«CHUTEIRAS PRETAS» é um espaço de Opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Um olhar assumidamente ingénuo sobre o fenómeno do futebol. Às quintas-feiras, de quinze em quinze dias. Pode seguir o autor no Twitter. Calce as «CHUTEIRAS PRETAS».

«Amo estar aqui, amo a cidade, amo as pessoas, o clube. Acho que ninguém sente o clube como eu».

Héctor Herrera, 6 de maio de 2018

A fé é uma ligação solitária e individual ao Universo. A Deus, a Buda, a Apolo ou Dionísio. Cada um de nós acredita no que quer. No que pode. Apoia-se em muletas invisíveis, em forças naturalmente abstratas. Num clube de futebol, por que não?

Em períodos de dor, de luta e luto, o ser humano agarra-se ao inamovível. À esperança. Esteja ela estampada no rosto da Nossa Senhora, numa receita médica ou no emblema de uma instituição desportiva.

O adepto devoto de um clube, não tenhamos dúvidas, é a maior prova viva de que a cura existe. Sempre. Pode ser difícil acertar a dosagem certa, os momentos de toma, mas as melhoras não têm necessariamente de ser as da morte.

Todos temos algum amigo, parente ou conhecido que é profundamente doente – no bom sentido, vá – por um clube. Grande ou pequeno, não interessa. É uma doença incurável, sim, embora passível de longas fases de felicidade ou, simplesmente, de epifanias nostálgicas.

A grande novidade que tenho para vos dar é que este diagnóstico, normalmente atribuído ao culto popular, pode contagiar também futebolistas profissionais. Eu, cético moderado, perdera há vários anos a esperança em tamanha improbabilidade.

A prova metafísica, sem pastorinhos ou inclinações solares miraculosas, surgiu-me pela boca de Héctor Herrera.

Como não ficar rendido, quiçá comovido, ao ouvir «um mexicano», como a ele se referiu Sérgio Conceição, falar daquela forma de um clube português? Em pleno século XXI, no apogeu do mercantilismo globalista, Herrera abre o coração e confessa o seu amor escassamente platónico pelo FC Porto.

Não me falem de SAD’s, CMVM, relatório e contas, transferências recheadas de comissões obscuras. O que o adepto quer, o que o adepto exige, aliás, é ter jogadores deste calibre moral.

Jogadores que percebem o que significa cada uma das taças no Museu, jogadores cuja humildade os desperta diariamente para a mais básica das realidades: antes deles chegarem, já o clube existia há décadas.

A história de Herrera é especialmente tocante. Nasceu em Tijuana, problemática urbe na fronteira mexicana com San Diego, passou a infância e a adolescência em Playas Rosarito, ganhou provas de ciclismo – vale a pena recordar a reportagem «Herrera, o rapaz da bicicleta habituou-se a cair e levantar» - e de equitação.

Tudo isto antes, muito antes, de sonhar jogar, sofrer, amar e chorar pelo FC Porto.

Com 28 anos, Herrera superou a síndrome de patinho feio e já tem mais de 200 jogos pelos dragões em cinco épocas. Foi campeão nacional pela primeira vez e gritou para quem o quis ouvir o amor ao emblema que todos os meses lhe paga.

Ao escutar Herrera, repus momentaneamente o meu nível de fé pelo futebol. A blasfémia do mexicano devia ser um case study e um formulário de leitura obrigatória para quem chega de fora. De longe.   

Deus, Alá ou uma caixa de Benuron podem ajudar a salvar vidas, mas são homens como Herrera que as fazem mais felizes.

«CHUTEIRAS PRETAS» é um espaço de Opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Um olhar assumidamente ingénuo sobre o fenómeno do futebol. Às quintas-feiras, de quinze em quinze dias. Pode seguir o autor no Twitter. Calce as «CHUTEIRAS PRETAS».