«Acima disto não há mais nada».

Esta é uma frase que Luís Freitas Lobo costuma dizer. E João Garcia gosta de ouvir, já agora.

O famoso comentador desportivo usa-a, habitualmente, em jogos grandes, quando as estrelas se reúnem e deixam o mundo de olhos pregados num ecrã e a mente a divagar por galáxias de futebol.

No último fim de semana, Carlos Eduardo teve o seu «acima disto não há mais nada». Criou a «Starway to Heaven». Realizou «Shawshank Redemption». Inventou o final de «Breaking Bad».

Em 90 minutos, Carlos Eduardo foi o Brasil pentacampeão do mundo. A Torre de Gustavo Eiffel. O Real Madrid de «La Décima». A Teoria da Relatividade de Einstein.

Criou um marco para sempre. Mesmo que não seja para o sempre de todos. Para o seu sempre, será certamente. Em 90 minutos, Carlos Eduardo foi o golo do século de Maradona. O iPhone de Steve Jobs. O 3310 da Nokia.Foi o golo de placa de Pelé. O Portugal-Coreia de Eusébio. O calcanhar de Madjer. Old Trafford de Costinha. Alkmaar de Miguel Garcia.

Foi Secretário no Real Madrid.

E foi Salenko.

Pediram, um dia, ao russo para explicar os cinco golos num jogo, durante o Mundial de 94. Respondeu com a maior sinceridade possível: «Bem, ter sido contra os Camarões ajudou».

O Guingamp foi os Camarões de Carlos Eduardo. Carlos Salenko Eduardo, até prova em contrário.

Sim, porque a partir de agora começa o período de desvinculação. Carlos Eduardo, como Salenko, teve o seu «acima disto não há mais nada». Mas o brasileiro ainda tem tempo de tentar que o resto não seja esquecido.

Porque lembrar Salenko é, e ele sabe, lembrar um jogo. Um apenas.

Ele que foi o único jogador a ser melhor marcador de um Mundial Sub-20, em Riade, e de um Mundial de Seniores, nos EUA.

Ele que foi o único jogador a ser melhor marcador de um Mundial sem passar a fase de grupos.

Ele que jogou no Valência, Glasgow Rangers, Dínamo Kiev ou Zenit.

Mas, também, ele que nunca voltou a marcar pela seleção russa. Ele que nunca antes tinha marcado pela seleção russa. Ele que teve apenas nove internacionalizações.

Salenko não deixou marca por mais nada, até porque dificilmente faria melhor.

Quando o telefone acalmar, as palmadas nas costas ficarem mais fracas e os sorrisos rasgados se transformarem em avisos, virá a consciência. Está feito. «Acima disto não há mais nada».

Para Carlos Eduardo, como foi para Salenko, agora é sempre a descer até à reforma.

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