PLAY é um espaço semanal de partilha, sugestão e crítica. O futebol espelhado no cinema, na música, na literatura. Outros mundos, o mesmo ponto de partida. Ideias soltas, filmes e livros que foram perdendo a vez na fila de espera. PLAY.

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SLOW MOTION:

«LIVING WITH DRAGONS»

Com que então, o País de Gales. Sim senhor, bonito. Nada a opor.

Nada? Bem, pensando melhor, tudo. Tudo a opor.

Pensava eu, pelos vistos ingenuamente, que tínhamos um acordo irrevogável. E que o dr. Portas não entrava nestas questiúnculas diplomáticas. Aborrecidas, quiçá, mas inquebráveis.

Quer-me parecer, e posso apresentar dezenas de testemunhas abonatórias à minha causa, que na década de 80 ficou traçado um mapa cor de rosa – literalmente, foi riscado numa camisola da mãe do meu amigo Nuno – entre as forças do futebol e do râguebi.

À mesa das negociações estava a malta toda lá da rua.

A esmagadora maioria, obcecada por futebol e respetivos derivados – cadernetas de cromos, camisolas contrafeitas compradas na feira de Pedras Rubras, bolas de todas as cores e feitios, posters de D10S imaculado – de um lado, os maluquinhos do râguebi (dois, na verdade) do outro.

No sagrado tratado ficou estabelecido o seguinte: da Rua A para baixo as bolas de râguebi passavam a ser interditas; da Rua A para cima – um pátio de odores irreproduzíveis, algo entre o putrefacto e o sobrenatural – deixávamos os nerds do râguebi em paz.

É importante sublinhar que por esses dias, e naquela freguesia em concreto, o futebol impunha uma ditadura cega. Implacável, por vezes cruel. Os que a aceitavam, passariam a estar do lado Bom da Força; os que a afrontavam, bem… entregavam-se ao râguebi ou a coisas piores (cheguei a ver um puto com um tabuleiro de xadrez na mão).

Não me orgulho deste passado fanfarrão, mas a verdade é esta: o meu Estado rejubilava e a anarquia morria à nascença. A Resistência era praticamente nula.

Daí em diante, afastados esses dois traidores à nossa querida pátria do futebol, limpámos as ruas e criámos um lema. Jocoso, sórdido, corrosivo. Cada remate desenquadrado da baliza – quanto mais alto, pior – passou a ser documentado com uma gargalhada demoníaca e um comentário irresistível: pumbaaaaa, três pontos para o País de Gales!!!

Sim, amigos leitores, nasceu ali, na minha rua e disseminou-se por todo o nosso Portugal. Arrasou fronteiras concelhias, galgou distritos, dominou regiões: pumba, três pontos para o País de Gales (com vários pontos de exclamação).

Reparem: a partir do momento em que rubriquei o nosso tratado no mapa cor de rosa, Gales passou a ser uma mera expressão idiomática. Uma oportunidade para exprimir arrogância e condescendência.

Portugal, futebol / País de Gales, râguebi. Até os meus dois colegas, afastados como leprosos, aceitaram este quadro.

Fechei os olhos a Ian Rush, sim; tolerei o saudoso Gary Speed em vários saves do Championship Manager, confesso; cheguei até, em tempos, a venerar Ryan Giggs. Mas nunca, nunca na vida, poderei aceitar a intromissão de uma seleção de futebol do País de Gales no meu bem estar.

Por isso, caríssimos, já chega. Está tudo muito bonito, Bale, Ramsey e Allen, engraçado e tal, mas chega. Chega e acaba quarta-feira.

Portugal, futebol / País de Gales, râguebi.

Está consagrado no meu mapa cor de rosa. Ad Eternum.

PS: em 2003, no filme Big Fish (o meu favorito de Tim Burton), uma das personagens diz que a realidade - chata, sensaborona - é uma base fantástica para contar boas histórias. Fantasia e real de mãos dadas. Este PLAY é uma homenagem ao filme de Burton. 

«CINE FUTEBOL CLUBE»: 8 e 9 de julho na cidade do Porto

O homem quis, a obra nasceu. No caso em questão, os homens quiseram. E a obra voltou a nascer. Nos próximos dias 8 e 9 de julho, pelas 21 horas, terá lugar a primeira edição do CINE FUTEBOL CLUBE, o 1º Festival de Cinema e Futebol na cidade do Porto.

No comité organizativo estão os jornalistas Rui Frias (DN), Ivo Costa (SporTV), Francisco Ferreira (TVI), Sérgio Pires (MaisFutebol) e César Nobrega (Rádio Nova). Um quinteto de luxo e que garante, per se, o sucesso que o certame bem merece.

A eles associou-se a agência de comunicação Busílis da Comunicação. E tudo se tornou, finalmente, possível. A entrada é livre (um luxo!) e o festival decorrerá nas Galerias Lumière.

O cartaz é riquíssimo. Na primeira noite poderemos ver «Ernesto no país do futebol», «El otro fútbol» e «Pelada».

Na segunda é a vez de «O primeiro João», «The other final» e «The mouse that scored».

Após a exibição das películas haverá tempo e espaço para troca de ideias. Cinema e Futebol juntos numa sala de cinema perto de si. Too good to be true. O PLAY associa-se com assumido prazer a esta iniciativa. 

«PLAY» é um espaço de opinião/sugestão do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Pode indicar-lhe outros filmes, músicas e/ou livros através do e-mail pcunha@mediacapital.pt. Siga-o no Twitter.