Há coisa de dois anos li um jornal espanhol. Depois disso fui capaz de ter repetido o gesto, mas não me lembro. Lembro-me
desse dia. Li que a diferença entre Ronaldinho e Riquelme estava na cara. Literalmente.
O brasileiro sempre com
uma expressão sorridente, o argentino sempre com uma expressão sofrida. O que se reflectia no futebol de cada um, diziam.
Na
altura a comparação pareceu-me parva. Dois anos depois, e após alguma meditação, parece-me parva na mesma.
Antes
de mais porque sofrido é um péssimo adjectivo para definir o futebol de Riquelme. Se há coisa que o jogo dele não tem, aliás,
é um pingo de sofrimento. Há um plantel inteiro do Boca Juniors que pode corroborar o que eu digo.
Depois, e sobretudo,
porque há algum tempo que deixei de acreditar nos sorrisos em português com sotaque.
Mais ou menos desde que ouvi
um brasileiro, já não me recordo quem, dizer que era tudo fachada: fazia parte da pose perante a vida. Num país que faz o
culto do corpo e da imagem, sorrir era uma obrigação. Mesmo que o carnaval só dure três dias.
Parecendo que não,
esta ideia faz sentido. Na vida e no futebol.
Aliás, se o sorriso fosse um barómetro do sucesso, o Reino do Butão
estava em primeiro lugar no ranking da FIFA. O pequeno país dos Himalaias gosta de dizer que mede o PIB pela felicidade dos
habitantes e, garante, o último registo apresentou uma taxa de felicidade de 93 por cento.
Apesar disso, ainda não
há muitos anos o Reino do Butão estava a disputar uma final com Montserrat pelo título de pior selecção do Mundo.
O
Brasil está ligeiramente melhor, é verdade, mas há muito que os sorrisos de Ronaldinho, Robinho ou Diego deixaram de fazer
sentido. A não ser que estejam a lembrar-se da camisa de Dunga no amigável com Portugal.
Mas sucesso? A cara de
sofrimento de Riquelme ou Kun Aguero têm-se encarregado de fazer justiça. Nos Jogos Olímpicos, por exemplo.
Nós gostamos
de pensar que não. Gostamos de pensar que o jogador brasileiro traz uma alegria ao futebol que é meio caminho para a vitória.
Com muitos sorrisos pelo meio.
No fundo, acredito, faz tudo parte de uma pose perante a vida. Ou o futebol. O brasileiro,
jogador ou não, carrega o peso de uma herança: a herança de uma imagem. Décadas e décadas de uma ideia feita. No futebol,
por exemplo, construída pelo brilhantismo da selecção dos anos, 50, 60, 70 ou 80. Mas a realidade mudou.
Afinal de
contas, riem de quê?
«Box-to-box» é um espaço de opinião da autoria de Sérgio Pereira, jornalista do Maisfutebol,
que escreverá aqui todas as semanas
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