«I've seen the future, brother: it is murder»

(Leonard Cohen, The Future)

Olhando com atenção, a foto tem um pouco de tudo. Bósnios. Montenegrinos. Egípcios. Tunisinos. Espanhóis. Franceses. Cubanos. Iranianos. Sírios. Procurando bem, é mesmo possível encontrar cinco jogadores qataris naquele grupo de 16 homens alinhados, que põem a mão sobre o coração enquanto cantam, a plenos pulmões, um hino aprendido nos últimos meses, já a pensar nos grandes planos televisivos.

São os novos vicecampeões do mundo de andebol. Muitos foram naturalizados há menos de um ano, já a pensar neste momento. Unem-se sob a bandeira do Qatar e, quando a foto foi tirada, ainda não tinham perdido a final com a França. Mas já tinham contribuído, com a melhor classificação de sempre de um não-europeu, para sublinhar outra afirmação de poder, depois da entrada em força no futebol e da organização do Mundial 2022. O poder desportivo, que cria e executa um projeto sólido e competente, num curtíssimo lapso de tempo. Mas, principalmente, o poder económico, que faz da diplomacia desportiva uma montra para o resto do mundo e é capaz de dar todos os meios a esse projeto - por exemplo, um inacreditável prémio de cem mil euros por vitória a cada jogador desta seleção.

É a altura em que vocês, leitores atentos, lembram que nada disto é novo. Já o vimos no futsal, por exemplo, com as seleções italianas, russas e azeris compostas quase exclusivamente por brasileiros. Ou no atletismo, onde são cada vez mais as medalhas conquistadas graças a passaportes emitidos na altura certa. E, principalmente, já o vimos, em escala mais pequena, no futebol de todos os dias, com as naturalizações oportunistas, feitas à medida para gerir carreiras e transferências e para coincidirem com as grandes competições – há voluntários para atirar a primeira pedra?

Mas, como em tudo, é a escala que incomoda neste caso. A escala de calculismo de um projecto destinado a provar que tudo pode ser comprado. E, já agora, a escala de caseirismo da arbitragem, que, sendo fenómeno recorrente em competições deste tipo, em qualquer modalidade, atingiu no Qatar níveis nunca antes vistos. Convenhamos, não é evidente fazer o 20º classificado do ranking mundial passar diretamente para 2º sem uns empurrõezitos pelo caminho.

Esta segunda foto é menos óbvia do que a da primeira. Mas é, talvez, ainda mais eloquente. Porque se a naturalização oportunista de desportistas é um fenómeno cada vez mais comum nos tempos que correm, já a importação de dezenas de adeptos revela um pragmatismo de ação ainda ao alcance de poucos. E foi também a pensar nos grandes planos televisivos que a organização recrutou em Espanha uma claque encarregada de apoiar a seleção organizadora e ensinar os adeptos locais a dar vida aos novos pavilhões state of the art de Doha. Eram cerca de sessenta. Sessenta atores secundários nesta enorme encenação de poder com direito a viagem, férias pagas, e acesso a todos os jogos, a troco de cânticos, bombos, e uma mão no coração no momento do hino. Incluindo no jogo contra a Espanha, claro. O dinheiro compra a excelência, compra os meios e compra tempo, já o sabíamos. O que esta foto nos diz é que também compra a paixão.

Com grandes espectáculos, magníficas e inovadoras transmissões televisivas e recintos de luxo, também eles construídos em tempo recorde com mão de obra estrangeira - mas nada bem paga, neste caso - o Mundial de andebol foi um enorme sucesso. Mas foi, também, uma caricatura a traço grosso daquilo em que o desporto profissional tem vindo a tornar-se. Na exibição do culto de um sucesso musculado e obrigatório, que atropela memórias, raízes históricas e referências culturais. Pensem nisso, da próxima vez que ouvirem alguém dizer «o importante é ganhar, não importa como». Ou então não pensem: juntem-se ao coro e gritem-no também, a plenos pulmões, pondo a mão no coração durante o hino que tiverem aprendido há menos tempo.

Quem não viu os jogos do Qatar no Mundial de andebol perdeu a oportunidade de ter um vislumbre do futuro. E, como Leonard Cohen avisou há mais de 20 anos, ele não é bonito.