É provável que as críticas à rotatividade (já uma das palavras da época 2014/15) de Julen Lopetegui digam mais sobre nós do que sobre o trabalho do treinador do FC Porto. Em crise podem estar apenas algumas das ideias em que sempre acreditámos.

Eis uma lista possível.

1. Uma equipa de futebol começa a fazer-se de trás para a frente 

2. A rotina é a base de quase tudo no futebol

3. Entrosamento. Durante anos usámos esta palavra, apesar de feia. Os jogadores estavam entrosados depois de passarem muito tempo em campo, juntos

4. O plantel de um clube é formado por uma dúzia de jogadores de primeira, o resto são jogadores destinados a jogar de vez em quando. Porque menos bons ou em crescimento

5. As equipas precisam de tempo para ser construídas. E por tempo entendemos qualquer coisa entre muitos meses e anos

6. Os jogadores menos bons só podem ter oportunidades na Taça de Portugal ou na Taça da Liga

7. Quaresma tem de jogar 

Tudo bem, aceito. O último ponto é uma provocação. Já lá vou, no final do texto.

Se repararmos na lista de ideias de cima, muitas delas estão connosco há anos. Desde o tempo em que começámos a achar que percebíamos alguma coisa de bola. São verdades que não contestamos, sob pena de sermos obrigados a colocar em causa o que sempre escrevemos e defendemos sobre futebol.

O que Lopetegui está a fazer, se bem entendo, é desafiar algumas dessas ideias. E propor um caminho alternativo. 

O treinador do FC Porto não tem hesitado em mexer no centro da defesa, na baliza e nos laterais. Em tudo. Não em tudo ao mesmo tempo, mas em todas as posições, uma ou duas de cada vez. Este ponto tem sido particularmente criticado, com base numa tese: se não jogam sempre os mesmos, a possibilidade de cometer erros é maior. E tem havido erros, isso é inegável (por acaso, o mesmo tem sucedido no Benfica e no Sporting...).

Resta saber se os erros têm a ver com as alterações.

No último jogo, por exemplo, houve um erro grave: Herrera passou mal a bola a Casemiro. Não foram dois defesas (já agora…) e não teve a ver com qualquer rotina ou posicionamento. Foi simplesmente um erro técnico. Por acaso um erro cometido por um jogador que participou em todos os jogos, não uma vítima da rotatividade.

Claro que é difícil colocar em causa a bondade da rotina. Mas talvez seja mais importante a rotina de treinar num determinado sistema, sempre no máximo. Não é isso que se elogia em Jesus, por exemplo? Mudam os jogadores, mas a ideia de jogo está lá, eles chegam e depois de formados encaixam no sistema?

Não sou capaz, pois, de escrever que a rotina não interessa. Mas talvez valha a pena dar luz e peso a outros aspetos. Ao utilizar muitos jogadores como titulares, o treinador está a conseguir provar ao plantel que de facto todos contam. Ser titular depende do que oferece em jogos e treinos e, pelo que se entende das palavras de Lopetegui, também do perfil do adversário e do desafio em causa.

Os futebolistas crescem trabalhando no máximo e competindo.

Se todos os jogadores sabem que podem ser chamados a qualquer momento, é humano que estejam mais despertos, mais atentos, mais disponíveis para perceber as ideias do treinador e como as aplicar.

No FC Porto, pelo menos até agora, não existe o grupo dos que jogam sempre e os outros. Apesar de dois jogadores (Jackson e Herrera) participarem nas 13 partidas. Três (Danilo, Maicon e Brahimi) só falharam um jogo. Cinco (Fabiano, Indi, Casemiro, Ruben Neves e Tello) estiveram ausentes duas vezes. Ou seja, os números explicam-nos que existe um núcleo duro e ele é bem evidente. Mas ninguém está posto de lado.

A política de Lopetegui tem sido inclusiva. O FC Porto ainda não teve um jogo fácil, as oportunidades foram dadas em partidas a doer, quase todas no campeonato.

