Yes, we CAN-2012! E que tal este slogan? Não teria o afro-americano inovador Barack permitido a imitação? Ele, que fechou
os olhos a tantos plágios antes e que potenciaram ainda mais a frase para a lenda, esquecendo as escorregadelas posteriores
que a transformariam, nos anos seguintes, no condicional «Sim, nós poderíamos se...» Esperto, o miúdo! Lembrem-se do que o
velhinho Napster fez à música, antes de os autores se lembrarem que preferiam o dinheiro à imortalidade. Ele não! Que slogan
perfeito, e tão bem encaixaria nesse espírito alegre, também naive, de sorriso estampado sobre meias pintadas de terra vermelha,
e uma bola de trapos debaixo de diz-que-eram-ténis, com um terço de sola e atacadores desfiados.
O jogo bebe sofregamente
de África. Sempre bebeu. A Premiership recostou-se com as mãos na cabeça ao ver o toque adocicado e os ziguezagues de Jay-Jay
Okocha; discutiu nos pubs os mísseis «de placa» de Tony Yeboah; e viu em Adebayor, Drobga e no búfalo Essien europeizados
para uma aposta mais contínua. Eles pagaram-na, com juros.
Portugal cresceu sobre a visão de jogo de Coluna e a explosão
de Eusébio, e voltou a entusiasmar-se com a classe irrepetível de Madjer e a criatividade de um pintor de Benguela chamado
Rui Jordão. A França ganhou fôlego com descendentes do Magrebe como Zizou, e naturais do Senegal e do antigo Zaire, que chegariam
a cantar «A Marselhesa» no Stade de France. E, entretanto, outros como o ganês Pele espalhavam classe por Marselha e Lyon.
A Holanda ainda hoje não se esquece daquele futebol-em-cima-de-andas de Kanu, e a Itália, que teve de superar a
imagem dos papelotes de Taribo West (coisa estranha), tem no alto de um pedestal o feiticeiro Weah, talvez o maior de todos,
que um dia, em 1996, se armou em Maradona negro (se houve vários Pelés brancos...) e correu de uma baliza à outra de San Siro, destroçando o Verona. E, na memória de Nápoles, Higuita
ainda hoje esquadrinha por aquela bola perdida para o velho Milla, que apurou os Camarões no Mundial entediante de 90.
Em
Espanha, Finidi foi embaixador dos extremos de cabeça levantada, Kanouté e Etoo pólos opostos de um futebol cheio de diversidade.
O maliano nascido na Gália (curioso, não?) não esqueceu a objectividade aprendida em França e em Inglaterra, e fez dos golos
profissão para a vida. Já o camaronês deixou o Camp Nou depois de ganhar tudo para pisar a sombra de Weah no Giuseppe Meazza,
agora com a camisola do rival. Samuel reclamou o seu trono. Com justiça.
Ao ver o que agora se passa no Gabão, sinto
o que sempre senti. Aquele futebol só existe fora de si, no meio de outro, e aí é rei. Ali, é apenas auto-destrutivo, preso
nos seus equívocos e lutas internas, em discussões estéreis e orgulhosas. Olha-se para a CAN e duvida-se (sempre) se algum
dia alguma selecção africana será campeã do mundo. Muito provavelmente morrerei sem o ver. Mas África continuará a exportar
a sua riqueza, futebolistas feitos de diamantes, marfim e petróleo, e a Europa continuará a ganhar e a coleccionar taças,
lavadas no seu suor. Mas que seríamos nós sem eles?
«Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião
da autoria de Luís Mateus, sub-director do Maisfutebol. Pode ver o seu BLOG
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CRÓNICA: de Eusébio a Weah, que seríamos nós sem eles?
Novo texto de «Era capaz de viver na Bombonera»
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