PLAY é um espaço semanal de partilha, sugestão e crítica. O futebol espelhado no cinema, na música, na literatura. Outros mundos, o mesmo ponto de partida. Ideias soltas, filmes e livros que foram perdendo a vez na fila de espera. PLAY.

SLOW MOTION:

«I, Tonya» - de Craig Gillespie

O PLAY abandona momentaneamente o circuito alternativo e pisa a carpete vermelha e mainstream de Hollywood. I, Tonya está nomeado para três Oscars e é um dos melhores filmes de 2017 no que toca ao mundo do desporto, se bem que grande parte dele seja apenas uma ténue variante sobre o universo da patinagem artística.

Aqui recupera-se a perigosa rivalidade entre Tonya Hardigan e Nancy Kerrigan. Kerrigan é agredida violentamente num dos joelhos e o FBI inicia uma investigação que o leva a… Hardigan, claro.

A trama não é historicamente certeira, mas a interpretação de Margot Robbie (Hardigan) e especialmente da mãe (uma impressionante Allison Janney) elevam a película a uma dimensão superlativa.

A pressão do sucesso, a obsessão de superar Kerrigan, o lado perigoso da perturbação emocional crónica, tudo é espremido pelo realizador Craig Gillespie, até que nada reste para explorar na doentia personalidade de Tonya Harding.

Um bom filme, duas extraordinárias interpretações, uma visita pelo desconhecido mundo da patinagem artística olímpica nos anos 90.

PS: «The Post» – de Steven Spielberg

Meryl Streep e Tom Hanks são extraordinários. Steven Spielberg é um génio. Dito isto, é importante avisar desde já que saí desiludido da sala de cinema com este The Post. As expetativas eram altíssimas, naturalmente, mas Spielberg falha essencialmente no ritmo e na organização métrica da primeira metade do filme.

A partir de dada altura, sim, temos o cinema de Spielberg. Diálogos fortíssimos, emoção cavalgante, o puzzle a aproximar-se do seu desenho final, sem se saber bem como tudo acaba.

Está nomeado para Melhor Filme, mas é inferior, por exemplo, a Spotlight (2015), onde outra importante investigação jornalística é tratada com uma sensibilidade que Spielberg nunca aplica neste The Post.

SOUNDCHECK:

«Roger Federer - Grand Slam Man» - dos Binge

Um dos meus ídolos está de volta ao lugar de onde nunca devia ter saído: o topo do ranking ATP. «O Regresso do Rei» escreveu o Maisfutebol na sua manchete desse dia.

Numa rápida pesquisa descobri esta música criada pelos norte-americanos Binge, uma banda de New Jersey, em honra a Federer. E não é que a melodia e a letra fazem todo o sentido?

Parabéns, Roger! És o melhor de todos os tempos.

«Roger Federer, you're getting better-er

Every time I see you play Roger Federer,

that's what I said-er-er

You're gonna win it anyway

He's your Grand Slam Man

He's your Grand Slam Man

He's from Switzerland,

he's a wunderkind

But don't get in his way

You know he's hopin' to win the Open

He's got the opportunity

Roger Federer, you're a predator

He'll attack you from the start

Roger Federer, you're a shred-er-er

He will tear you right apart

He's your Grand Slam Man

He's your Grand Slam Man

This one's for the fans

Roger Federer, you're getting better-er

I know you always steal the show

Roger Federer, put on your sweater-er

C'mon it's time to go

He's your Grand Slam Man

He's your Grand Slam Man

He's not just working on his tan

He's even won in Rotterdam...

And they like him in Japan...

He's your Grand Slam Man».

PS: «Call Me by Your Name - OST»

Lombardia, Itália, 1983. O amor secreto e perigosamente proibido entre dois homens, um adolescente de 17 anos e o aluno do seu pai, um arqueólogo reputadíssimo.

O filme de Luca Guadagnino está entre os melhores para a Academia de Hollywood, mas o que aqui destaco é a extraordinária banda sonora, em particular as composições do incomparável Sufjan Stevens.

Podia estar aqui a música que fecha o filme, provavelmente na sua mais bela cena, mas em vez de Visions of Gideon opto por Mistery of Love.

VIRAR A PÁGINA:

«Béla Guttmann, de Sobrevivente do Holocausto a Glória do Benfica» - de David Bolchover

«Guttmann (27 de Janeiro 1899 – 28 de Agosto 1981) fez fortuna a vender álcool ilegal nos Estados Unidos, foi professor de dança e sobreviveu ao Holocausto escondido no sótão de um salão de cabeleireiro situado perto de Budapeste, antes de se tornar o lendário treinador da década de 60 do Benfica, cuja “maldição” ainda perdura, mesmo depois de inaugurada uma estátua no estádio e do próprio Eusébio ter rezado na campa do treinador, em 1990, pouco antes de mais um final perdida, em Viena, no Prater.»

A editora Oficina do Livro faz um resumo fantástico sobre uma vida extraordinária. Faltou acrescentar que Béla Guttmann treinou também o FC Porto em dois períodos diferentes, embora sem o sucesso alcançado na Luz. Mesmo assim, foi campeão nacional em 1959 nas Antas.

«Enriqueceu a jogar à bola e na roleta, mas perdeu tudo em 1929, na famosa sexta-feira negra na bolsa nova-iorquina. Na II Guerra Mundial, ainda enviado para um campo de trabalhos forçados, de onde conseguiu fugir em Dezembro de 1944, pouco antes de ser enviado para Auschwitz. O pai, irmã, e muitos outros familiares, morreram nesse campo de concentração.»

Terça-feira, dia 20, o livro chega às bancas. Eu diria que é absolutamente imperdível. 

«PLAY» é um espaço de opinião/sugestão do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Pode indicar-lhe outros filmes, músicas e/ou livros através do e-mail pcunha@mediacapital.pt. Siga-o no Twitter.