PLAY é um espaço semanal de partilha, sugestão e crítica. O futebol espelhado no cinema, na música, na literatura. Outros mundos, o mesmo ponto de partida. Ideias soltas, filmes e livros que foram perdendo a vez na fila de espera. PLAY.

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SLOW MOTION:

«MENINOS DE KICHUTE» - de Luca Amberg

«Kichute». Leiam, por favor, com o sotaque adocicado: «qui-chu-txi!».

E agora num Português coloquial: «que remate extraordinário!».

As chuteiras Kichute eram o sonho das crianças brasileiras nos anos do «Eu te amo meu Brasil», ali pelos finais dos anos 60 até ao início da década de 80. Anos de ditadura militar, pois, repressiva, violenta e mentirosa.

O futebol era o tesouro protegido. Nele moravam as paixões libertinas do brasileiro, a exclamação da liberdade, a normal circulação de sangue via coração/cérebro. O amor pelos clubes – e pela modalidade – não estava abrangido pela estupidez da censura. Hosana nas Alturas!

Beto, o pequeno guarda-redes do filme, não tinha, porém, idade para entender o que o rodeava. Para ele, a ditadura limitava-se à agressividade do pai, um homem de mal com a vida, mesquinho e truculento.

Luca Amberg, feliz realizador desta película, metaforiza suavemente a sociedade brasileira nestas duas personagens: Beto, o menino apaixonado pelas balizas, é a população controlada, esventrada, subjugada; Lázaro, o pai pecaminoso, é o Estado perscrutador, incapaz de uma centelha de emoção.

Beto e os amigos jogam uma peladinha num campo de terra batida, constroem pequenas de balizas, calçam as Kichute e são, na sua pueril irreverência, verdadeiros guerrilheiros anarquistas.

Uma bela surpresa do cinema brasileiro, recheado de caras conhecidas das telenovelas da Globo.

PS: «Hell or High Water» – de David Mackenzie

Jeff Bridges é um ator portentoso. Esqueço-me muitas vezes disso. Nem sempre fez boas escolhas ao longo da carreira, mas aos 67 anos continua a dar corpo a personagens extraordinárias. Este é mais um feliz exemplo. Bridges encarna um Texas Ranger chamado Marcus Hamilton nos dias de pré-reforma.

A pacatez na esquadra é abalada com o surgimento de dois irmãos. Unidos pelo crime e a vontade de salvar o rancho da família. O realizador David Mackenzie filma o melhor trabalho da carreira, bem acompanhado por Taylor Sheridan, argumentista responsável pelo poderoso Sicário.

Aproveitem. Jeff Bridges não dura sempre.

SOUNDCHECK

«ROMÁRIO» - da Banda Bel

A ode rendida a Romário tinha de ter o ritmo do samba e a malandrice carioca. O antigo avançado foi um dos artistas mais impressionantes que vi a tocar os relvados, um trocista demagogo carregado de talento e confiança. Arrogância, aliás.

Romário é agora político em Brasília. O fato e a gravata ajudam a compor a seriedade da personagem, mas são incapazes de esconder a génese de um verdadeiro artista. Insisto: trocista, demagogo, genial.

Cantem todos comigo:

«Pega a bola, chuta

Marca em cima, faz um gol

Vai que eu quero ver você fazer

Romário anjo torto, demônio do futebol

Dribla, seduz, entorta de prazer

Príncipe de Eindhoven, Barcelona

Barreira do Vasco

Romário em campo é um bolaço

Mago das massas, mais querido

Odiado dos zagueiros

Romário é rei, Romário é o máximo

Ele é o cão

Joga com amor rolando a bola

E a bola é como o sangue correndo em suas veias

Vai com charme, dribla, dividindo os corações

Marcou mais um pra torcida brasileira

É gol, e a galera delirava

É gol, esse garoto tá danado

É gol, e a galera delirava

É gol, esse caboclo é o diabo»

PS: «22, A Million» - de Bon Iver

Estranho, experimental, contundente. O terceiro álbum de Justin Vernon apaga a candura das guitarras acústicas e polvilha as canções com arranjos eletrónicos, sintetizadores irascíveis e ritmos mais fortes. Tinha tudo para falhar e desiludir os fãs mais radicais, mas resulta.

Os refrões em falsetto e as angústias de Vernon continuam a jorrar melodiosas, embora este seja, fica o aviso, um trabalho de difícil aceitação. É um disco, de resto, que melhora a cada audição. Só pode ser um bom sinal.

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«A PIRÂMIDE INVERTIDA» - de Jonathan Wilson

Um dos aspetos mais interessantes deste trabalho de Wilson é este: nasceu de uma conversa em Portugal, à mesa de um café, durante o Euro2004.

Wilson discutia com outros jornalistas o que deveria Sven-Goran Eriksson, então selecionador de Inglaterra, fazer com a estrutura tática da equipa. 4x4x2 losango, 4x3x3, 3x4x3, todas as opções foram vistas e revistas, até que um dos convivas disparou uma heresia.

«A tática não importa. Os jogadores são sempre os mesmos e são maus».

Ora, Jonathan Wilson reagiu como qualquer analista e pesquisador poderia reagir. Escreveu um livro sobre táticas. País a país, seleção a seleção. Um potentado de informação futebolística, escrito com sabedoria e sentido de humor.

Muito recomendável.

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