«Todos os dias vêm de vespa para os treinos. Aqui não há luxos», explica o gordo Christos, taxista de limusina de agência
de turismo, já com muitas revisões e peças substituídas, suspensões irritadas, estofos de pele furados e cheiro intenso a
tabaco. Condução própria de rali, com o jipe gigante a fugir de traseira e de nariz sobre o trilho do autocarro que persegue
até ao local de mais um treino. Mãos musicais sobre a buzina para protestar com o sinal vermelho, no meio do deserto.
1998,
carros das Nações Unidas aceleram pelas vias principais. Turistas empenham libras em pubs ingleses com mesas de pool
e barulho ensurdecedor, depois de irem a banhos nas praias luminosas de Larnaca. Os jornais noticiam em grande destaque o
jovem com tendências suicidas, baleado por ter tentado retirar a bandeira turca da metade não-grega de Nicosia. Os hotéis
pedem o racionamento de água, lembrando-nos dos largos depósitos em quase todos os telhados. Traduzidas de cinco em cinco
quilómetros em vedações de arame farpado, surge a explicação para aquelas placas de aviso, incompreensíveis para os visitantes:
Danger. Mines. Do not cross. Do lado turco, Famagusta, antiga região turística, não é mais que uma cidade-fantasma.
Uma
criança insinua-se na água, acreditando na linguagem universal de uma bola de praia. A medo, insiste, como se não fosse nada
com ele. Depois, liberta-se, sente finalmente a idade que tem e a vontade de ser miúdo perante um estranho. Os pais olham
primeiro de lado, desconfiados, e, depois de uns sorrisos e a conversa informal, sai o convite para um jantar, como se tivessem
encontrado um novo amigo eterno. Uma jovem recepcionista de hotel, de sorriso a escapar-se num dos cantos da boca até ser
de novo amarrado e os olhos voltarem a encontrar o chão. O menino faz-tudo, paquete e mascote, rei do átrio e da gorjeta,
e inconfidente leal: «O marido foi morto pelos turcos! É uma tristeza...»
Equipamentos com números desenhados a marcador
quando a lavandaria lhes desbotou o rastro. Jogadores, estrelas do seu sítio a andar a pé ou de motorizada de baixa cilindrada,
a caminho do relvado, um espaço aberto para quem queira ver, sem bancadas, com barras de ferro como em campos de distrital.
Treino do campeão Anorthosis, agora de Larnaca, depois da invasão da cidade-base, Famagusta, pelo exército turco. Gritam-se
palavras cheias em grego, como se tivessem o peso dos insultos, e aplaude-se, vibra-se o que se pode, faz-se o barulho de
uma multidão. Os jogadores param para acenar, cumprimentam, reagem.
Dez anos depois, importados dezenas de portugueses,
brasileiros e de tantas outras nacionalidades, os cipriotas conseguiram elevar um pouco o estatuto e a qualidade do campeonato.
A selecção ganhou alguma consistência. Mesmo que o estádio do campeão Anorthosis leve menos de dez mil pessoas, que o tamanho
e divisão da Ilha de Cobre (Kýpros é o nome original) e o valor de quase todas as equipas sejam limitativos, e que o futebol
seja apenas um anexo num país com muitas outras coisas com que se preocupar, numa única década quase tudo mudou.
Ninguém
esperava o Anorthosis na Champions, poucos acreditavam que com duas jornadas fosse líder num grupo com Chelsea, Werder Bremen
e Panathinaikos. Como se não houvesse amanhã, os cipriotas querem aproveitar o grande momento das carreiras, talvez mesmo
das vidas. Habituados a sofrer, a que os olhem de lado, a que cada dia seja uma batalha. Ainda com o amadorismo na memória
de todos, nunca se sabe o que trará o amanhã. A lutar pela sua identidade, longe de Atenas e bem perto de Ankara, agora sim
disposta a negociar a unificação para não hipotecar a junção à União Europeia, o futebol faz parte da mensagem. «Mataram um
miúdo por causa de uma bandeira, sem que o tentassem demover de outra forma. Kýpros é isto», lamenta Christos. A cinza cai-lhe
sobre as calças, sem que a sacuda. Larnaca, Chipre. Há dez anos.
QUE FRANGO!:
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Opinião: morrer (em campo) por uma bandeira
«Era capaz de viver na Bombonera»
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