, que
os prendem desde o topo, num cenário Von Trier marcado a giz no asfalto. Uma Dogville sem paredes nem tectos, para
a catarse perfeita.
Andy Webster abana a cabeça em negação para afastar a ideia. É agora, basta uma assinatura e
compra a carta de alforria. Aquele velho de barbas demolhadas num canto escuro de uma casa com cheiro a podre vem-lhe à cabeça
pela última vez. Uma gota num oceano, a bola de neve na avalanche e o «sim» decidido à história.
O clube tornou-se
empresa, o espectador passou a cliente, mas o jogador ficou jogador. Jogador, não empregado. Os adeptos, que vêem sempre roxo
onde às vezes está amarelo, precisam de símbolos e não de homens de fardas cinzentas, com o logótipo na lapela e o lápis afiado
na orelha. Os directores, que insistem no genocídio do futebolista ao retirar-lhe voz e peso, desejam paradoxalmente que o
adepto se reaproxime do ídolo e continue a ser tão romântico como os primeiros a ver o association. O jogador-funcionário
espera o cheque depois do hat trick ou do autogolo, e vê NIF onde muitos lêem Más que un Club, Et Pluribus
Unum ou You ll Never Walk Alone. Os que vibram com o Barça, o Benfica ou o Liverpool acabam de cuspir insultos
e deixar esta página. Mas vale para todos os outros também.
O futebolista diz o que lhe dizem para dizer, sente
o que lhe dizem para sentir, joga como lhe dizem para jogar. Agrilhoado a um monte de papeis rubricados em todas as folhas
e cheio de deveres, mas sobretudo esmagado pelo preço sempre astronómico que o transformou em mercadoria. É um escravo de
luxo.
O barbudo Webster ainda ouve o tímidos burburinho lá fora. Levanta-se corcunda, a custo, serpenteando entre
móveis desaparecidos até à janela empenada. Espreita. Gaitas de foles. Uma vedação feita de casse-têtes e capacetes.
Miúdos olham por cima das estátuas de bronze de pernas afastadas, peitos para fora e olhares no vazio. As vozes sobem uma
nota, alguém o vê. Atiram-lhe uma bola para o quintal. Aplaudem. Afinal, aquilo não era um pelotão de linchamento. O televisor
mostra-lhe a sua casa e explode em letras garrafais: fim das transferências milionárias. Uma ex-modelo à porta diz ao seu
público que, agora, cada jogador pode escolher onde quer jogar. Os ordenados vão deixar de chegar à estratosfera, estarão
bloqueados perto do topo, e o futebol voltará a mudar. Agora sim, todos os slogans fazem sentido. Pode voltar a paixão.
De braços esticados na poltrona coçada, o ancião fecha os olhos para descansar.
«Era capaz de viver na Bombonera»
é um espaço de opinião da autoria de Luís Mateus, editor do Maisfutebol, que escreverá aqui às terças e sextas-feiras
QUE FRANGO!:
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Opinião: o futebolista-funcionário e a revolução Webster
«Era capaz de viver na Bombonera»
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