Esta forma de olhar para um plantel é relativamente nova. Daí ter escrito que as críticas possam ter mais a ver com a nossa resistência à mudança do que propriamente com a bondade das decisões.  Na verdade, Lopetegui nem sequer utilizou mais jogadores do que é comum nos grandes clubes europeus. Essa análise permite detetar que outros treinadores, em outros campeonatos, caminham sobre a mesma linha do treinador portista: mudam muito . O Bayern Munique e o Barcelona, ambos treinados por espanhóis, são exemplos. 

Entre o momento em que alguém decretou as ideias expostas no início do texto e hoje, aconteceram três alterações relevantes no futebol.

1. Os jogadores competem muito mais 

 

2. A pressão a que estão sujeitos é muito maior

3. Os tempos de recuperação (de esforço e de lesão) foram encurtados

Se todos aceitamos que isto é assim, como podemos pedir a um treinador que nada faça, que assista passivamente ao desgaste dos jogadores fundamentais?

Fazer descansar quando o treinador quer ou esperar que eles caiam para o lado?

Dar competição aos suplentes ou utilizá-los apenas quando tiver de ser e esperar que, por milagre, nesse dia estejam ao melhor nível?

Lopetegui não hesita. Até agora, não vejo que falte lógica à sua forma de gerir o plantel.        

Por fim, Quaresma.

Ninguém, crítico ou adepto portista, está disposto a cansar-se numa discussão sobre «deve jogar Tello ou Brahimi?» ou em outras, igualmente empolgantes, do género «Preferes Maicon ou Marcano? Gostas mais de Ruben Neves a «6» ou a «8»?» Já sobre Quaresma todos têm uma opinião. E quase todos acham que devia jogar. 

Quando está no banco, Quaresma devia estar em campo. Quando não é convocado, devia sê-lo. Quando sai, devia ficar. Quando joga mal discute-se o Adrián que custou milhões e ainda não jogou algo que se veja.

A rotatividade de Quaresma está a condicionar muito o olhar de críticos e adeptos sobre as ideias de Julen Lopetegui. O que não é equilibrado, nem sequer justo. Mas existe e é preciso saber lidar com esse factor.

Lopetegui é um treinador sem currículo em clubes. Está numa equipa obrigada a ganhar e jogar bem sempre, sobretudo no Dragão. Chegou ao Porto com um objetivo, raro nas últimas décadas: impedir que o Benfica seja duas vezes consecutivas campeão. Recebeu muitos jogadores, que pediu. Tem de gerir Quaresma, que não é um jogador comum. 

O espanhol escolheu atingir este objetivo fazendo uma gestão diferente do plantel

Podia ter procurado transformar um médio ala em lateral. Podia ter dúvidas eternas sobre a posição certa de um jogador (este é lateral ou número 6?). Podia até ter ignorado jogadores que aceitou no clube. Mas não, escolheu utilizar a maior parte do grupo que treina e isso provoca espanto.

Se se chamasse Guardiola, Mourinho ou Ancelotti, o treinador do FC Porto teria um nome e um passado que lhe dariam tempo e credibilidade. Assim, precisa de resultados e de uma comunicação correta, que ajude os adeptos a entender o que está a fazer. Já agora, convém que esteja certo. Mas isso é verdade para todos os treinadores, não é? Mesmo que estar certo ou errado dependa apenas do remate de um Kelvin.

Ainda me lembro das páginas que se escreveram contra Eriksson por estar a desvirtuar o futebol português ao trazer jogadores como Stromberg e Maniche. Hoje faz sorrir, na altura fazia manchetes. Não acho que Lopetegui seja Eriksson ou possa ter no futebol de cá o efeito duradouro do sueco. Mas é apressado criticar só porque é diferente, fácil e coloca em causa as nossas convicções, velhas de décadas.         

(para uma visão completamente diferente do tema, leia este texto)