Podia ter chegado num barco atolado de imigrantes ilegais, famintos e desconfiados, que também ninguém teria dado por si.
O rótulo dispensava a presença de holofotes, de jornalistas empilhados e comprimidos como sucata em pirâmide, com câmaras
no topo. Era ele e outro, também brasileiro, com nomes bissílabos. Vinham para a Luz, mas nunca lá chegariam. O primeiro contacto
com um novo futebol, mais agressivo e rápido, e sobretudo muito mais exigente, aconteceria poucos quilómetros a norte, no
«satélite».
Mais do que a desconfiança que a sonoridade dos nomes Deco e Caju criava na cabeça das gentes, o próprio
clube de onde vinham não era de fiar. Um Corinthians sim, mas da paradisíaca Maceió, em Alagoas, fundado apenas seis anos
antes, que não competia, apenas geria os talentos que aí apareciam antes de os redireccionar. Ninguém espera que esse miúdo
franzino de 20 anos com aspirações a ser o número 10 do Benfica, e que pisa pela primeira vez a Portela, seja um dia grande
figura do campeonato, da Selecção e do futebol mundial. Quem seria capaz de apostar todo o dinheiro em alguém assim?
Primeiro
Alverca, com Maniche, Hugo Leal, Diogo, Ramires e Caju. Depois, o Salgueiros, apenas como ponte para algo de outra dimensão.
Finalmente, o F.C. Porto - onde Caju o vai reencontrar por um ano, antes de voltar a Alverca -, os títulos, a explosão, a
dupla nacionalidade e a chamada de Scolari. Tudo em Deco parecia finalmente fazer sentido, com a bola sempre colada ao pé
direito, fazendo vírgulas entre frases curtas, saindo a seguir curvada para dentro, com força e jeito, envolvida num passe
ou num remate fatal. Depois, havia mais qualquer coisa. Não se contentava em ser estrela, arregaçava as mangas e também ele
era operário.
A verdade é que pouco tempo depois de ter chegado, ainda na Honra, já havia quem sussurrasse O melhor
é o Deco! Sabia-se que havia futebol ali, que podia crescer até ser um bom jogador do primeiro escalão. Mais do que isso
era um tiro no escuro, um prognóstico atirado para o ar sem algo que o sustentasse. No entanto, essa capacidade de ambientar-se
rápido ao novo mundo, como se fosse a sua casa desde sempre, de ir perdendo o sotaque ganho em São Bernardo do Campo, nos
arredores da gigante São Paulo, e de ser capaz de fazer parte de um futebol diferente daquele que aprendeu a ver perto de
si deram-lhe a dimensão que poucos atingiram. E, afinal, houve desde o início tanto contra si...
Aos 31 anos, e depois
do fim precipitado num Barcelona a querer forçar novo ciclo, tem ainda o Chelsea e a Selecção para uma boa recta final. Requintado,
parece determinado a ficar por mais algum tempo na memória de todos os que foram adeptos incondicionais desse futebol em que
a inteligência e o talento andaram sempre interligados. Por ser como é, por poder ser dez e oito, ou médio direito se necessário,
na mesma equipa e com o mesmo valor, o jogo promete ainda ser generoso com ele por mais tempo.
A sul, em Alvalade,
já há muito lhe arranjaram um sucessor: João Moutinho. Fisiologicamente parecidos, com idêntica capacidade de entrega no ataque
e na defesa, e muito inteligentes em campo. No entanto, com diferentes capacidades de improviso e, infelizmente, de talento.
O capitão dos leões terá pensado a certa altura que é Portugal que lhe limita a evolução. Que em Inglaterra ou em qualquer
outra liga de nível superior ganhará outra dimensão. A verdade é que lhe falta a diferença para Deco: ser decisivo. O 28 de
Alvalade não chegou ao fim da linha, está longe de o ter feito aos 22 anos, mas será que vai crescer muito mais? Ou será sempre
este grande futebolista, jogando sempre no limite máximo que os deuses lhe concederam. Afinal, eles não ficaram conhecidos
por dividir o talento em partes iguais.
«Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião de Luís Mateus,
editor do Maisfutebol, que escreve aqui todas as semanas.
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Opinião: há onze anos apostaria todo o dinheiro em Deco?
«Era capaz de viver na Bombonera»
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