[texto escrito em 2008]
Tatuado há 50 anos nas costas de Pelé, tornou-se símbolo, recuperou significados que
reforçaram a lenda. Perfeito na religião, gravado nos mandamentos bíblicos de Moisés e no número de antepassados contabilizados
entre Adão e Noé e Noé e Abraão, passou a representar a totalidade do universo e, no futebol, o topo da cadeia alimentar.
A excelência. Por culpa desses dois algarismos dançantes ao ritmo da ginga do moleque com aspiração a rei, primeiro
perante o espanto sueco, depois por todo o lado, tornou-se mais do que o número preferido, uma posição em campo ou o rótulo
de craque. O 10 representa sempre o melhor.
A honra pertenceu a milhares, mas poucos foram acompanhados pela aura
durante toda a carreira. Além de atrair olhares e holofotes, havia que contar com o peso de gerações da mesma camisola sobre
a pele. O 10 de Rivelino, de Zico, de Francescoli, de Platini e de Savicevic, e ainda de todos os outros, era herança pesada,
colada ao corpo pelo suor ansioso de ter de respeitar o legado. E, porque o futebol, esse vício sem cura, não sobrevive sem
heróis, surgiram dezenas de novos Maradonas nas Pampas. Em Buenos Aires e ao longo dos rios de la Plata e Paraná, cada bebé
nascia para uma missão. Em Ortega, em Aimar, em Riquelme, em DAlessandro e em Messi procurava-se o código genético de um novo
Messias. Mais a norte, também no coincidente Santos, aparecia um novo Pelé. Robinho era o clone de algo impossível de clonar.
A
certa altura o futebol pensou que podia passar sem eles. Em Inglaterra e em Itália, no association e no calcio,
raramente houve espaço para um jogador assim. Mesmo com Waddle desviado para a direita na Velha Albion, ou Giannini ou Antognoli
à sombra dos Alpes. O four-four-two e o kick and rush (and shoot) eram há muito auto-suficientes, sem necessidade
de um cérebro para vencer jogos. O mais próximo que sempre tiveram de um organizador andava dez metros atrás, camuflados pelos
«oitos» invisíveis de Scholes, Lampard e Gerrard, operários nos tempos livres, sem a bola.
Em Itália, a obsessão
pelo equilíbrio impedia que um jogador, mesmo que fosse só um, pudesse ser «desperdiçado» com uma única função. O 10 subiu
dez metros, tornou-se avançado, obrigou Il Codino Baggio, Del Piero e outros a ser letais na grande área, mais do que
conduzir outros até lá. Ou a que Pirlo se transformasse num pivot protegido por duas paredes musculadas, Gattuso e
Ambrosini, funcionando como um «seis» atirador furtivo, lançando de longe as sementes da revolução. Foram poucos os que se
livraram do colete-de-forças.
Durante décadas, o 10 alemão foi o líbero, o defesa que saía da última linha inimiga
e gritava já no meio-campo as ordens dos ataques, quase sempre simétricos, mas também frios e letais. Beckenbauer foi maior
do que a posição que inventou e não deixou espaço a outro playmaker. Os ibéricos, pelo contrário, muito por culpa das
íntimas ligações à América do Sul, amarraram-se durante anos a fio a esse número, como segredo de todo o sucesso. Na Luz,
depois de Valdo, Rui Costa foi desejado época após época, e agora procura-se em Aimar o sucessor. O Sporting teve Silas e
Balakov num passado recente. Mais a norte, o grande Madjer preencheu muitas vezes os vazios pisados por um organizador.
O
10 tem várias definições. Várias posições em campo, missões. Pode vestir um poeta como Zico ou um malabarista como Ronaldinho.
Um altruísta como Rui Costa ou um goleador como Platini. Zidane foi o mais completo de todos, inimitável. Domínio perfeito,
dois pés mágicos, leitura de jogo, autonomia até à baliza, capacidade de drible e jogo de cabeça. Kaká é o mais parecido que
há com um projecto de Zidane. Maradona? Era mais que um número. Maradona era D10S!
«Era capaz de viver na Bombonera»
é um espaço de opinião da autoria de Luís Mateus, sub-director editorial do IOL
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OPINIÃO: os dezes e os deuses, genótipo de um número
«Era capaz de viver na Bombonera»
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